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A decadência da autoridade: Onde o giz e a farda se encontram

Buscando uma solução para um problema que nos era apresentado com base em uma narrativa ideológica, destruímos a hierarquia na base da educação e agora colhemos, perplexos, os frutos podres refletidos no caos, desde as salas de aula até as ruas.

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A decadência da autoridade: Onde o giz e a farda se encontram

Não é preciso ser um gênio da sociologia para enxergar que alguma coisa está muito errada quando vemos um aluno, do quinto ano, se sentindo no direito de “bater boca” com um professor em sala de aula, ou mesmo quando um cidadão, em uma abordagem, entende a ordem do policial como uma sugestão que depende de sua deliberação. Existe um paralelo que liga diretamente o silencio, o respeito e a admiração ao mestre em sala de aula a paz nas ruas de uma grande metrópole, e isso depende quase que exclusivamente do reconhecimento da Autoridade. No Brasil, porém, esse conceito foi tão vilipendiado, tão caricaturizado à imagem do chicote e da bota, do abuso de poder e da violência, que fomos forçados a jogar fora o bebê junto com a água do banho. Buscando uma solução para um problema que nos era apresentado com base em uma narrativa ideológica, destruímos a hierarquia na base da educação e agora colhemos, perplexos, os frutos podres refletidos no caos, desde as salas de aula até as ruas.

O Mestre como Auctoritas: A Hierarquia que Liberta

Na tradição clássica e na sã doutrina cristã, a autoridade nunca foi vista como o oposto da liberdade, mas como a sua própria condição de existência. O termo latino auctoritas vem de augere, que significa "fazer crescer". O verdadeiro mestre, o Magister, não era um tirano que esmagava a vontade do aluno, mas um guia que, por possuir uma estatura moral e intelectual superior, tinha o direito e o dever de conduzir o jovem para fora da caverna da ignorância. Como ensinava Santo Tomás de Aquino, a relação entre professor e aluno é uma imagem da ordem divina: um ato de caridade intelectual onde quem "tem" transborda para quem "ainda não tem".

Essa hierarquia não é um capricho, mas uma necessidade da natureza humana, para que o conhecimento flua, é preciso que haja um polo emissor respeitado e um polo receptor humilde. Sem essa "desigualdade" inicial, o ensino vira um monólogo vazio ou, pior, uma assembleia de ignorantes, portanto quando a escola renuncia à sua autoridade, ela trai o aluno, deixando-o órfão de modelos. Se o professor não é mais o mestre, ele torna-se apenas um "prestador de serviço" ou, na linguagem moderninha, um "facilitador", e convenhamos: ninguém morre por um facilitador, ninguém respeita aquilo que não admira.

A perda dessa autoridade moral é o primeiro dominó a cair, se a criança não aprende a baixar o tom de voz diante de quem detém o saber e a experiência, o adulto não baixará a cabeça diante de quem detém a lei. A hierarquia escolar é o laboratório da civilização, é neste ambiente que se aprende que a vontade individual não é o umbigo do universo e que existem ordens que precisam ser obedecidas simplesmente porque são justas e procedem de uma fonte legítima, onde a coletividade vale mais que a sua vontade. Sem esse aprendizado precoce, o cidadão torna-se um bárbaro indomável, que questiona toda e qualquer ação de autoridade que contrarie sua vontade e passa a responder apenas ao uso da força bruta.

A Sabotagem Frankfurtiana: A "Horizontalidade" como Armadilha

E onde foi que o trem descarrilou? A resposta passa, inevitavelmente, pelo projeto de desconstrução da Escola de Frankfurt e pela pedagogia de Paulo Freire, ambos, sob o pretexto de combater uma suposta "educação bancária" e autoritária, pregaram a horizontalidade absoluta, onde o professor passou a ser visto como um "par" do aluno, e qualquer tentativa de impor ordem ou exigir respeito foi rotulada como "opressão". Mas não nos deixemos enganar, não foi um mero erro de calculo, nem uma coincidência triste, Max Horkheimer e seus seguidores sabiam muito bem o que estavam fazendo: para implodir a sociedade "burguesa" e cristã, era preciso primeiro matar a figura do pai e, por extensão, a do professor, ao apontá-los como precursores do autoritarismo, a temporada de caça foi aberta.

O homem em sua essência de criatura, sempre estará em busca de uma autoridade, criado para conhecer, amar e servir ao seu criador, estará, mesmo que involuntariamente, disposto a se subordinar. Um bom exemplo é imaginarmos os grandes imperadores romanos, que embora tivessem todo o poder, inclusive sobre a vida e a morte de todos aqueles sob sua égide, buscavam seus oráculos, pseudo deuses, que determinavam suas ações. Retirar a autoridade do professor em sala de aula, não diminuiu em nada a necessidade do homem de estar sob o julgo de um mestre, apenas deixou um vazio a ser preenchido, tornando uma presa vulnerável.

Essa mentalidade revolucionária transformou a sala de aula num campo de batalha ideológico, em vez de transmitir o Logos — a razão ordenada —, o foco passou a ser a "subversão das estruturas", e o resultado trágico, desta decisão, é uma geração de jovens que confunde grosseria com pensamento crítico e insubordinação e a escravidão de suas paixões com liberdade. Ao nivelar por baixo a relação mestre-aluno, a educação moderna retirou do jovem o seu "norte", sem um superior a quem admirar e obedecer, sem um guia, um líder, o adolescente volta-se para o grupo, para a gangue ou para o crime organizado, onde a hierarquia — ironicamente — é aplicada com uma violência que a escola nunca ousou exercer.

A ironia trágica é que, ao fugir da "autoridade do giz", a juventude caiu na "tirania do fuzil", onde falta a autoridade moral da escola, sobra o autoritarismo sanguinário das facções, o crime organizado desperta no adolescente um sentimento de pertença, ele passa a fazer parte de uma estrutura hierarquizada onde as regras existem para serem cumpridas e as consequência do não cumprimento são reais e imediatas. Freire dizia que "ninguém educa ninguém, os homens se educam entre si", mas na prática o que vemos é uma horda de indivíduos desorientados, incapazes de reconhecer qualquer autoridade além dos próprios apetites, essa desconstrução não foi um acidente de percurso, foi parte de um elaborado plano de deterioração da civilização, planejado para tornar a sociedade ingovernável e dependente de um Estado cada vez mais opressor para conter o caos que a ele mesmo criou.

Do Pátio Escolar ao Patrulhamento: O Espelhamento do Caos

O nexo causal entre a escola indisciplinada e a rua violenta é direto e reto, o policial militar, o guarda de trânsito e o delegado são, para o cidadão comum, a extensão da autoridade que ele deveria ter aprendido a respeitar no pátio do colégio e em sua casa, porém, se o jovem passa quinze anos ouvindo que a autoridade é uma construção social opressora, por que ele respeitaria uma farda? Para o "homem sem peito" da modernidade, o policial não é o guardião da ordem, uma garantia de segurança, um moderador da dura convivência social, mas um adversário, um "rival" no jogo de quem manda mais.

Essa erosão do respeito torna o trabalho de segurança pública uma tarefa de Sísifo, o policial brasileiro trabalha sob uma pressão esquizofrênica: ele precisa manter a ordem numa sociedade que não acredita na ordem. Cada abordagem vira um potencial conflito, pois o cidadão "conscientizado" pela pedagogia crítica sente-se ofendido ao ser questionado, é a geração do “mimimi”, o "cidadão de vidro", que quebra diante de qualquer imposição de limite. Essa falta de reverência à autoridade legítima faz com que o crime se sinta em casa, o bandido sabe que, numa sociedade onde a hierarquia está em ruínas, ele pode posar de "vítima do sistema" e encontrar eco em mentes previamente lobotomizadas pela escola, a falta de caráter e disciplina moral torna-se “fruto de uma sociedade desigual”.

Além disso, a destruição da autoridade na escola desarmou moralmente o próprio policial, muitos agentes da lei, frutos dessa mesma educação relativista, sentem-se inseguros em exercer a autoridade que lhes foi delegada, eles temem o "tribunal das redes sociais", o “cancelamento” e o julgamento de uma elite intelectual que odeia a farda tanto quanto odiava o mestre. Quando a autoridade é vista como um pecado, o caos torna-se uma virtude, por isso a insegurança pública no Brasil é o espelho de salas de aula onde o silêncio foi substituído pelo grito e o respeito pelo deboche.

Restaurar o Altar e a Cátedra: O Caminho de Volta

Não há solução para a violência que não passe pela restauração do princípio de autoridade, e isso não se faz com mais leis, mas com uma mudança de espírito, precisamos voltar a entender que o professor é uma autoridade sagrada, o delegado de uma sabedoria que o transcende e que este nunca deverá se ajoelhar diante de uma criança para entrar em seu mundo, estar na sua altura, é necessário que a criança desde cedo reconheça que há sempre uma autoridade que está acima, aquele de pé diante dele é alguém que está em um nível elevado, em que só é possivel chegar seguindo seus ensinamentos.

Precisamos de escolas que não tenham medo de exigir o uniforme, o horário, o silêncio o tratamento formal, o respeito aos funcionários, e a reverência aos mestres. É inadmissível aceitarmos uma pedagoga que exija de uma criança o tratamento de “você”, ou pior ainda de “profe”, que passe o ano todo na busca insana de ser enxergada como melhor amiga da turma. Como dizia o provérbio clássico: "A obediência é a mãe do sucesso e a guardiã da vida".

Essa restauração exige coragem para enfrentar o discurso hegemônico que domina as faculdades de educação, é preciso enfrentar as narrativas e dizer, em alto e bom som, que a hierarquia é o que protege o mais fraco. Numa sociedade sem autoridade, quem impera é a lei do mais forte, do mais brutal, do mais armado, assistimos a isso durante toda a trajetória da humanidade, não se trata de um filme novo. A escola que restaura a autoridade do mestre está, na verdade, protegendo o aluno da tirania dos seus próprios instintos e da barbárie que o espera na esquina, é no "sim, senhor" dito ao professor que se começa a construir o cidadão que não precisará ouvir o "mãos na cabeça" do policial.

O policial e o professor são, em última análise, os dois pilares que sustentam a mesma abóbada civilizatória, se um cair, o outro não demora a vir abaixo, enquanto um ensina a ordem por dentro; o outro garante a ordem por fora. Enquanto continuarmos a tratar o mestre como um "colega" e o policial como um "opressor", o Brasil continuará sendo esse canteiro de obras abandonado, uma nação inacabada onde a única coisa que cresce é o mato da impunidade e a sombra do medo.

Referências Bibliográficas

AQUINO, Santo Tomás de.Suma Teológica. I, Questão 117 (Sobre o mestre). Tradução de Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001.

FREIRE, Paulo.Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Citado como contraponto).

HORKHEIMER, Max.Teoria Crítica. São Paulo: Perspectiva, 1991. (Referência para a desconstrução da autoridade).

LEWIS, C. S.A Abolição do Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

PLATÃO.A República. Livro III (Sobre a educação dos guardiões). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

SÃO VÍTOR, Hugo de.Didascalicon: da arte de ler. Petrópolis: Vozes, 2001.

Clodomar Rodrigues - Coronel da Policia Militar do Estado de Rondonia

Comandante Regional de Policiamento II


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