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Alta do endividamento familiar gera preocupação na indústria de carne

Num ano em que embarques à China devem recuar, há dúvidas entre exportadores se mercado interno vai absorver o que não será enviado ao país asiático

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O endividamento reduz o consumo dos brasileiros, alerta o setor de carne bovina — Foto: Canva/Creative Commons

O endividamento elevado das famílias brasileiras, que já afeta o consumo de alimentos, acendeu um sinal de alerta entre os frigoríficos, especialmente num ano em que as exportações de carne bovina para a China — o principal cliente do Brasil — devem recuar.

Em entrevista a jornalistas nesta terça-feira (5/5), o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, disse que o quadro preocupa a indústria de carne bovina porque o mercado doméstico, destino de cerca de 70% da produção nacional, poderia absorver parte da carne que deixará de ser importada pela China neste ano. Mas o endividamento reduz o consumo dos brasileiros.

O país asiático impôs uma cota de 1,1 milhão de toneladas sem tarifa extra de 55% ao Brasil neste ano. O volume é inferior ao total de 1,7 milhão de toneladas exportadas pelos frigoríficos brasileiros à China em 2025. Mesmo no mercado asiático, com consumo ascendente de proteínas, não há compradores com apetite equivalente ao chinês, disse Perosa.

“Se vamos ter uma queda brusca das exportações à China, para onde vai esse volume? A gente quer que aumente o consumo interno, para equilibrar o que a gente não vai conseguir exportar”, afirmou.

Considerando que os embarques de carne bovina brasileira à China dentro da cota neste ano serão em torno de 35% menores do que em 2025, a Abiec avalia que as exportações brasileiras possam cair em torno de 10% em 2026.

Ainda que haja a possibilidade de importadores chineses continuarem comprando carne bovina brasileira com tarifa extra, a produção para o país tende a diminuir, sendo retomada com mais força somente a partir de outubro, para que as cargas cheguem ao país asiático no começo de 2027.

Aos jornalistas, Perosa apontou o aumento dos gastos dos brasileiros com apostas em plataformas (bets) como um dos fatores que elevam o endividamento e estariam afetando o consumo. De acordo com ele, o tema foi discutido em reunião na segunda-feira com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, da qual também participaram representantes de varejistas.

As entidades apresentaram ao governo dados levantados pela Nielsen mostrando que famílias de baixa renda consumiram 9,6% menos no último trimestre de 2025, em comparação ao mesmo período de 2024. Já o mercado das bets e jogos online movimentou cerca de R$ 360 bilhões.

Na reunião com Alckmin, que teve ainda a presença do CEO do Assaí e presidente do conselho da Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (Abaas), Belmiro Gomes, as entidades apresentaram propostas para limitar o avanço das bets, especialmente as ilegais, sobre a renda, disse Perosa.

Citando também pesquisa da Nielsen, o presidente da Abiec afirmou que a expectativa é que neste ano de Copa do Mundo, os gastos com bets e apostas dobrem, para ao redor de R$ 600 bilhões, entre operações em bets legalizadas e ilegais.

Segundo estudo da consultoria LCA encomendado pelo Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), os gastos com bets representam apenas 0,46% do consumo, nível próximo ao de bebidas alcoólicas, de 0,5%.

Nesse cenário de redução de vendas à China e queda na demanda doméstica, a Abiec busca abrir mercados novos e expandir os já conquistados.

Há, contudo, limitações de diversas naturezas, incluindo a falta de perspectiva de prazo de abertura de mercados há anos desejados por exportadores brasileiros, como Japão, Turquia e Coreia do Sul, cujo consumo poderia compensar a redução das vendas de carne bovina à China.

“Estamos buscando novos mercados, mas o problema é o volume, não há um mercado que substitua o chinês”, afirmou Perosa. “Ainda tenho esperança que o Japão possa abrir mercado neste ano”, disse.

Uma missão técnica japonesa veio ao Brasil há um mês para inspecionar o sistema de produção de carne bovina, e visitou dois frigoríficos, no Paraná e no Rio Grande do Sul. Segundo Perosa, a expectativa é que o governo japonês se posicione em breve sobre a visita, quando deverá informar se serão necessários dados adicionais ou se o processo avançará.

Por Clarice Couto — São Paulo


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