
A Rússia reconheceu o Brasil como território livre de febre aftosa sem vacinação. A confirmação oficial foi transmitida pelo Rosselkhoznadzor, o serviço veterinário russo, ao governo brasileiro nessa quarta-feira (10/6), disse o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua.
Com isso, a expectativa é que as plantas habilitadas possam exportar também carne bovina com osso para lá e ampliar as vendas, que voltaram a crescer nos últimos anos. Recentemente, a China também reconheceu o status sanitário brasileiro.
“Estamos vendo se será automático ou não a exportação de carne com osso, estamos fazendo uma consulta para entender se temos que fazer algum processo adicional”, afirmou Rua à reportagem.
Segundo ele, o reconhecimento representa uma vitória para o país em um momento delicado comercialmente com a União Europeia, que questiona os controles brasileiros para antimicrobianos e retirou o Brasil da lista de exportadores a partir de setembro. “É importante em momento que a UE coloca questões para serem discutidas”, destacou o secretário.
A Rússia já foi a maior importadora de carne bovina do Brasil. Entre 2007 e 2017, as vendas eram em torno de US$ 1 bilhão por ano. Os frigoríficos brasileiros chegaram a exportar 455 mil toneladas para lá em um ano, segundo dados do Agrostat, do Ministério da Agricultura. O comércio praticamente zerou em 2018 e voltou a crescer recentemente.
No ano passado, os russos importaram 126,4 mil toneladas da proteína brasileira, negócios que renderam mais de US$ 537 milhões. Atualmente, esse é o quarto maior mercado para a carne bovina nacional. Neste ano, até maio, foram exportadas 40,2 mil toneladas de carne in natura, com receita de US$ 178,4 milhões. Ao considerar miúdos e tripas, as vendas chegaram a 54,1 mil toneladas e US$ 245,2 milhões em negócios.
“Já foi nosso maior mercado e com o reconhecimento do status sanitário é mais um passo [para ampliar o comércio]. Começamos, efetivamente, a destravar a pauta de reconhecimento da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), começamos a ter resultados práticos disso”, completou Rua.
Com a melhoria na relação comercial, o Brasil tenta ampliar o acesso dos frigoríficos ao mercado russo. Atualmente, 39 plantas estão habilitadas. A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carnes (Abiec) apresentou um pedido ao governo da Rússia para reabilitar 12 plantas que estão suspensas (algumas desde 2015) e entregou uma lista com 45 unidades que têm interesse em obter a habilitação. Uma missão da entidade esteve em São Petersburgo e Moscou nos últimos dias em reuniões com autoridades do governo local e importadores russos.
A indústria brasileira diz que as plantas suspensas já fizeram os devidos ajustes e adequações e têm plenas condições de retomar as exportações para lá. Já os novos estabelecimentos, que pleiteiam as habilitações, cumprem todos os requisitos exigidos pelo Rosselkhoznadzor.
No pedido, os frigoríficos brasileiros disseram que a indústria pecuária russa tem crescido e agregado valor à produção doméstica, e reforçaram que a carne bovina brasileira é um insumo estratégico que desempenha papel complementar nesse mercado, como suprimento adicional para atender a demanda interna, sem competição direta.
O secretário Luis Rua também esteve na Rússia nas últimas semanas. Ele se reuniu com o chefe do Rosselkhoznadzor, Sergei Dankvert, e com a ministra da Agricultura, Oksana Lut. Ele tratou sobre as habilitações e disse que o tema é prioritário. O governo russo disse que avaliará o pleito brasileiro, mas não deu prazo para resposta.
O governo russo também anunciou a habilitação das primeiras três plantas brasileiras para exportar pescados para lá.
Fertilizantes
Em agendas com os CEOs das quatro maiores empresas de fertilizantes do país (Uralchem Group, PhosAgro, EuroChem e Acron Group), Rua recebeu garantias de que o fornecimento de insumos russos para o Brasil seguirá regular e que os preços de alguns produtos podem, inclusive, cair.
O abastecimento de adubos é um dos pontos de atenção para a próxima safra, já que a logística de entrega dos produtos enfrenta problemas por causa da guerra no Oriente Médio.
“As empresas demonstraram comprometimento no fornecimento contínuo de fertilizantes ao mercado brasileiro e destacaram o caráter prioritário do Brasil em seus planos. Deve haver acomodação de preços de alguns produtos nos próximos meses”, concluiu Rua.
Por Rafael Walendorff — Brasília