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Bruno Fratus admite polêmicas e rivalidade com César Cielo

Medalhista olímpico fala sobre diagnóstico de bipolaridade, relembra episódio da entrevista polêmica nos Jogos de 2016 e revela Olimpíadas em que mais se divertiu: "Em Paris, como comentarista".

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Bruno Fratus admite polêmicas e rivalidade com César Cielo

Se há uma palavra que pode definir o nadador Bruno Fratus, é "autenticidade". Dono de uma sinceridade ímpar, o velocista protagonizou um dos episódios mais polêmicos de um atleta brasileiro em Olimpíadas, na já famosa entrevista após a final dos 50m livre nos Jogos de 2016, no Rio de Janeiro, que lhe rendeu críticas e muitos ensinamentos. Mas Fratus vai muito além disso. Em entrevista concedida ao quadro Abre Aspas, do ge no Rio de Janeiro, o agora ex-nadador falou sobre a maior rivalidade que teve nas piscinas.

- A primeira grande rivalidade que eu tive na carreira foi com o Cesar Cielo. Dividíamos a piscina no Clube Pinheiros, de 2007 até 2012. Era uma rivalidade que acredito era até recíproca. Quando ele fundou o PRO 16, chamou todo mundo que treinava com a gente, menos eu e outra nadadora (risos). Havia de fato uma rivalidade, e era algo que me inspirava muito. Eu tinha ali do lado o recordista mundial, campeão mundial e campeão olímpico. Se eu não aproveitasse essa oportunidade de colar no cara para melhorar, eu estaria sendo burro.

A polêmica e histórica entrevista à repórter Karin Duarte após o sexto lugar nos 50m livre nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, quando Fratus deu a resposta irônica "Não, tô felizão" ao ser perguntado se estava chateado após a prova, teve um estopim: a confusão de um repórter estrangeiro.

- Teve um repórter gringo que pede para falar comigo e eu vou. Eu achava que era por eu ser o brasileiro da prova. O repórter fala: "Anthony Ervin, depois de não sei quanto tempo, você ganha a prova de novo". Confundiu as tatuagens nos braços. Eu olhei para a cara dele: "Você assistiu à prova?". Ele ficou sem entender, e eu segui reto. Antes ou depois disso o Xuxa me dá um abraço. Falou que não queria falar nada pra mim, só me dar um abraço. Eu dou uma desabada. O seu ídolo, o cara que te inspirou a ser nadador, está ali pronto para te dar um abraço depois de uma prova dessa... Foi puxado para mim. E chega a vez de falar com a Globo. Eu estava com essa raiva do repórter que me confundiu, essa frustração da prova, o coração aberto de quem abraçou o cara que é meu ídolo até hoje... Eu estava sem filtro nenhum.

Após duas Olimpíadas, Fratus chegou a Tóquio sem as amarras e a pressão dos Jogos anteriores. Se em Londres e no Rio de Janeiro a ansiedade por uma medalha estava à flor da pele, na capital japonesa, ele, mais experiente e ciente da importância dos aspectos mentais em uma prova tão exigente como os 50m livre, decidiu apenas desfrutar do momento.

- Em Tóquio eu entro leve, me veio um sentimento de gratidão, de estar na minha terceira final olímpica, competitivo, em um estado mental forte. Aqueles sabotadores em ocasiões anteriores não existiam mais, eu controlava praticamente todos e acaba dando certo. Faço uma prova muito calculada, sem emoção nenhuma, objetiva, execução fria, analítica, não foi aquela explosão. Não foi aquela relação de granada e rifle. Eu sabia onde eu estava indo, onde queria acertar, e deu certo.

Ficha Técnica

  • Nome: Bruno Giuseppe Fratus
  • Idade: 36 anos (30 de junho de 1989)
  • Principais títulos na natação: Medalha de bronze nos 50m livre em Tóquio-2020, medalhas de prata nos Campeonatos Mundiais de Budapeste-2017 (duas) e Gwangju-2019 (uma), medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara-2011 (2), Toronto-2015 (1) e Lima-2019 (2), e medalhas de ouro e bronze no Campeonato Pan-Pacífico de Gold Coast-2014.
  • Abre Aspas: Bruno Fratus
ge: No Brasil, o futebol está muito, muito acima dos demais esportes. Diante deste cenário, como é ser um atleta olímpico da natação no país?

- Eu vejo essa monocultura sendo quebrada ultimamente, muito pelo sucesso olímpico. Recentemente tivemos o vôlei de praia, a ginástica, o judô, através de figuras muito icônicas, como Duda, Rebeca, Bia, o que ajuda a disseminar o esporte olímpico. E a Rayssa também. Isso nunca foi uma preocupação na minha carreira, que tenha chegado a incomodar ou que eu pensasse muito. Quando você escolhe a natação você não está indo para a fama ou para a dinheiro, senão seria a pior decisão (risos). Eu fiz a minha vida, consegui meu sustento. A natação me deu tudo que eu tenho tanto de bens materiais como imateriais. Passei por clubes de estruturas fortes, como Pinheiros e Minas. Aproveitei esse privilégio de vir de uma família que conseguiu me manter no esporte. Ser um nadador ou um atleta olímpico é um caminho menos amplo, não é instintivo. Você tem que encontrar direções e pessoas específicas. É um caminho que vale muito a pena, e eu não teria feito nada de diferente. A natação me deu tudo, competi em três Olimpíadas, conquistei uma medalha na última delas. Queria ter ido a mais duas, mas o corpo deu uma pifada. Nunca botei essa ponderação de futebol x esportes olímpicos.

ge: Você citou as três Olimpíadas. Conseguiu viver a Vila Olímpica em alguma edição?

- Porra nenhuma. Nada. A Olimpíada que eu mais curti foi a de Paris, que fui trabalhando, e não para competir. Curti demais, me diverti horrores, fiquei vidrado na Escalada, vendo os caras subirem a parede rapidão. Quando eu estava na Vila Olímpica eu não curtia essa coisa de lojinha, de passear, dos brindes. Você chega na Vila e ganha um celular com os aros olímpicos. Em cada canto tem uma empresa você ganha um brinde. Tem gente meio que se perde nessa. Eu sempre fui com o objetivo muito claro, em uma condição competitiva muito grande, não tinha interesse no resto. Eu me permiti curtir um pouquinho em Tóquio, o que acabou dando certo, mas nunca vi como parque de diversões, de curtir e me divertir. Para mim era competição do começo até a hora de ir para casa.

ge: Rolou algum encontro com algum grande personagem do esporte na Vila?

- Em Tóquio eu consegui almoçar com o Pau Gasol e conversamos muito sobre o Kobe Bryant, que havia falecido recentemente. Ele jogou e ganhou títulos com o Kobe, foi uma conversa muito significativa, profunda. Tenho zero foto (risos). O barato é sentar com um cara, atleta olímpico também, que jogou. Conversar com o cara ali sobre um jogador que colhi muita inspiração. Pesquei um pouco sobre a mentalidade do cara no treino, no dia a dia, dentro de casa. E ele lá, contando numa boa. Na Vila Olímpica todo mundo é igual, tirando o pessoal que gosta de ficar em navio e hotel, o que foge completamente do propósito dos Jogos Olímpicos. Discordo veementemente desse tipo de prática. Ali todo mundo é igual. Claro que tem uma tietagem, vem um Bolt, um Federer, um Nadal, o pessoal pede foto, mas é numa boa, nada que quebre a rotina do atleta. Essa foi uma das experiências mais legais que eu tive de Vila.

ge: Teve alguma que não foi legal?

- Ah, teve... Experiências não tão legais, que eu conte publicamente? (risos). Vou mencionar meu pós-2016, quando fiquei bem chateado depois da minha prova, e contra a indicação da liderança do Time Brasil eu precisei sair da Vila para ficar com a minha família. Estava insuportável, intolerável ficar naquele ambiente, até por uma falta de preparo psicológico. Foi muito difícil lidar com aquela decepção no momento que aconteceu. Estava muito desconfortável, não conseguia comer ali, era um sentimento de ansiedade, tristeza, embrulho no estômago, vontade de vomitar, sem conseguir colocar o sentimento em palavras. Precisei sair da Vila e ficar com a minha família, o que me deu conforto.

ge: A rivalidade foi uma coisa que te motivou ao longo da carreira? Cesar Cielo, Alain Bernard...

- Rivalidade motivou demais, na carreira inteira. Tentou-se construir uma rivalidade com o Cesar, principalmente em 2011, quando ganhei uma prova do Troféu Brasil, de 100m livre, com ele chegando em segundo. Para mim, sempre existiu essa rivalidade, realmente, apesar de a gente não tentar tornar isso um assunto. É um dos pontos falhos do esporte olímpico e da natação em si: a gente evita os assuntos desconfortáveis, e a rivalidade é um deles. E é algo que vende no esporte, poderíamos aproveitar um pouco melhor. A primeira grande rivalidade que eu tive na carreira foi com o Cesar. Dividimos a piscina no Clube Pinheiros de 2007 até 2012. Era uma rivalidade que acredito era até recíproca. Quando ele fundou o PRO 16, chamou todo mundo que treinava com a gente, menos eu e outra nadadora (risos). Havia de fato uma rivalidade, e era algo que me inspirava muito. Eu tinha ali do lado o recordista mundial, campeão mundial e campeão olímpico. Se eu não aproveitasse essa oportunidade de colar no cara para melhorar, eu estaria sendo burro. Fiz uso dessa presença dele nos treinos, nas competições, na própria seleção brasileira. Depois, uma rivalidade muito positiva que tive foi com o Florent Manaudou, um atleta de muito mais sucesso que eu, com mais resultados expressivos do que eu. Era um cara dificílimo de competir, porque estava bem sempre. Dois metros, cento e tantos quilos de músculo, um cavalo. Era fora de série, uma das melhores pessoas que conheci na vida.

ge: Você não treinava com o francês, mas com o Cesar Cielo tinha que dividir o mesmo ambiente...

- Quando você coloca egos gigantescos, personalidades grandes, no mesmo ambiente diariamente, vai sair uma faisquinha, um comportamento passivo-agressivo, e faz parte do jogo. Está tudo bem. Mantendo-se o respeito e a saúde do ambiente para o resto do pessoal envolvido, é tranquilo. A gente não explora isso na natação. O nadador médio é muito coxinha, tem medo de falar sobre assuntos desconfortáveis, medo de falar sobre rivalidade, de insatisfação. É muito por um legado de entidades esportivas censurarem ou abafarem as falas dos atletas. Hoje são tempos diferentes, mas os atletas mais novos estão ali, fazendo dancinha (risos), não estão muito preocupados com a parte sócio-política e econômica do esporte. É uma geração que está pegando um cenário muito mais propício. Hoje em dia temos comissões de atletas com peso de voto que fazem diferença no caminho das organizações. Temos redes sociais, não dependemos de televisão e canais formais de comunicação, qualquer pessoa com acesso à rede social consegue ter voz, expressar uma opinião e tê-la validada por um número de seguidores. A minha época foi muito de organizações que censuravam falas dos atletas, tivemos exemplos com Joanna Maranhão e Eduardo Fischer. Isso não acontece mais, a fala do atleta é encorajada. Molecadinha, vamos usar mais isso (risos).

ge: Como é a sua relação com o Cielo atualmente?

- A gente nunca mais se encontrou. O meu sentimento em relação a ele é de extremo e mais puro respeito ao que ele conquistou e construiu. Entendo que eu, pessoal e profissionalmente, me favoreci muito do legado que ele construiu. É muito claro que existe natação antes do ouro olímpico do Cesar e depois do ouro olímpico do Cesar. Eu já treinava no Pinheiros quando ele conquistou essa medalha. Todo nadador no Brasil precisa reconhecer e agradecer ao Cesar Cielo pelo que ele contribuiu. Meu sentimento é de respeito, admiração. Não temos uma amizade, uma relação pessoal, mas, para mim, o Cesar foi, obviamente, o maior nadador brasileiro de todos os tempos. E, muito provavelmente, o maior velocista de todos os tempos. E eu ainda coloco a Sarah Sjöstrom nessa discussão.

ge: Você estreou nos Jogos Olímpicos em Londres 2012. O quão amargo foi ficar no "quase" na disputa pelo bronze por dois centésimos?

- Foi uma queda de ficha muito grande. Eu ainda estava muito cru. Tentamos fazer a preparação da melhor forma possível, com maior densidade de experiência internacional, o que ajudou muito. Eu defendo muito que nossos nadadores saiam do Brasil, nadem lá fora e ganhem competições internacionalmente. Você constrói uma casca, uma experiência muito grandes. Em Londres 2012, eu chego com a noção real do quão competitivo eu estava e que poderia sair algo dali. É a primeira competição desse porte que eu me coloco na posição de competidor e não de participante. É onde eu entendo que esse papo de "é minha primeira" prejudica o atleta, que se coloca em uma posição diminutiva na hora. Chego extremamente focado. Começa a se criar uma mentalidade competitiva diferente na minha cabeça. Faltou uma preparação mental, não existia presença de um profissional de psicologia na equipe, não se falava sobre o assunto, os atletas raramente tinham esse acompanhamento.

- Não sabia o que fazer com os sentimentos e pensamentos que eu tinha. Usando uma metáfora muito precisa: em vez de eu ser um rifle, eu era uma granada que explodia para todos os lados. O que pegou, pegou. Não tinha a precisão de uma mira. Foi isso que a preparação mental me deu. Eu tinha muito potencial, energia... Eu tinha o pensamento de que "ninguém treinou mais do que eu, então o resultado é meu por direito". Esse raciocínio não faz o menor sentido, tendo o nível de clareza, instrução e conhecimento que tenho hoje. Nessa vida nada se dá por merecimento, é uma junção de fatores, merecimento sozinho não resolve nada. Ali foi a primeira vez que briguei pela prova e não rolou. E repito: não rolou por falta de preparação mental. Faltando cinco metros, mudo a cadência de braçada, o que não se justifica, porque fiquei afobado para chegar na parede. Caguei tudo e não funcionou. Uma prova mais bem executada teria me dado uma medalha de bronze. Não se tornou vitória, nem conquista, se tornou trauma por um tempo e, depois, aprendizado.

ge: Nas Olimpíadas do Rio, em 2016, você amarga o sexto lugar. O que aconteceu?

- Quatro anos de ciclo olímpico parece pouco, mas é muita coisa. Saio de Londres com aquele sentimento de fracasso. Na época eu acreditava que trabalhar mais e mais forte seria a resposta, eu correlacionava sofrimento com intensidade do trabalho. Quanto mais eu sofresse, mais o treino doesse e mais eu me colocasse numa situação extrema física, mental e emocional, teria um resultado melhor. (...) Vou para os Estados Unidos treinar e fico lá até 2016. Mas vem mais uma lesão em fevereiro de 2016, misturada à falta de uma preparação mental indo para os Jogos. Não tem como falar em alta performance e ignorar a parte mental. Sem preparação mental e questão física - fiquei com a lombar sensível, os treinos foram limitados, não conseguia colocar carga no treino físico, limitação de mobilidade na piscina. Chego extremamente competitivo, com o primeiro tempo do ranking mundial empatado com o Florent e... "fuén". Não dá certo de novo (risos).

ge: Qual foi o tamanho desse baque?

- Cara, esse foi grande. É aquela velha história: se eu soubesse o que sei hoje, teria medalhas em três Olimpíadas diferentes e, provavelmente, tinha ganho na Olimpíada do Rio. O Anthony Ervin ganhou a prova com o tempo mais lento que o que eu tinha feito no Brasil Open meses antes. Era algo extremamente possível. Quando você vê o campeão olímpico nadando mais lento do que você nadou em uma competição nacional, demora para você absorver e aceitar essa informação. E vem o desespero de uma maneira muito irracional logo depois da prova, de querer nadar de novo. "Não é possível, eu quero ir de novo". Não tem repetição. Você tem aquele sinal de largada e uma chance na raia para resolver. Foi um baque muito grande, a segunda Olimpíada com esse baque. Quando você nada duas finais olímpicas, a coisa começa a ficar.... "Será que vou para três?" Não é tão comum. A janela de oportunidade vai diminuindo. Teve a decepção do momento e um medo de essa janela ter passado. Eu estava com 26 anos de idade, no auge da forma física. Toda vez que eu nadava muito rápido, eu pensava: "Será que foi meu pico?". Eu me perguntava isso, e não via muita margem de melhora. Você não via medalhistas olímpicos com 30 anos de idade. Eu tinha essa dúvida. Hoje, com 36 anos, aposentado, 20kg mais pesado do que na época de atleta, pensando se raspo o cabelo ou vou atrás de um implante, me sinto melhor, mais jovem e mais saudável do que quando era atleta. Atleta tem corrida contra o tempo. Tem essa questão de imagem, de anorexia esportiva, porque não quer engordar. Eu competia com 6% ou 7% de gordura corporal, em forma, pulmão gigantesco me olhava no espelho e falava: "Estou meio pesado na minha coxa, no meu quadril". Tem umas questões mentais pesadas de se lidar quando você é atleta. Hoje, muito longe dessa forma, mais próximo dos 40 do que dos 30 anos, me sinto muito melhor. E aquele questionamento sobre meu auge ter passado? Falta de um profissional de psicologia.

ge: Você entrou em depressão depois da Rio 2016. Não tinha vontade de comer, sair, se levantar da cama?

- Em 2016 marca o diagnóstico. Olhando para trás, eu já tinha sintomas grandes de ansiedade. Você aprende que a depressão vem quando seu cérebro fica cansado de ficar ansioso. A depressão é uma resposta a esse estado de ansiedade constante, alto, extenso. Lembro de episódios ansiosos quando eu era criança, em uma época que não existia conversa sobre o assunto. Eu mesmo acreditava que era frescura: "Levanta da cama e vai se mexer". Até que a vida volta e te dá um belo de um chute no saco. "Isso existe e você está lidando com isso". O diagnóstico é um alívio muito grande. Nas primeiras sessões com a doutora Carla di Piero, que até hoje é minha psicóloga, eu descrevia sentimentos, processos mentais e emocionais, formas que eu lidava com isso. Processos da minha cabeça que eu usava para lidar com esses sentimentos. O que eu sentia, o que eu pensava, o que eu fazia para gerenciar esses pensamentos e sentimentos, tinha nome na ciência. E ela me ajudaria a colocar em pastas e gavetas para eu acessar nessa biblioteca de habilidades, de recursos mentais e emocionais.

— Quando eu decido me aposentar, tenho essa conversa com ela e com o doutor Hélio, psiquiatra do Time Brasil, e eles me falam: "Bruno, isso que você tem é chamado de bipolaridade". Depois que eles explicaram eu vi como essa bipolaridade me beneficiava no esporte e como me prejudicava em aspectos da vida pessoal. O diagnóstico traz um alívio grande, porque você começa a tratar, a medicar. Se você tem problema de coração, você vai no médico e trata. Se tem problema no joelho, vai no ortopedista. E com o cérebro não é diferente, precisa ser tratado. Esse episódio de 2016 onde tenho esse diagnóstico de depressão foi muito melhor. Você aprende a conviver com isso e a ser uma pessoa funcional apesar dessa condição que o cérebro funciona um pouco diferente.

ge: O que sentia na época da depressão?

- Aquele sentimento de tristeza profunda, falta de perspectiva, falta de motivação patológica. Por outro lado, não a depressão em si, mas o funcionamento do meu cérebro da forma que é, me permitiu desenvolver algo diferente dentro do meu esporte. A minha técnica não era convencional, a forma como eu treinava também não. Minha mentalidade abordando todos os aspectos do esporte não é convencional. No meu lado pessoal, tenho uma pequena "Síndrome de Stendhal", uma sensibilidade para arte, música, escrita. Tenho escrito bastante. Se por um lado é difícil, e você tem que aprender a viver com isso, por outro te dá uma gama de habilidades tremenda. Eu não mudaria, gosto do cara que me tornei, dos interesses que eu tenho. Eu gosto de entrar em um museu e me emocionar com o que estou vendo. Em Florença, ficava de frente para a estátua de Davi de Michelangelo e chorava. O pessoal olhava: "Está tudo bem?"

- Chorei vendo a Venus na "Galleria degli Uffizi", fiquei horas na frente do quadro vendo cada detalhe. Eu me arrepio com música. A cabeça funciona de uma forma diferente, apesar desse lado de lidar com depressão e ansiedade... Hoje em dia eu lido mais com ansiedade do que com depressão. Geralmente você se deprime, pois seu espírito se cansou de fazer aquele personagem para se encaixar em certos padrões e certas caixinhas. Quando você começa a ter mais orgulho, ter mais confiança de bater no peito e dizer "sou assim, sou quem sou e vou ser assim. Quem gostar de mim, legal. Quem não gostar, sinto muito, não vai fazer parte da minha vida". Quando você começa a se gostar e a se aceitar mais em vez de comprometer quem você é, a depressão começa a ir embora.

ge: Qual era a sua fuga para não enfrentar esses fantasmas?

- A fuga era treinar mais, mais forte e fazer uma dieta mais restrita. Depois que descubro hobbies, que há esse ser humano fora dessa carreira na natação, a vida melhora. É uma crisezinha que rola quando você se aposenta, porque passa tanto tempo fazendo a mesma coisa, e volta a descobrir a vida aos 35 anos. Escrevi um livro de 22 capítulos, em poesias de duas a três páginas cada, descrevendo nuances do que é ser atleta. São 21 capítulos, porque a prova durava 21 segundos, sobre aspectos relacionados ao esporte que tem um peso muito forte. E o 22º capítulo, "Breakthrough", é quando você sai para a luz. Está mais íntimo, mas quero publicar. Sempre tive gosto também por culinária e motociclismo. Subir em uma Harley-Davidson e sair sem destino. Cheguei a fazer viagem de 13h parando só para abastecer e beber água. Você vê que há uma personalidade compulsiva em tudo que faço (risos).

ge: Não tínhamos visto você falar sobre o diagnóstico de bipolaridade antes. O que quis dizer quando citou que "a bipolaridade me beneficiava no esporte e me prejudicava em aspectos da vida pessoal"?

- Eu usava raiva e euforia como combustível para treinar, competir. São episódios de mania. Quando tinha decepções, eu me deprimia muito fundo, e variava isso dentro de poucos dias. Você tem um humor volátil. Pontos positivos: eu gosto muito interagir com coisas que tenho sensibilidade, como arte, música e literatura. Gosto como sinto minhas relações interpessoais. Não tenho aquela coisa de amigo mais ou menos. Ou você é, ou não é. Quando eu me apaixono, eu me apaixono. Quando me decepciono, me decepciono. Eu gosto de sentir essa intensidade, esse contraste entre emoções. Lado negativo: quando eu não tratava, eu reconheço que era uma pessoa difícil de se conviver. Para mim, aquilo era um comportamento padrão. Quando eu estava triste, estava muito triste. Quando estava muito puto, estava putaço. E, quando estava muito feliz, estava eufórico, não conseguia parar de falar, aquela energia de golden retriever. Terapia é vida. Naquela época eu me recusava a fazer, a trabalhar esse lado, era uma pessoa extremamente difícil de se lidar.

ge: E o episódio do "Felizão"?

- Eu brinco que eu fui o pioneiro do cancelamento no Brasil, trouxe lá de fora e comecei essa indústria do cancelamento, o paciente 01 (risos). Ali foi reação humana. Eu já falei tanto dessa entrevista, de tantas formas diferentes, e o que fica para mim é que foi uma reação humana. Saí da prova com a emoção que eu estava... é uma situação que eu convido a quem estiver ouvindo, lendo, assistindo, a fazer esse exercício: você tem a oportunidade profissional da sua vida, tem tudo para conseguir, está preparado. Vai dar certo, na frente do seu país, na frente da sua cidade, da sua família e amigos... e chega lá você escorrega na banana. E a repórter fala: "E aí, está chateado?". Com o perdão do meu francês, "pu** que pariu, o que você acha?" Foi uma reação humana. Se alguém se ofendeu com aquilo ali, foi mal, mas, de nada. Que bom que eu provi o entretenimento e fiz alguém sentir algo. Quem concorda comigo, legal, vocês entendem. Lógico que depois voltei e pedi desculpas para a Karin pela grosseria, muito pela grosseria que eu cometi com ela. Ela estava trabalhando. Foi algo que aconteceu no calor do momento. Mas não me desculpei pela minha reação. Eu fui fiel a mim mesmo, ao que eu estava sentindo. É injusto comigo mesmo me anular, fazer um personagem que vai desagradar. Entendo que vivo da minha imagem, que sou exemplo, e aceito a responsabilidade e o privilégio de ser exemplo. Aqui tem uma pessoa, um ser humano, está todo mundo de saco cheio de ver personagem, algo fabricado, que é monotemático. Isso cansa, gente, não é honesto com quem assiste e acompanha. Já perdi oportunidades financeiras, profissionais, por ser como eu sou: autêntico, fazer o que penso, brigar pelo que acredito, mas também tive um pai que me ensinou que tem coisa que vale mais que dinheiro. Os seus valores, integridade, sua autenticidade, individualidade. Vocês nunca vão ver um personagem vindo de mim. Desculpa pela grosseria, mas aquela entrevista foi a reação nua e crua de alguém que trabalhou a vida inteira e não conseguiu entregar. Não é de boa sair de uma prova dessas e falar: "Foi mal, galera, não deu". Perdoe o meu vocabulário, mas foi mal é o cara***. Para todo mundo que assistiu, se decepcionou, não achou legal, pode ter certeza que eu estava muito mais puto do que todo mundo e ali acabou extravasando.

ge: Relembre como foi, passo a passo, o pós-prova.

- Teve um repórter gringo que pede para falar comigo e eu vou. Eu achava que era por eu ser o brasileiro da prova. O repórter fala: "Anthony Ervin, depois de não sei quanto tempo, você ganha a prova de novo". Confundiu as tatuagens nos braços. Eu olhei para a cara dele: "Você assistiu à prova?". Ele ficou sem entender, e eu segui reto. Antes ou depois disso o Xuxa me dá um abraço. Falou que não queria falar nada pra mim, só me dar um abraço. Eu dou uma desabada. O seu ídolo, o cara que te inspirou a ser nadador, está ali pronto para te dar um abraço depois de uma prova dessa... Foi puxado para mim. E chega a vez de falar com a Globo. Eu estava com essa raiva do repórter que me confundiu, essa frustração da prova, o coração aberto de quem abraçou o cara que é meu ídolo até hoje... Eu estava sem filtro nenhum. Cada passagem dessa era um golpe numa muralha emocional. Quando chega a vez daquela entrevista, eu já estou sem blindagem nenhuma, cru. Se eu tivesse falado com a Karin na primeira interação depois da prova, ia ter saído de uma maneira diferente. Cada coisa ali foi uma machadada na árvore, até que na vez dela... Madeeeira! Caiu (risos).

ge: Por que decidiu voltar pouco tempo depois?

- Deu tempo de respirar, tive um momento sozinho. É um código universal não escrito: você coloca a toalha na cabeça e está offline. Eu tiro a toalha da cabeça, e estava ali meu fisioterapeuta e meu técnico. O Natan, meu fisioterapeuta, veio falar comigo: "Você está sendo linchado pela sua entrevista". Eu virei e falei: "Que entrevista, mano?". Ele falou: "Você vai ter que fechar suas redes sociais porque está uma coisa absurda, não vou te mostrar porque está pesado. Você deu uma entrevista que não foi legal para a Globo". O que você está falando? "Você foi sarcástico, e o pessoal não gostou". Nossa, é verdade... Vou ter que falar com a repórter, mandar uma mensagem para ela. O Natan disse: "Não sei o que você vai fazer, mas faz alguma coisa, porque não foi legal". Vou voltar lá então. Chego para falar com a Karin: "Queria te pedir desculpas pela minha grosseria. Você consegue sentir a atmosfera aqui, e saiu". Ela falou: "Bruno, vamos gravar isso". Ela teve a bondade, a gentileza, de falar que seria melhor pra mim. Eu falei: "Não precisa, não estou legal para aparecer na TV". Ela falou: "Confia em mim, grava essa desculpa". Obrigado, Karin, por ter tido essa luz na hora (risos). Foi o que foi, e o resto é história.

ge: Viu as suas redes sociais depois?

- Meu, fui ver uns dias depois, e a galera estava perdendo a linha. Mas eu estou aqui pelo entretenimento, vombora (risos). É bom poder dar risada disso hoje. Ninguém se machucou, passou, não prejudicou ninguém, está todo mundo saudável. O tempo cura as coisas.

ge: Na Rio 2016, um dos casos mais controversos, foi protagonizado pelo nadador Ryan Lochte, desmascarado depois de inventar que havia sido assaltado. Como isso repercutiu nos bastidores da natação? Era a primeira Olimpíada na América do Sul, em um país com histórico de violência e mostrando ao mundo que podia organizar um evento dessa magnitude.

- Virou piada, né (risos)? Tem uma galera que não tem noção de como as coisas funcionam em outros lugares. Rio de Janeiro não é para amador. O cara quer meter essa no Rio de Janeiro, parceiro (risos). Você não está em casa. Ficou todo mundo espantado: "Você viu que o cara foi assaltado?". Depois que a história foi se desenrolando, a gente falava: "Nossa...". Teve vídeo dos caras saindo do banheiro. A Polícia Federal foi catar dois de dentro do avião quando estavam indo embora.

ge: E chegamos a Tóquio 2020. Como foi a sua experiência?

- Ali foi complicado, viu? Colocou muita coisa à prova. Em dezembro de 2019, eu faço um exame de imagem e dá para ver uma fratura no ossinho em cima ombro. O cara fraturar o ombro nadando é um mistério da humanidade. Eu desenvolvo uma fratura por estresse, estou tratando, tentando treinar e vem a pandemia. Você fica meio... No começo dessa história toda você fica cético. Vai fechar tudo? Não é possível, nunca aconteceu. E fecha tudo. Todo mundo lidou com isso de uma forma diferente. E me deu tempo para tratar a fratura, que é repouso, esperando sarar. E dá mais um ano para se preparar.

ge: O que passava na cabeça na subida do bloco, entrada na área de competição.

- Foi diferente. Eu sempre entrava muito sisudo, cara fechada, com esse sentimento pesado de fazer na marra, no braço. Em Tóquio eu entro leve, me veio um sentimento de gratidão, de estar na minha terceira final olímpica, competitivo, em um estado mental forte. Aqueles sabotadores em ocasiões anteriores não existiam mais, eu controlava praticamente todos e acaba dando certo. Faço uma prova muito calculada, sem emoção nenhuma, objetiva, execução fria, analítica, não foi aquela explosão. Não foi aquela relação de granada e rifle. Eu sabia onde eu estava indo, onde queria acertar, e deu certo. Eu sabia que se chegasse faltando 40m e tivesse cabeça a cabeça com o Ben (N da R.: Benjamin Proud, da Grã-Bretanha), ele não acompanharia meu ritmo de fim de prova. E foi o que aconteceu. Esperei até os 30m, piloto automático e comemoração completamente oposta da prova. Ali, desligou. Tocou no placar... foi engraçado, demorei a entender. Olhei o "três" do lado do meu nome, o que quer dizer? Demora um tempinho. Quando você entende, é aquela explosão. No vídeo da transmissão, o Caeleb Dressel sobe na raia para comemorar o ouro e dá uma olhadinha para o lado. "Quem é esse louco gritando aqui?". Quando os caras entendem - todo mundo conhece a história de todo mundo - e ele e o Florent Manaudou vêem que eu ganhei uma medalha, me abraçam, permitem que eu comemore. O Caeleb ganhou mais um ouro, e meio que cedeu o momento para mim. Na coletiva, o Florent fala no microfone: "Não vou responder nenhuma pergunta, esse momento é do Bruno". Ele é nota um milhão. Foi legal que a final aconteceu de manhã, tive o dia inteiro para ficar marinando naquele sentimento.

ge: E como foi no quarto do hotel, você com você mesmo?

- Todo mundo viu a euforia do pódio, da comemoração, mas o momento mais legal de todos foi chegar no quarto da Vila, sozinho, me olhando no espelho com a medalha no peito. Você não tira mais a medalha. Você vai para a coletiva com a medalha, entra no ônibus, vai pro antidoping com a medalha, você vai almoçar com a medalha, é muito legal. Quando chego de frente para o espelho do quarto, estou em um momento comigo mesmo. Ali você volta a ser a criança que se propôs a conquistar aquilo. Você se sente preenchido.

ge: O que mudou na sua vida após essa medalha?

- Muito pouco. Os patrocinadores que ficaram comigo eram os que estavam comigo antes da medalha, construíram o projeto comigo. Os trabalhos que vieram depois foram ocasionais. Mudou muito pouco. O que muda mais é ficar mais conhecido fora da bolha do seu próprio esporte, tanto por atletas, como por quem assiste o esporte. A partir do momento que conquistei uma medalha olímpica, comecei a considerar que tive uma carreira de sucesso. Sou medalhista olímpico, fiz o que me propus a fazer. A medalha de Mundial fica presa no nicho do esporte. A medalha olímpica ultrapassa essa barreira da bolha da sua modalidade.

ge: Você esperava que mudasse mais?

- Era como se eu esperasse que alguém fosse bater na porta da minha casa com um saco de dinheiro. Uma expectativa completamente irreal, fora da realidade. Não era uma expectativa racional. Antes de você se tornar um medalhista olímpico, olha para quem já conquistou, que são referências, ídolos, e você vê aquela entidade, aquela personalidade, que aparece na TV e faz campanha. Você esquece do fato de que são pessoas, que voltam para casa, têm o dia a dia delas. Quando você acorda no dia seguinte com a medalha e nada mudou, não vou dizer que é decepcionante, mas é um choque de realidade. Continuo sendo a mesma pessoa. Lógico que traz oportunidades diferentes. Muito provavelmente eu não estaria tendo várias das oportunidades que tenho hoje se eu não fosse medalhista olímpico. Mas não é que a vida mude completamente. É um daqueles acontecimentos que a vida faz uma curva para uma direção.

ge: Sente falta de um reconhecimento maior?

- Quando os caras que ganham a Copa do Mundo de Futebol não têm uma aposentadoria? É um pouco diferente (risos). Se eu sinto falta? Eu estaria mentindo se dissesse que não sinto. Quem aqui não gostaria de ser melhor remunerado, mais reconhecido? Mas não tira o meu sono. Entendo que as coisas valem o quanto de retorno elas geram. A natação não gera tanto retorno quanto outros esportes. Não dá para me queixar também. Meus resultados e a natação me colocaram em um patamar confortável. Não é uma decepção, uma frustração.

ge: E, assim como no Rio, veio outra entrevista marcante, desta vez, positiva, sem polêmica. Foi premeditado falar "os caras são grandes, mas nós é ruim" ou saiu sem querer?

- Ah, aquela de 2016 foi para construir o plot (risos). Eu assisti ao filme ("Meu Nome Não É Johnny") dois dias antes e fiquei com isso na cabeça (risos).

ge: Em maio haverá o Enhanced Games ("Jogos Aprimorados", em tradução livre), em Las Vegas. O evento permite o uso de substâncias proibidas para estimular a quebra de recordes. Como enxerga esse evento? Você participaria?

- Eu não enxergo a coisa do doping como dogma que várias pessoas pensam que é. O doping é errado, trapaça, porque as regras da Wada, que controla essa área no esporte mundial, não permitem. Qual é o limite de uma substância que não é doping para uma que é doping? É a regra. A regra é baseada em um tripé de legalidade, saúde e compatibilidade com os valores olímpicos, o que é subjetivo. Quando eu olho para os Enhanced Games, não acho que é errado. É um evento. As pessoas envolvidas ali são maiores de idade, todo mundo sabe o que faz da vida. Não tenho muito o que elaborar sobre isso. Eu me orgulho de ter vivido uma carreira inteira onde nunca tive um mínimo questionamento sequer de doping, nunca tive um resultado analítico adverso, meu nome nunca saiu ao lado da palavra doping em nenhuma matéria, nunca tive que culpar outra pessoa, contaminação... Nunca. Isso é obrigação do atleta também. Ah, mas foi manipulado... Por que está tomando manipulado? Você é idiota? O código da Wada fala que tudo que entra no corpo do atleta é de responsabilidade do atleta. Ponto. Se discordar disso, fique à vontade para fazer outra coisa, mas a regra é essa. E eu me orgulho de nunca ter sequer triscado nisso. É um assunto que passa longe. Outros atletas que estão assinando com o Enhanced nunca tiveram problemas com doping e decidiram ir por essa direção porque cada um sabe onde aperta o calo. O Enhanced me fez uma proposta de 100 mil dólares na assinatura e um milhão de dólares para a quebra do recorde mundial (20s91). Não acho que vale, cara. Tomando e usando traje tecnológico, dá para bater. Fiz toda uma carreira nos Jogos Olímpicos, o COI e o Time Brasil seguem esses valores, de jogo limpo, de não tomar substâncias. Vou continuar nesse mundo, nesse meio, defendendo esses valores. Contanto que o Enhanced não queira competir com o Olimpismo, para mim está tudo certo, cara. Cada um faz o que quer. Os caras começaram uma empresa privada, um evento privado, custeado com dinheiro privado. É o mundo capitalista que vivemos, infelizmente ou não. Se eles quiserem falar que o cara é o mais rápido da história, que é o recordista mundial... Cada um fala o que quer. O que eu considero legal, o esporte, são os Jogos Olímpicos. Não existe nada como os Jogos Olímpicos, são valores que regem a vida da pessoa, educam e moldam. Para mim não faria sentido. É quase como mudar de time, sabe?

ge: Depois de mais de 10 anos morando nos Estados Unidos, você retorna a São Paulo, aposentado e com 36 anos.

— Eu queria estar de fato aposentado (risos), mas é natação, não é futebol. Depois que você se aposenta, a vida muda, é completamente diferente. Eu estava nos EUA explorando possibilidades, tirei bons meses sabáticos, só descansei e andei de moto, não fiz nada. Eu bebi uísque e fumei charuto. Descobri que eu gosto, não bebo para ficar chumbrega. Uisquinho, Bourbon, charuto... sabe quando aprende a sentir o gosto das coisas? É gostoso assim, com uma carne. Quando eu falei "vamos acordar pra vida", surgiu a oportunidade de ser treinador onde eu treinava. Precisamos nos preocupar com nosso sustento. Eu já escrevia meus próprios treinos, e aceitei. Eu encarei os primeiros desafios, aprendi gerenciamento da equipe, mas não me preenchia. Treinava um grupo de 13 a 17 anos de idade, mas acho que não estava pronto para isso. Sempre tive na cabeça de ser treinador para retribuir ao esporte o que aprendi, mas não estava pronto. Tive um relacionamento de 20 anos - 365 dias por ano - com o esporte, e foi quase um término. Não existia Bruno fora da natação, era quem eu era. E quando acaba, você fica sem chão. Estava cedo para ir para a borda da piscina falar de natação. Coisas na minha vida pessoal foram acontecendo, então voltei ao Brasil. Em 13 anos de Estados Unidos fiz poucos amigos, a dinâmica de interação lá é diferente daqui. Quando participei dos Jogos de Paris, descobri que tenho essa paixão pela comunicação, de estar na frente da câmera, de falar com quem está do outro lado, transmitindo eventos esportivos, falando de lifestyle de esporte. Venho para o Brasil investir em ser comunicador, e vamos ver no que vai dar. Tenho conteúdo para caramba para apresentar em palestrar, história com conteúdo. Não estou vendendo curso para vendedor de curso. É história de quem conquistou algo significativo. É recomeçar a vida aqui.

Para finalizarmos a entrevista:

Melhor de todos os tempos da natação de velocidade

- Está entre Cielo e Sarah Sjöstrom. E daqui a pouquinho vai ter a Gretchen Walsh nessa conversa. E tem um cara que eu tenho tatuado que é o Kyle Chalmers. Se minha vida dependesse do revezamento, ele seria o âncora, iria fechar.

Medalha olímpica inesquecível

- Fernando (Scherer, o Xuxa) em Atlanta 1996, e Cesar em Pequim 2008. (Michael) Phelps nos 100m borboleta em Pequim foi animal, contra o Milorad Cavic.

Grande ídolo no esporte em geral

- A primeira pessoa que vem à cabeça é o Ayrton Senna. Eu não tenho memória de ver o Senna correr, mas é essa entidade que representa coerência, trabalho, resultado e patriotismo. Apesar de ser um esporte extremamente elitizado, que contrasta com nosso país, o Ayrton me passava uma seriedade muito importante de se ter como ser humano. Um cara coerente, coeso, tinha falas com muita vontade de vencer. E melhor guarda-roupa dos anos 80 e 90, disparado (risos).

Torce para algum time de futebol?

- Não muito. Boa parte da minha família é palmeirense. Tenho essa.... Sou patrocinado pela Allianz, consigo acesso ao camarote, levei meus tios para assistir à final de Libertadores. Mas futebol não me comove muito.

Arrependimento

- Não. Eu sempre tomei as melhores decisões possíveis com o que eu tinha de conhecimento na hora. Quando você toma decisões proativas, de boa fé, com o recurso que tinha nas mãos, não tem como se arrepender.

Sonho para a natação

- Não tenho muito sonho para a natação brasileira... Se fosse para sonhar com alguma coisa, seria que ela fosse oferecida de forma mais ampla, que não fosse um esporte tão elitizado, que mais crianças tivessem acesso às piscinas. Prevenção de afogamento é algo sério, criança precisa aprender a nadar. E, se eu não mencionasse também Guilherme Caribé para 2028, eu estaria sendo injusto.

Onde estará em Los Angeles 2028?

- Aqui na firma, né? Espero estar com vocês (risos).

Por Marcelo Barone e Marcelo Russio — Rio de Janeiro







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