MENU

Caso Nicinha: 10 anos do assassinato que marcou a luta dos atingidos por barragens na Amazônia

Morte da ativista ganhou repercussão nacional e internacional, tornando-se símbolo da luta contra violência na Amazônia. Dez anos depois, ela segue como inspiração e resistência na luta contra violência no campo.

Compartilhar:
Caso Nicinha: 10 anos do assassinato que marcou a luta dos atingidos por barragens na Amazônia

Desde 2016, o dia 7 de janeiro marca a data em que Nilce de Souza Magalhães, conhecida como Nicinha, pescadora e uma das lideranças do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), foi vista pela última vez. A ativista foi assassinada com um tiro na cabeça e só teve o corpo encontrado cinco meses depois, no fundo de um lago da hidrelétrica de Jirau, amarrado a uma pedra.

O crime gerou muitos questionamentos e diversas manifestações na época: primeiro pelo paradeiro da militante e, depois, quando encontrada, pelas circunstâncias de sua morte. Dois homens foram julgados pelo crime: Edione Pessoa da Silva, réu confesso de ter atirado contra a vítima e jogado o corpo no lago, e Leonardo Batista, acusado de furto após o assassinato.

O caso, que completa 10 anos em 2026, ganhou repercussão nacional e internacional, tornando-se símbolo de luta contra violência na Amazônia. Nicinha foi uma da 11 pessoas mortas em Rondônia em crimes relacionados a violência no campo em 2016.

História de Nicinha

Nicinha nasceu em Xapuri (AC) e, aos dois anos, mudou-se com a família para Abunã, distrito de Porto Velho (RO). Desde cedo trabalhou como cozinheira em restaurantes e garimpos, mas dedicou grande parte da vida à pesca.

Criou três filhas praticamente sozinha após a separação, contando com o apoio da mãe. Ao longo da vida, morou brevemente em São Paulo e no Maranhão, mas permaneceu sobretudo em Abunã, onde viveu seus últimos anos ao lado do companheiro Nei, com quem também militava no MAB.

Em Abunã, Nicinha tornou-se uma das principais vozes no ativismo ambiental e, por muitos anos, denunciou violações de direitos provocadas pela implantação de usinas hidrelétricas. Ao lado das famílias impactadas, reivindicava o direito de reassentamento do distrito em um local seguro.

Foi ela quem iniciou na comunidade o debate sobre a necessidade de remanejamento, com um projeto que atendesse aos modos de vida das famílias atingidas. Sua atuação firme e comprometida fez dela uma liderança reconhecida, que dedicou sua vida à luta pelos direitos humanos e pela sobrevivência das comunidades tradicionais da região.

O crime

No dia 7 de janeiro de 2016, Nicinha foi vista pela última vez em uma ilha no interior do reservatório da Usina Hidrelétrica de Jirau, entre o rio Madeira e seu afluente Mutum Paraná, onde morava com o companheiro Nei. Ele, que estava fora do acampamento, ao retornar estranhou o desaparecimento da pescadora e comunicou os familiares.

Após dias de buscas e investigações, em 15 de janeiro de 2016, Edione Pessoa da Silva e Leonardo Batista da Silva foram detidos suspeitos de envolvimento no desaparecimento. Durante o depoimento, Edione confessou o assassinato.

Cinco meses depois, em junho de 2016, uma ossada foi encontrada no lago da hidrelétrica, amarrada a uma pedra, com sinais de execução. Um exame de DNA confirmou que se tratava de Nicinha.

Para a filha de Nicinha, a advogada Divanilce de Sousa Andrade, o assassinato foi uma tentativa de silenciar a luta da mãe.

A condenação

Edione foi condenado pelo Júri Popular a 15 anos e seis meses de prisão em regime fechado pelo assassinato de Nicinha. A investigação apontou que ele teria atirado na vítima com uma espingarda, motivado por desentendimentos anteriores, e em seguida lançado o corpo no rio. Já Leonardo foi condenado por furto cometido após o crime.

Após anos preso, em dezembro de 2023, Edione foi liberado para o regime semiaberto, mas poucos dias depois foi assassinado em Rio Branco (AC).

Para a família de Nicinha, a morte do réu confesso foi uma “queima de arquivo”, dificultando ainda mais a investigação sobre os possíveis mandantes.

O julgamento do caso Nicinha durou 15 horas

Símbolo de resistência

Segundo o MAB, o compromisso de Nicinha permanece como inspiração para os atingidos. Dez anos depois, ela segue como símbolo da resistência das populações impactadas por barragens na Amazônia e da luta por justiça em casos de violência contra defensores de direitos humanos.

No último dia 7 de janeiro de 2026, o MAB apresentou a familiares, amigos e convidados um trecho da peça "As Marias Somos Nós": um monólogo interpretado pela artista Kaline Leigue, que dá voz às experiências de mulheres aguerridas reunidas na figura simbólica de “Maria”, livremente inspirado na vida e na luta de Nicinha.

“Para mim, é uma honra atravessar sua história, aprender com seu legado e reconhecer a força que isso me dá para afirmar meu lugar como artista e como mulher na defesa dos meus direitos e liberdades”, pontua Kaline.

Uma das filhas de Nicinha, Divanilce, após o espetáculo, compartilhou que, apesar do sofrimento pela morte da mãe, hoje convive com um sentimento de gratidão pelo modo como a história de Nicinha ajudou e continua ajudando outras pessoas.

“Doer, não para de doer, mas eu me sinto grata sempre que nos procuram para falar sobre ela, sempre que a história dela é lembrada, por cada foto que é postada. Existe um legado que hoje impera”, diz Divanilce.

A irmã de Nicinha, Nádia Magalhães, contou que ela e toda a família não compreendiam muito bem de que forma a militante atuava nos movimentos e se surpreenderam com a repercussão do caso quando o desaparecimento veio à tona.

“Só depois que ela partiu tive noção do quanto se sacrificava para lutar pelo direito das outras pessoas. Minha irmã me ensinou muito sobre o amor ao próximo: ela dispensava qualquer conforto que tivesse para dar a quem estivesse precisando, não se apegava a bens materiais”, afirmou Nádia.

Toda a história da pescadora e ativista pode ser lida através da cartilha escrita pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), através do site.