
O Brasil vive um paradoxo econômico: o desemprego está no menor nível da série histórica, mas o endividamento das famílias segue próximo do recorde.
Em janeiro deste ano, quase 80% dos lares brasileiros tinham dívidas, e quase um terço já estava inadimplente. Para analistas, o dado expõe uma contradição incômoda: há trabalho, mas falta renda suficiente para fechar as contas.
Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que, em janeiro, 79,5% das famílias brasileiras estavam endividadas. Destas, 29,3% tinham contas em atraso e 12,7% afirmavam não ter condições de quitar as dívidas.
Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, avalia que o cenário é preocupante, sobretudo quando considerados os juros médios acima de 30% ao ano, sem contar o rotativo, superior a 300%, mesmo com nível recorde de emprego.
“É a constatação de que o real está muito desvalorizado, e que o sistema econômico está tão desbalanceado que o que se paga para a maior parte das pessoas não viabiliza suas necessidades", afirma.
Engenheiro em produtos de crédito, Elber Laranja avalia que a questão é estrutural: há baixa produtividade e pouco crescimento econômico no Brasil, o que leva as famílias a contrair crédito para se refinanciar.
Segundo ele, trocar uma linha por outra não amplia a capacidade de pagamento. “O que vai devolver a adimplência para os indicadores é a melhoria da capacidade de pagamento", comentou.
Brasileiro contrai dívidas para pagar despesas
Um dos pontos que mais chamam a atenção é a composição das dívidas. O levantamento da CNC mostra que 85,4% das pendências estão no cartão de crédito. Além disso, para 19,5% das famílias, mais da metade da renda já é consumida pelas dívidas – ou seja, sobra menos da metade para as despesas básicas.
Corano afirma que o cenário brasileiro não diverge significativamente no percentual de endividamento de grandes economias: nos Estados Unidos, o patamar varia de 75% a 80%, enquanto na China é de cerca de 60%. A diferença é que nesses países o crédito financia majoritariamente a aquisição de ativos, como imóveis. No Brasil, é usado para custear despesas básicas.
Outra diferença relevante aparece nos índices de inadimplência. Nos Estados Unidos, a taxa gira em torno de 4%, podendo chegar a 8% no rotativo em momentos de crise. No Brasil, atinge 29%. A combinação de juros elevados, inadimplência alta, renda baixa e endividamento próximo ao de países ricos torna o cenário brasileiro mais preocupante, avalia Corano.
13º não aliviou endividamento
Pedro Ricco, CEO do Delta Global Bank, afirma que ficaram para trás os tempos de maior consumo de lazer, viagens e formação de patrimônio. “Nos últimos anos, com um mercado mais desafiador e com uma elevada carga de juros e de impostos, as famílias se encontram muito apertadas", explica.
Não surpreende, portanto, que a inadimplência permaneça elevada mesmo em janeiro, após o pagamento do décimo terceiro salário. O indicativo é de que a gratificação não tem sido suficiente para reduzir de forma mais significativa o endividamento. Para Ricco, as famílias conseguem melhorar parcialmente as finanças apenas ao longo do tempo, quando congelam o orçamento.
Risco de superendividamento é real
A pouca disseminação da educação financeira no país, somada à escassez de recursos, faz com que o superendividamento seja um risco real. Thiago Oliveira, CEO da fintech Monest, afirma que, na média, brasileiros costumam ter contas em cinco instituições financeiras diferentes.
"Ou seja, o risco real de superendividamento fica camuflado", aponta. Outra armadilha são as bets. Segundo ele, os consumidores da classe C passaram a ver o jogo como uma forma de mudar de classe social.
"Na prática, 57% dos endividados relatam* que seus problemas financeiros começaram após entrarem nas bets, e 44% chegam a apostar na tentativa desesperada de conseguir dinheiro para pagar seus débitos", afirma.
* Dados de pesquisa divulgada pela Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, em novembro de 2024.
Crédito consignado pode agravar dívidas
Medidas de expansão de crédito aprovadas pelo governo Lula também podem trazer riscos adicionais. O consignado privado – ou "crédito do trabalhador", como é chamado pelo governo – é um exemplo.
Lançada em março de 2025, a modalidade movimentou R$ 52 bilhões até janeiro de 2026. O volume é inferior aos R$ 100 bilhões estimados pelo governo para os três primeiros meses de vigência.
Se, por um lado, amplia o acesso ao crédito com a promessa de juros mais baixos, por outro pode incentivar uma nova rodada de endividamento para cobrir despesas correntes. Na avaliação de Elber Laranja, assim como outros programas de renegociação, trata-se de solução pontual, de alongamento de dívida, não estrutural.
Governo contribui para endividamento das famílias
A gestão Lula cumpre outro papel relevante na dinâmica do endividamento das famílias. Na visão dos especialistas, o principal fator por trás dos juros elevados é a fragilidade da política fiscal.
Bruno Corano resume o quadro: sistema endividado, sensível a juros, dependente de crédito e sustentado por uma política fiscal frágil. "Historicamente, conjunturas assim não terminam bem", diz.
Elber Laranja explica que, quando o governo amplia gastos e a dívida cresce, o mercado exige prêmio de risco maior para financiá-lo, o que se traduz em juros mais altos. Assim, políticas fiscais expansionistas, com subsídios, benefícios e crédito direcionado, exigem resposta mais dura da política monetária.
Só assim é possível evitar que a demanda gerada pela injeção de recursos públicos se transforme em inflação – especialmente em um cenário de desemprego baixo. “Então, o brasileiro está empregado, mas sua renda já está comprometida há tempos", conclui.
Por Roberta Ribeiro