Frutas cítricas como limão, lima, laranja, tangerina entre várias outras são ricas em um sal chamado citrato.
Derivado do ácido cítrico, esse sal é uma molécula central para o funcionamento do organismo. Ele participa do metabolismo celular, transforma nutrientes em energia e ajuda no equilíbrio químico do sangue e da urina e tem papel importante na saúde óssea e renal.
Por ser um componente natural de diversos alimentos, o citrato é considerado seguro do ponto de vista toxicológico e nutricional. Por isso, não tem limites em sua utilização estabelecido por qualquer agência reguladora no mundo.
Embora seja um componente natural de quase todos os alimentos, em especial das frutas cítricas, os efeitos do consumo excessivo são pouco conhecidos. A quantidade de citrato adicionada aos alimentos processados e ultraprocessados e o seu consumo pela população não tem qualquer controle.
Só para ter uma ideia, a quantidade de citrato em 200 ml de suco de laranja industrializado é mais de 10 vezes superior à sua quantidade em um suco de laranja fresco.
Citratos em aditivos alimentares
Nosso grupo de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro resolveu então estudar os efeitos dos citratos que são utilizados como aditivo alimentar e que estão presentes na grande maioria dos alimentos com algum grau de processamento.
Além das frutas cítricas, citratos estão em leite de caixinha, achocolatados, refrigerantes, bebidas energéticas, chás prontos, sucos de caixinha, bebidas esportivas, requeijão, queijos processados e uma infinidade de outros produtos. Estudamos os citratos de sódio, de potássio, de ferro e do ácido cítrico.
Esses aditivos são utilizados como reguladores de acidez, estabilizantes, emulsificantes e conservantes. Estão presentes na grande maioria dos alimentos que sofreram algum grau de processamento.
Mesmo que não seja possível saber qual o consumo de citrato médio, estimamos que a ingestão mais do que triplicou com a transição alimentar. A transição alimentar é um processo de mudança nos hábitos humanos e que ocorre em todo o mundo.
De uma forma geral e numa visão bem drástica, deixamos de comer alimentos in natura e passamos a consumir, cada vez mais, alimentos com algum grau de processamento.
Isso ocorre em função de vários fatores, incluindo o crescimento da população e a consequente necessidade de maior produção de alimentos e sua conservação por mais tempo.
Dos naturais aos ultraprocessados
Nesse contexto, os alimentos passaram a ser classificados de acordo com o grau de processamento. Essa classificação, denominada nova e desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo, rotula os alimentos em quatro grupos:
No primeiro grupo, estão os alimentos in natura ou minimamente processados. Estes alimentos são obtidos diretamente de plantas ou animais como frutas, verduras, carnes, ovos sem alteração, ou minimamente alterados como arroz, feijão, leite pasteurizado, café e farinhas.
No segundo grupo estão considerados os ingredientes culinários processados. Substâncias obtidas de alimentos do grupo 1 ou da natureza, utilizadas para temperar e cozinhar. Neste grupo, estão óleos, gorduras como manteiga e banha, sal e açúcar.
No grupo de alimentos processados estão produtos fabricados pela adição de ingredientes culinários (grupo 2) a alimentos in natura (grupo 1). Podemos citar as conservas de legumes, pães artesanais, queijos e frutas em calda.
As formulações industriais feitas inteiramente ou de forma majoritária com substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido, proteínas), hidrogenados ou modificados, contendo pouco ou nenhum alimento in natura e muitos aditivos (corantes, saborizantes etc) são considerados ultraprocessados. Neste grupo, entram refrigerantes, salgadinhos de pacote, macarrão instantâneo e biscoitos recheados.
Calorias vazias
De uma forma geral, a grande preocupação com relação à qualidade dos alimentos está atrelada ao seu valor nutricional. Assim, a “demonização” dos alimentos ultraprocessados tem tido seu foco no que chamam de calorias vazias.
Essas calorias vazias são associadas ao excesso de açúcares, principalmente o açúcar refinado e gorduras. E até mesmo o álcool, contido em bebidas alcoólicas, também está dentro das calorias vazias por conta do seu consumo aumentado com a transição alimentar e a popularização dos alimentos ultraprocessados.
É fato que o consumo dessas calorias vazias está associado a diversos problemas de saúde. Em especial, o ganho de peso excessivo, levando ao sobrepeso e à obesidade.
Muito tem sido associado entre o consumo excessivo de calorias, em especial as calorias vazias, e a pandemia do sobrepeso mundial, que não discerne gênero, classe social ou mesmo idade.
E uma questão importante que nós identificamos em um trabalho recente é que o consumo dessas calorias vazias em excesso, mesmo que de forma esporádica, tipo apenas uma vez por semana, traz consequências negativas para a saúde.
E infelizmente, hoje em dia, as crianças estão entre as maiores vítimas do consumo dessas calorias vazias e da pandemia do sobrepeso.
Excesso de citratos
Já é consolidado pela ciência que o destino do citrato consumido aponta para sua utilização nas mitocôndrias, onde é oxidado para produzir energia, por meio do ciclo de Krebs.
Entretanto, dentro das células, o citrato é utilizado para a produção de gorduras, colesterol e promover a acetilação e modificação de proteínas e ácidos nucléicos. O citrato tem papel central na regulação metabólica e nos efeitos epigenéticos.
Então, passamos a estudar os efeitos do consumo aumentado de citrato sobre o metabolismo e a fisiologia de camundongos.
Nossa hipótese inicial era que o citrato “extra”, ou seja, aquele adicionado aos alimentos e consumido pelos camundongos, atuaria na síntese hepática de ácidos graxos e colesterol.
Além disso, teria uma correlação com o aumento do sobrepeso mundial. Já existe uma correlação estatística entre o aumento da produção industrial de alimentos, o consumo de citrato e o aumento do peso da população.
Nossos primeiros resultados mostraram que o aumento do consumo de citrato leva a um processo inflamatório sistêmico de baixo grau nos camundongos.
Inicialmente, identificamos os tecidos adiposos brancos como os principais responsáveis por esse processo inflamatório.
Posteriormente, vimos que outros tecidos e órgãos, como o fígado, os músculos esqueléticos e o tecido adiposo marrom também estão comprometidos.
Como consequência desse processo, os camundongos desenvolveram resistência sistêmica à insulina, ou seja, o processo inicial que leva ao quadro de diabetes mellitus do tipo 2.
Interessante que tudo isso acontece sem um ganho de peso nem mesmo aumento da massa adiposa dos camundongos.
Além disso, no fígado dos animais, houve aumento do depósito de gordura, um processo inicial da esteatose hepática.
Por outro lado, um dado muito curioso é que quando os camundongos consomem uma dieta obesogênica (que leva à obesidade), enriquecida com citrato, eles não desenvolvem obesidade.
De forma instigante, mostramos em um outro estudo que, mesmo mantendo o peso igual ao do grupo controle (que se alimentou de dieta padrão balanceada), esses camundongos desenvolvem resistência à insulina (pré-diabetes) e esteatose hepática, além de outros sintomas compatíveis com a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica.
Nós ainda não compreendemos todo o fenômeno. Precisamos entender como o citrato previne o ganho de peso dos camundongos.
Estudos em andamento mostram que esse consumo aumentado de citrato também leva à perda de peso em camundongos obesos, porém, sem reverter os problemas de saúde associados à obesidade.
Aparentemente, os efeitos do citrato envolvem a fisiologia do intestino e a modulação da microbiota intestinal.
Em um outro trabalho do nosso grupo, identificamos que o aumento do consumo de citrato leva a um quadro parecido com a colite, com um aumento da permeabilidade intestinal e uma alteração severa na composição da microbiota.
Os estudos estão em andamento. Ainda temos muitas dúvidas sobre os efeitos do citrato consumido a mais com os alimentos processados e ultraprocessados na saúde.
Entretanto, temos certeza de que ele não é inerte. Nossos trabalhos, assim como de outros grupos de pesquisa no mundo, mostram que os aditivos alimentares afetam nossa saúde e podem ter um papel relevante no aumento de incidência de várias doenças.
Por The Conversation