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Defenda o Brasil do PT ou de Trump: guerra de comunicação influenciará eleições de 2026

A imposição de uma tarifa de 50% a produtos brasileiros anunciada pelo presidente americano Donald Trump nos Estados Unidos gerou uma guerra de comunicação no Brasil que pode influenciar o resultado das eleições de 2026.

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Defenda o Brasil do PT ou de Trump: guerra de comunicação influenciará eleições de 2026

A imposição de uma tarifa de 50% a produtos brasileiros anunciada pelo presidente americano Donald Trump nos Estados Unidos gerou uma guerra de comunicação no Brasil que pode influenciar o resultado das eleições de 2026. Mas ainda não há vencedores claros dessa disputa. De um lado, o presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados apontam que a alta da tarifa americana é uma tentativa de Trump corrigir excessos do Supremo Tribunal Federal (STF) e defender a liberdade de expressão no Brasil. De outro, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adota a narrativa de defesa contra um "inimigo externo" e tenta responsabilizar Bolsonaro por eventuais danos que as tarifas podem causar à economia do Brasil, se forem realmente adotadas pelos EUA em 1º de agosto.

Segundo analistas ouvidos pela reportagem, Bolsonaro está ganhando mais espaço no cenário internacional na luta por liberdade de expressão e colocando mais pressão no STF ou denunciar globalmente os excessos praticados em seus julgamentos.

Já Lula pode começar a frear a queda de sua popularidade se opondo às ações de Trump. Ao mesmo tempo, ele já está tirando a atenção do público sobre o aumento de impostos e os problemas da economia brasileira. “Lula retoma a iniciativa política com um discurso nacionalista, enquanto Bolsonaro recupera protagonismo na direita — ambos saem momentaneamente favorecidos no embate, sem que haja um vencedor claro” , resume o cientista político Leandro Gabiati, da consultoria política Dominium. Assim que Trump anunciou nas redes sociais a intenção de aumentar a tarifa de comércio com o Brasil na quarta-feira (9), parlamentares de esquerda lançaram nas redes sociais e na mídia o lema "Defenda o Brasil". Eles passaram a responsabilizar Bolsonaro e seu filho Eduardo, que se licenciou do mandato de deputado para fazer articulações políticas nos Estados Unidos, pela alta na tarifa de comércio. O próximo passo será tentar associar a eles o adjetivo de "falsos patriotas".

A oposição reagiu lançando as frases "Defenda o Brasil do PT" e "A Culpa é do Lula". A ideia é apontar como a política externa do presidente afastou o Brasil das democracias ocidentais e do mundo livre para se aliar a ditadores de países como Rússia, Cuba, Venezuela China e Irã. Ao lado deles, Lula protagonizou ataques diplomáticos aos Estados Unidos e ao dólar como moeda base do comércio internacional.

O advogado constitucionalista André Marsiglia e parlamentares da oposição dizem acreditar que o discurso nacionalista de Lula deve ter um efeito positivo imediato em sua popularidade, pois uma parte da população está se sentindo agredida por Trump. Mas esse efeito tende a se dissipar ao longo do tempo.

Por sua vez, Bolsonaro pode ganhar capital político se conseguir convencer o público de que Trump não está lhe fazendo um favor pessoal ou fortalecendo uma confraria internacional de direita. Bolsonaro precisaria ter sucesso em comunicar que, por sua influência, o país mais poderoso do mundo está ajudando o Brasil a reequilibrar a relação entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, após um fortalecimento desproporcional dos ministros do STF que faz o país deixar de ser uma democracia. Bolsonaro pode manter protagonismo interno e expor ao mundo censura e excessos do STF Em um contexto político interno em que Bolsonaro se vê cada vez mais pressionado a delegar sua posição de liderança da oposição a um sucessor, por causa da inelegibilidade, os atos de Trump podem ajudar o ex-presidente brasileiro a manter seu protagonismo. Segundo o cientista político Gabiati, esse cenário pode se configurar se Bolsonaro acertar na comunicação, mesmo que haja um eventual desgaste com outros atores, como o empresariado e o eleitorado de centro. “Isso ocorre dentro de um contexto em que os partidos de centro-direita e direita pretendem acelerar a escolha de um candidato para 2026, com ou sem o aval de Bolsonaro”. Para o cientista político, não há vencedores nem perdedores no debate de forma excludente. “Enquanto o Bolsonaro voltou a ser destaque, o governo também saiu da pressão”. No cenário internacional, a oposição já obteve uma vitória com a exposição dos atos de censura e perseguição política, que foram explicitadas pelas declarações públicas de Trump. Eduardo Bolsonaro foi peça-chave na articulação política, segundo analistas, e agora se destaca pelas críticas contundentes ao STF nas redes sociais e na mídia. Ele tenta condicionar a retirada das tarifas americanas à concessão de anistia para o ex-presidente, seus aliados e os manifestantes de 8 de janeiro. Seu pai, Jair, vem adotando posição mais cautelosa.

Até então, as notícias sobre as ações do STF e do governo contra a liberdade de expressão e as falhas em processos judiciais brasileiros raramente apareciam em grandes jornais e emissoras de TV estrangeiros. Para tentar retomar a narrativa internacional após a ameaça de Trump, Lula publicou artigos de opinião em ao menos oito jornais influentes de países como Reino Unido, França e Alemanha, dizendo que as tarifas dos Estados Unidos ameaçam o sistema multilateral de comércio - discurso geralmente apreciado por democracias liberais. "Esses artigos serão vistos como protesto de mais um país atingido pelas medidas de Trump", afirmou o cientista político e professor do IBMEC-BH, Adriano Cerqueira.

Ao menos até a última sexta-feira (11) Lula não havia recebido suporte público de outros chefes de Estado. A única declaração de apoio veio de uma porta-voz de terceiro escalão do governo chinês.

Bolsonaro também não recebeu apoio de outras lideranças globais fora Trump. Mas não está claro se as denúncias de abusos contra a liberdade de expressão e a perseguição judicial no Brasil vão continuar a repercutir internacionalmente. Isso deve depender muito do engajamento do presidente americano. Oposição atribui alta de tarifas a política externa antiamericana de Lula A campanha da oposição nas mídias sociais "Defenda o Brasil de Lula" e "A culpa é de Lula" tem tentado atribuir a ameaça tarifária de Trump às ações de política externa do governo brasileiro. Em seu terceiro mandato, Lula abandonou radicalmente a neutralidade diplomática tradicional do Itamaraty para apoiar politicamente países rivais dos Estados Unidos, como China, Rússia e Irã.

Esse alinhamento ficou evidente na atuação brasileira na presidência rotativa do bloco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos). O bloco divulgou uma declaração conjunta no último dia 6 que, entre outros pontos, criticou a política de aumento de tarifas (sem citar os Estados Unidos) e oficializou o apetite do bloco por criar sistemas financeiros que substituam o dólar como moeda de comércio global. “Parte desse tarifaço é o custo do alinhamento com os Brics e das tensões internas com o STF, mas o fator decisivo foi o engajamento com Pequim e a tentativa de minar o domínio dos EUA no sistema internacional” , afirma o professor de Relações Internacionais do Ibemec, Alexandre Pires. O desafio da oposição será explicar ao público o cenário geopolítico complexo que fez Trump aumentar a tarifa de importações de produtos brasileiros. Alta de tarifa usada como instrumento de sanção enfraquece mensagem de Trump Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo também afirmam que, apesar da intenção de Trump ajudar o Brasil a resistir a abusos do governo Lula e do STF, o caminho tarifário não foi a melhor solução.

Desde o primeiro anúncio do chamado Dia da Libertação por Trump em abril (quando todas as tarifas de comércio global americano foram elevadas), especialistas em comércio internacional vêm manifestando preocupação de que a nova política comercial dos Estados Unidos pode minar ainda mais o livre mercado e levar a uma recessão global. “Historicamente, o livre comércio se mostrou o caminho mais eficaz para fomentar a criação de riqueza entre nações. Já o protecionismo tarifário tende a gerar inflação, reduzir a competitividade das economias, desorganizar cadeias produtivas globais e fragilizar relações internacionais” , avalia o economista e analista de mercado internacional Rui São Pedro. A carta de Trump anunciando a nova tarifa para o Brasil, que foi divulgada na quarta-feira (9), começa mencionando diretamente o processo judicial contra Bolsonaro, classificando-o como uma caça às bruxas, e criticando ações de censura a redes sociais realizadas pelo STF. Isso fez Trump ser questionado até dentro dos Estados Unidos por usar a elevação de tarifas comerciais para atingir objetivos políticos.

Em tese, a elevação da taxação de bens importados adotada por um país é aceita como um instrumento para coibir práticas comerciais abusivas de nações estrangeiras e não para fazer coerção com fins geopolíticos. A ferramenta mais associada à pressão política é a sanção econômica.

Exemplos clássicos de sanções internacionais são a limitação determinada pelo Ocidente contra a Rússia para venda de petróleo por via marítima e a exclusão do país do sistema bancário de compensação de pagamentos globais SWIFT. Mas esse tipo de punição precisa de aprovação do Legislativo dos países que a aplicam, o que pode tornar o processo mais complexo e demorado. Analistas internacionais afirmam que Trump tem optado por elevar tarifas de comércio em vez de usar sanções porque pode agir por decreto, sem precisar da aprovação do Congresso. Para o economista Rui São Pedro, mesmo que Trump tenha boas intenções com o Brasil, os mecanismos utilizados não são os adequados e ainda podem causar penalização da população. Por Juliet Manfrin

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