O que faz um ator ser único no seu ofício? Talento? Vocação? O uso de inteligências emocional e cênica? Todas as respostas acima valem quando se trata de Emílio de Mello. E, não satisfeito em ser o ator que é, ainda manda (muito) bem como diretor, num revezamento criativo cujo principal beneficiado é o teatro brasileiro. E ele dá, no palco, mais uma prova de que não brinca em serviço. Ele substitui José de Abreu, outro ator de responsa, na temporada paulistana de “A Baleia”, na qual encara – com maestria – o desafio de interpretar o papel que, no cinema, foi vivido por Brendan Frazer. “É a primeira vez que faço um personagem com um corpo tão diferente do meu”, comenta Emílio nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. A seguir, ele fala de anseios como o de ver um mundo menos polarizado e mais tolerante, enaltece a importância de Marieta Severo e de Mauro Rasi (1949-2003) na sua formação artística, defende a recriação de clássicos para que seus autores não caiam no esquecimento e prega pela liberdade no amor e na criação artística. “O que não pode é não ter conceito”, arremata.
O Charlie é quase um personagem becktiniano em termos de ação por ficar chafurdado naquele sofá. O que este papel traz de instigante a um ator experiente feito você?
Bom, em primeiro lugar, é a primeira vez que faço um personagem com um corpo tão diferente do meu. Cada personagem tem seus maneirismos, que surgem de forma inconsciente e, no caso de um obeso severo, ele me exige ainda mais atenção. Ele é pesado e esse peso faz toda a diferença, me exige atenção à dinâmica do corpo, à sua velocidade e a forma como o personagem se movimenta. Uma simples ação como a de pegar um papel é diferente por te exigir um novo ritmo. Nosso cérebro está automatizado em relação a nossos movimentos, então este personagem me fez pensar muito na sua estrutura física, mais do que qualquer outro me exigiu.
A obesidade dele vem de uma questão emocional enquanto que o personagem não perde a sua lucidez. Ele é a antítese de figuras como a de Donald Trump não?
Com certeza, eles são diametralmente opostos (risos). O Charlie pensa muito no outro, ele tem uma empatia enorme pelo outro enquanto que o Trump não tem empatia alguma. A peça tem essa vertente, ela pode ser vista como uma ode à empatia. O Charlie é uma figura extremamente sensível, que quer fazer valer a pena sua passagem pelo mundo.
Ele vive um relacionamento homoafetivo após um casamento hetero normativo que lhe deu uma filha. Homens e mulheres 60+ estão se permitindo rever valores e quebrar paradigmas. Avançamos então?
Sem dúvida! E não somente as pessoas 60+, mas as de outras idades também. Chegar aos 50 anos significa que você viveu pouco mais da metade da sua vida. O melhor da vida você certamente já viveu, Ok, e o tempo que te resta precisa ser muito bem aproveitado. Morei na França em 2000 e lembro de ouvir de uma amiga que as pessoas não mudam, que seguem sendo elas mesmas e discordo disso. Somos seres mutáveis. Algumas pessoas se acomodam a um padrão de vida e outras não, se renovam. No caso do personagem, ele vivia num meio moralista e repressor. Hoje temos mais liberdade.
Quero falar de intolerância, tema presente no espetáculo e também em Deus da carnificina, que você dirigiu em 2011. Você vislumbra um mundo menos polarizado?
Acredito que sim. Lembro que, ali nos anos 1990, não havia essa diferença tão gritante entre a esquerda e a direita, e isso mudou radicalmente de uns tempos para cá. E pode ser que isso mude de novo porque o mundo é dinâmico, e a vida é feita de ciclos. Essa globalização é relativamente nova. As pessoas têm de se abrir às diferenças e conviver com elas. Talvez estejamos no cume dessa polarização como aconteceu nos anos 1940 (época da 2ª Guerra Mundial). É um pouco como aquela questão do Eterno Retorno (teoria defendida por Nietzsche e ligada ao conceito de repetição infinita de padrões na existência): o mundo é ciclotímico, mas acredito que meus filhos vão viver num mundo mais harmonizado.
Você teve oportunidade de contracenar com Marieta Severo em espetáculos antagônicos, na comédia A estrela do lar e na tragédia Antígona. O que a Marieta te mostrou de mais genuíno nessas duas experiências?
Puxa vida, tantas coisas… A Marieta é um exemplo de ética, profissionalismo e talento, fora o ser humano que ela é, sempre digna e correta com o outro. Ela é muito rigorosa naquilo que quer e nos seus caminhos profissionais. Ela é minha mãe teatral e uma pessoa que não precisa mais provar nada em relação à grandeza que ela tem.
E você teve oportunidade de trabalhar com o Mauro Rasi em três espetáculos. O Mauro levava à cena a perspicácia do olhar de cronista que tinha e, não por acaso, escreveu crônicas para jornal. A dramaturgia dele é moderna até hoje.
Se ele estivesse vivo, o teatro brasileiro estaria diferente. Certos autores teatrais olham para o passado. Outros, como o Tchekhov, olham para o futuro e conseguem ser visionários. O Mauro olhava para o agora e, por ter esse olhar de cronista, levava a realidade à cena com uma verossimilhança impressionante. Ele estava longe de fazer a linha autor de gabinete, aquele que dá o texto por encerrado depois de pronto, e continuava a escrever quando ia para a sala de ensaio com os atores. Ele dava subsídios para os atores criarem também. O diretor que o Muro foi fez dele o grande autor que ele é ainda hoje.
Temos grandes autores como Jorge Andrade, Alcione Araújo, Roberto Athayde… as questões orçamentárias estão nos levando a esquecer deles?
Sim e não. Adoraria fazer “Vereda da salvação” (de Jorge Andrade), mas imagina montar uma peça dessas nos dias de hoje? O Antunes (Filho) conseguiu (em 1964 e em 1993). Alguns textos precisam ser recriados como fizemos recentemente com “O Mambembe” (comédia de Artur Azevedo). O texto original tinha 68 personagens que foram agora interpretados por sete atores…
Num resultado impressionante pautado pelo jogo teatral, que era a base da encenação…
Sim, o elenco era todo formado por atores consagrados (Paulo Betti, Débora Evelyn, Júlia Lemmertz e Claudia Abreu, entre outros) que se revezavam na interpretação das personagens. O jogo teatral estava ali numa convenção em que cada papel tinha um signo forte. A brincadeira era: veste essa peça de roupa e vai! Temos de reler os textos clássicos e fazer um trabalho dentro do possível. Vai ter dinheiro? Então, temos de arrumar meios de fazer.
Você interpretou Ezequiel Neves no cinema. Como jornalista, ele dizia que tudo o que escrevia era ficção. Você compôs seu personagem a partir da ficção ou de dados biográficos?
Eu havia trabalhado com a Sandra (Werneck) no “Pequeno dicionário amoroso” e quando ela me chamou para o filme sobre o Cazuza, disse que tinha para mim uma missão: interpretar Ezequiel Neves. O Zeca ainda estava vivo e pensei: como vou interpretar uma cara como ele sem ficar caricato? Tivemos vários encontros e, na cena final do filme, ele aparece junto comigo. Foi um personagem todo criado a partir da realidade. Não conseguiria jamais imitá-lo.
Ele te chamava, como a muita gente, de Garotinho?
Sim. Ele fumava o baseado dele e falava muito do Cazuza. Na geladeira podia ter quase nada, mas a garrafa de Steinhäger estava lá. Mesmo após as filmagens, continuamos nos falando. Almoçávamos, de tempos em tempos, no Fazendola, perto de onde ele morava.
Arte, que você dirigiu, tratava de temas como autenticidade e valores artísticos a partir da aquisição de uma tela em branco. Hoje, há casos como o da banana presa à parede por uma fita sendo vendida por milhões. Estamos vivendo a época em que vale tudo em termos de conceitos?
É muito complicado falar sobre isso. Certa vez, eu estava em Paris e, ao visitar uma universidade, vi uma tesoura presa à parede por uma espuma. Me aproximei e um amigo me alertou para ter cuidado porque poderia se tratar de uma obra de arte (risos). Acho que o conceito pode tudo, o que não pode é não ter conceito. E o mais importante: ter liberdade. A gente não pode tudo sempre, mas, dentro da criação artística, a gente pode muita coisa.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e reprodução/internet (imagem)