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Entre a escola e o abandono: A morte da educação integral no Brasil

O Mito do "Policiamento Comunitário": Por que a Solução Ignora a Morte da Própria Comunidade?

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Entre a escola e o abandono: A morte da educação integral no Brasil

Depois de radiografar a inteligência desalmada do colarinho branco, a força bruta do faccionado e a simbiose institucional que sustenta o crime no Brasil, esbarramos naquilo que os pseudo especialistas em segurança pública gostam de vender como panaceia: as chamadas "soluções integradas" de segurança pública. Entre elas, nenhuma goza de tanto prestígio cosmético nos gabinetes e na academia quanto o modelo de policiamento comunitário. A proposta soa encantadora no papel e nos manuais de criminologia aplicada: aproximar a polícia da população, criar conselhos de bairro e transformar o morador em coprodutor da própria segurança. Mas há um detalhe que os planejadores fingem não ver: como exigir policiamento comunitário onde a própria comunidade já não existe mais?

Trata-se de uma tentativa ingênua — quando não puramente cínica — de convocar o cidadão comum para resolver um incêndio que ele próprio ajuda a alimentar, ainda que de modo involuntário. A pedagogia moderna, marcada por um utilitarismo míope e por um materialismo corrosivo, deformou as consciências a ponto de privar o homem ordinário da capacidade elementar de discernir o Bem do Mal. Ele foi educado para ser apenas uma peça no maquinário econômico, impermeável à Verdade objetiva sobre as coisas. Querer que esse mesmo indivíduo, moralmente desarmado e espiritualmente confuso, funcione como âncora de contenção do crime é inverter a ordem das causas: o cidadão atual é sintoma da crise, não remédio espontâneo.

Querer aplicar um modelo de policiamento comunitário com sucesso no Japão, um país oriental com cultura totalmente diversa, em nossa medíocre realidade ocidental é no mínimo utópico. A verdade desconfortável é que a modernidade dinamitou as colunas que sustentavam o convívio orgânico Família, paróquia, vizinhança, pátria — todos esses laços de comunhão e lealdade foram substituídos por um amontoado de indivíduos isolados, movidos por conveniência e medo. Exigir que esse agregado de átomos dispersos produza "senso de vigilância cívica" é tão absurdo quanto esperar que pedras soltas se sustentem como uma abóbada gótica sem a argamassa da transcendência.”

O Desmoronamento da Matriz Comunitária: De Descartes ao Utilitarismo

Para entender por que as pessoas hoje mal se cumprimentam no corredor do condomínio — quanto mais colaborar para conter criminosos armados —, é preciso olhar para a genealogia do pensamento moderno. O processo de atomização (isolamento) começou quando René Descartes, em suas Meditações e no Discurso do Método, trancou o sujeito no castelo solitário do “penso, logo existo”. Descartes decidiu duvidar de tudo o que existia: dos sentidos, do próprio corpo e do mundo físico. A única certeza inabalável que restou foi a sua própria capacidade de pensar. Portanto, o "sujeito" (o eu) ficou trancado dentro de si mesmo. Ele só tem certeza da sua própria mente, transformando a consciência em um "castelo solitário" onde mais ninguém entra.

Essa cisão ganhou contornos sentimentais desastrosos com Jean-Jacques Rousseau em Emílio ou Da Educação. Ao pregar a bondade natural do homem e culpar a civilização, a autoridade e as instituições tradicionais por toda a corrupção humana, Rousseau plantou a semente da suspeita contra todo laço social objetivo. Mais tarde, com Karl Marx, a própria ideia de laço comunitário foi reduzida a um ardil da superestrutura para perpetuar a dominação de classe, reduzindo todas as relações humanas a meros choques de interesse material. Como complemento funesto, a martelada de Friedrich Nietzsche em Além do Bem e do Mal e na Genealogia da Moral decretou a "morte de Deus" e a dissolução de toda moralidade objetiva, reduzindo o convívio a um campo de batalha entre vontades de poder.

Émile Durkheim, em Educação e Sociologia, compreendeu que a educação deveria conformar o indivíduo à ordem social, mas concebeu a sociedade como uma força mecânica imanente, secularizada, destituída de qualquer propósito transcendente. O resultado final dessa marcha intelectual foi dissecado por Michel Foucault em Vigiar e Punir, onde a modernidade troca os antigos laços de lealdade moral por redes sutis de adestramento técnico, controle e disciplinarização dos corpos. O homem moderno não vive mais em comunidade; ele habita um panóptico invisível de desconfiança mútua.

Nesta dura realidade, para a grande maioria das pessoas, fazer o bem para o outro, passou a fazer sentido somente dentro de uma concepção egocentrista onde o maior beneficiário deste bem seja eu mesmo. Na politica as migalhas apresentadas como grandes projetos sociais ligados a educação, saúde e segurança, não eventualmente, escondem grandes desvios de verbas e beneficiamento de parceiros, na internet a marmita doada ao morador de rua ou a cesta básica dirigida a família carente, viram postagens, vídeos, cortes em redes sociais em busca views, viralizações e emojis.

Gustavo Corção, em As Fronteiras da Técnica e em A Descoberta do Outro, diagnosticou com sensibilidade ímpar o coração dessa tragédia espiritual: o primado da técnica matou a compaixão e a capacidade de contemplar o outro como um irmão sob Deus. O homem contemporâneo, asfixiado pelo cálculo utilitarista, desaprendeu a enxergar a humanidade do vizinho, se tornou incapaz de desenvolver empatia. Quando os laços que ligavam o indivíduo ao Criador foram rompidos, quebrou-se instantaneamente o elo moral que unia os indivíduos entre si. As poucas contrariedades a esta realidade, que ainda podemos ver nos dias de hoje, são manifestadas por indivíduos que de alguma forma romperam a bolha do sistema e tiveram um encontro “pessoal” com seu Criador, e a partir de uma genuína conversão, passam a amar o outro como a si mesmo.

O Cidadão Fraturado e a Incapacidade de Enxergar a Realidade

Nesse deserto social, o cidadão chamado a cooperar com a polícia é um sujeito cuja mente foi sistematicamente adestrada para o cinismo e para a frouxidão moral. Décadas de pedagogia construtivista e sentimentalista criaram uma mentalidade que hesita em condenar o delinquente, preferindo transferir a culpa dos atos individuais para entidades impessoais como "o sistema" ou "a sociedade". Esse mesmo cidadão, incapaz de exercer autoridade sobre os próprios filhos e indiferente ao sofrimento do vizinho assaltado na calçada em frente, é quem agora os teóricos pretendem transformar em sentinela da ordem pública.

Étienne Gilson, em O Espírito da Filosofia Medieval, ressaltou que o pensamento clássico cristão nunca separou a ordem da inteligência da ordem do ser. Havia um realismo vigoroso: o intelecto existia para conformar-se à realidade externa criada por Deus (veritas est adaequatio rei etintellectus — a verdade é a adequação da coisa ao intelecto). A educação clássica medieval ensinava a mente a ver as coisas como elas realmente são, capacitando o homem a contemplação do Bom do Belo e do Verdadeiro. O homem medieval sabia o que era virtude e o que era vício, quem era o guardião e quem era o salteador, sem crises existenciais de relativismo hermenêutico.

Hoje, desprovido dessa ancoragem metafísica, o cidadão comum tornou-se refém de narrativas ideológicas, se ele presencia a atuação de uma facção no seu bairro, sua reação imediata não é a indignação moral ordenada à justiça, mas o cálculo utilitário da sobrevivência ou a justificação condescendente do crime. Ele não consegue fornecer inteligência ou apoio à polícia porque perdeu o critério objetivo de verdade e o dever de solidariedade civil, se houver um risco, mesmo que seja mínimo, o silencio será a regra. Pior: muitas vezes normaliza a presença da boca de fumo como uma conveniência comercial local, o tecido social está tão gangrenado que o morador teme mais o julgamento das ONGs e a retaliação do tribunal do crime do que anseia pela restauração da lei legítima.

A Farsa Burocrática em Meio ao Vácuo Existencial

Implementar o policiamento comunitário nesse ecossistema equivale a erguer um edifício de concreto armado sobre um pântano moral. Christopher Dawson, em A Crise da Educação Ocidental, advertiu com lucidez premonitória: “uma civilização que perde seus fundamentos religiosos e humanistas converte sua educação em mero treinamento utilitário, gerando uma sociedade interiormente desintegrada, cuja coesão só pode ser mantida pela força policial externa ou pelo colapso total”. Sem uma herança moral compartilhada, não há "comunidade"; há apenas vizinhos geográficos forçados a conviver em desconfiança mútua.

Quando as polícias tentam criar reuniões de bairro para debater planos de segurança, o que encontram não é o povo reunido em torno do bem comum, mas assembleias paralisadas pela apatia, pelo ressentimento ideológico e pelo pavor. Os próprios criminosos infiltram-se nesses fóruns ou monitoram seus participantes à vista de todos, a proposta de transformar a comunidade em parceira da polícia ignora que o crime organizado é quem hoje exerce a soberania de fato nas periferias e bairros degradados — precisamente porque ele supriu, pela força e pela disciplina do terror, o vazio de autoridade e pertencimento que a família e a escola abandonaram.

Jacques Maritain, em obras como Humanisme Intégral e Education at the Crossroads, já denunciava os perigos de um humanismo antropocêntrico que isola o homem de seu destino eterno, Maritain insistia que a educação deve formar a pessoa em sua totalidade espiritual, orientando-a para a virtude e para a vida em uma sociedade verdadeiramente orgânica e fraterna. Quando se substitui essa formação integral pelo pragmatismo educacional laico, a ideia de "cidadania" esvazia-se de todo conteúdo substantivo, resta apenas o homem-massa, pronto para aplaudir discursos burocráticos durante o dia e trancar-se atrás de grades eletrificadas à noite, incapaz de mover uma palha pela integridade do quarteirão onde mora.

A Restauração da Civitas: Da Ilusão Mecânica ao Resgate Escolástico

A segurança de uma nação nunca foi e nunca será um problema de pura engenharia gerencial ou de novas fórmulas importadas da sociologia oriental, não se remenda o tecido social com conselhos de bairro artificiais enquanto as almas permanecem em ruínas. A restauração da ordem nas ruas exige, com urgência inadiável, a reconstrução da ordem interior das almas, resgatando a herança da Escolástica medieval e os princípios da educação clássica católica, não se trata aqui de doutrinar a educação a determinada religião, e sim adotar as primícias básicas que permitem ao homem encontrar a postura mais adequada da criatura diante do seu Criador.

Para a filosofia perene de Santo Tomás de Aquino e dos mestres da Idade Média, a comunidade política não era uma agregação mecânica de indivíduos medrosos unidos por um contrato social, mas um corpo vivo — uma autêntica comunhão ordenada à virtude e ao culto da Verdade. Como nos ensinava Hugo de São Vítor, a finalidade última de qualquer aprendizado humano é ordenar as paixões, restaurar a integridade decaída e encaminhar a inteligência a Deus, quando a escola cumpre essa missão transcendental, a família recupera sua autoridade sagrada, o pai reassume o papel de patriarca educador e a comunidade volta a ser o coração pulsante da vida vicinal e a regra retoma seu lugar de exceção.

É dessa densidade moral redescoberta que brota a verdadeira comunidade, não a caricatura artificial inventada pelos burocratas de ONGs, mas a comunidade real, forjada na lealdade mútua, no amor à pátria, no temor reverente à Lei Divina e no compromisso inegociável com a justiça objetiva: opus iustitiae pax — a paz é fruto da justiça. Enquanto continuarmos alimentando um sistema pedagógico materialista que destrói a família, neutraliza a fé e ensina o egoísmo utilitário às crianças, continuaremos assistindo à pantomima patética de governos pedindo cooperação cívica aos mesmos indivíduos que eles próprios ajudaram a desumanizar. Apenas o retorno a Deus e à Verdade imutável pode ressuscitar a comunidade; e só onde há uma comunidade viva a ordem e a segurança encontram um chão sólido para florescer.

Referências Bibliográficas

CORÇÃO, Gustavo.A Descoberta do Outro. Rio de Janeiro: Agir, 1944.

CORÇÃO, Gustavo.As Fronteiras da Técnica. Rio de Janeiro: Agir, 1954.

DAWSON, Christopher.A Crise da Educação Ocidental (The Crisis of Western Education). Tradução de Maurício G. Righi. São Paulo: É Realizações, 2011.

DESCARTES, René.Discurso do Método; Meditações. Tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Jr. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

DURKHEIM, Émile.Educação e Sociologia. Tradução de Lourenço Filho. São Paulo: Melhoramentos, 1978.

FOUCAULT, Michel.Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987.

GILSON, Étienne.O Espírito da Filosofia Medieval. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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NIETZSCHE, Friedrich.Além do Bem e do Mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

NIETZSCHE, Friedrich.Genealogia da Moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

ROUSSEAU, Jean-Jacques.Emílio, ou Da Educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

SÃO VÍTOR, Hugo de.Didascalicon: da arte de ler. Tradução de Antonio Marchionni. Petrópolis: Vozes, 2001.

Clodomar Rodrigues - Coronel da Polícia Militar do Estado de Rondonia Comandante Regional de Policiamento II


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