
É a vida acontecendo diante dos nossos olhos.
De um lado, o fogo provocado ameaça Cacoal, justamente em agosto, período em que a vegetação seca transforma irresponsabilidade em perigo coletivo.
Do outro, um pioneiro de Jaru, Wilson Terra, despede-se da vida aos 88 anos. Enquanto uma geração parte, outra sociedade continua tentando compreender algo elementar: que pessoas com deficiência possuem direitos, dignidade e lugar pleno entre nós. Ao mesmo tempo, famílias enfrentam as contas atrasadas, com a inadimplência crescendo 10,01% em Cacoal e um mutirão sendo preparado para renegociação das dívidas.
É a vida acontecendo diante dos nossos olhos.
- Nascimento e morte.
- Esperança e medo.
- Produção e criminalidade.
- Prosperidade e dívida.
- Política e polícia.
- Campo e cidade.
Talvez nunca tenhamos recebido tanta informação. E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão necessário perguntar se estamos realmente compreendendo aquilo que vemos.
O fogo que queima muito mais que vegetação
Quando alguém coloca fogo deliberadamente em uma vegetação seca, não está queimando simplesmente capim.
Está colocando em risco propriedades, animais, famílias, bombeiros e toda uma comunidade.
O fogo provocado é uma metáfora incômoda dos nossos tempos.
Vivemos numa sociedade em que muitas pessoas parecem acreditar que suas escolhas terminam nelas mesmas.
Não terminam.
Aristóteles ensinava que o homem é, por natureza, um animal político, um ser destinado à vida em comunidade. Isso significa que nossas decisões inevitavelmente alcançam outras pessoas.
Quem ateia fogo precisa compreender isso.
Quem dirige alcoolizado precisa compreender isso.
Quem ameaça alguém por causa de uma dívida precisa compreender isso.
Quem transforma o espaço público em território da violência precisa compreender isso.
Liberdade sem responsabilidade deixa de ser liberdade e começa a se transformar em ameaça.
A Bíblia apresenta o mesmo princípio de maneira extraordinariamente simples:
“Tudo o que o homem semear, isso também colherá.”
Gálatas 6:7
Estamos colhendo aquilo que plantamos?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes deste nosso tempo.
Quando 345 tabletes dizem mais que um número
A mesma sociedade que acompanha o trabalho, a produção e a economia, também observa toneladas e centenas de quilos de entorpecentes circulando pelas estradas e cidades.
Tem sido apreensões expressivas: cerca de 165 quilos de skunk em São Francisco, aproximadamente 217 quilos de drogas em Vilhena e mais de 850 gramas em uma operação na Linha 9, em Cacoal.
Em Porto Velho, a Polícia Militar apreendeu 345 tabletes de maconha e pasta base de cocaína, em uma ocorrência cujo prejuízo ao tráfico foi estimado pela publicação em R$ 4,2 milhões.
Mas não podemos olhar para 345 tabletes e enxergar somente 345 objetos apreendidos.
Por trás do tráfico existe uma cadeia humana.
- Existe o adolescente recrutado.
- Existe a família destruída.
- Existe a mãe que passa a madrugada esperando o filho voltar.
- Existe o dependente que vende o que possui.
- Existe a violência pelo controle territorial.
- Existe dinheiro financiando estruturas criminosas.
- Existe sangue.
A Operação Pax Urbana, em Presidente Médici, aparece justamente nesse cenário, com 12 medidas relacionadas ao combate ao tráfico, além do cumprimento de mandado de apreensão contra adolescente, que aconteceu aqui em Cacoal.
E isso deveria nos incomodar profundamente.
Porque quando nossos adolescentes começam a aparecer nas páginas policiais, não fracassou somente aquele adolescente.
Alguma coisa também falhou ao redor dele.
- Família?
- Escola?
- Estado?
- Comunidade?
Todos nós precisamos ter coragem para fazer essa pergunta.
Há também mãos que salvam
Mas a notícia não fala somente daquilo que destrói.
Ela fala de quem salva.
Em Cacoal, um idoso precisou ser resgatado depois de cair de uma ponte sobre o rio Pirarara.
E talvez exista aí uma das imagens mais bonitas para compreendermos a humanidade.
Enquanto algumas mãos provocam incêndios, outras apagam as chamas.
Enquanto algumas mãos distribuem drogas, outras as retiram das ruas.
Enquanto algumas mãos ameaçam, outras socorrem.
Enquanto alguns destroem, outros levantam alguém do chão.
É assim desde que o mundo é mundo.
O filósofo inglês Thomas Hobbes enxergava no homem uma capacidade assustadora de conflito quando inexistem limites capazes de organizar a convivência.
A Bíblia, porém, vai além da organização social e toca diretamente o coração humano:
“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.”
Mateus 5:9
Talvez o nosso tempo esteja necessitando menos de pessoas interessadas em vencer todas as discussões e mais de pacificadores.
- Na família.
- Na política.
- Nas redes sociais.
- No trânsito.
- Nos bairros.
- Nas escolas.
- Dentro de casa.
A dívida de R$ 60 e as grandes misérias humanas
Entre tantas ocorrências, chama atenção uma notícia aparentemente pequena: uma cobrança de dívida acompanhada de ameaças acabou virando caso de polícia em Cacoal.
São episódios distintos, mas que revelam algo comum.
Estamos perdendo, muitas vezes, a capacidade de conversar.
Qualquer divergência parece poder virar confronto.
- Uma dívida vira ameaça.
- Uma discussão vira ocorrência policial.
- Uma frustração vira agressão.
- Nas redes sociais, uma opinião diferente vira ofensa.
- Na política, o adversário vira inimigo.
- No trânsito, uma fechada pode terminar em tragédia.
Estamos tecnologicamente mais conectados e emocionalmente cada vez menos preparados para conviver com o contraditório.
Sócrates fez da pergunta e do diálogo instrumentos para procurar a verdade.
Mais de dois mil anos depois, temos smartphones capazes de conectar uma pessoa ao planeta inteiro, mas ainda precisamos reaprender uma habilidade muito mais antiga:
ouvir.
E enquanto houver alguém disposto a apagar incêndios em vez de provocá-los, salvar em vez de abandonar, produzir em vez de destruir, dialogar em vez de ameaçar e servir em vez de simplesmente mandar...
a esperança ainda estará viva.
Nelson Salles da Redação
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