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Estudo revela que vírus do resfriado age silenciosamente

Pesquisa da USP indica que rinovírus pode permanecer em amígdalas e adenoides e ser transmitido mesmo por pessoas sem sinais de infecção.

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Estudo revela que vírus do resfriado age silenciosamente

O vírus responsável pela maioria dos resfriados pode permanecer escondido no organismo mesmo quando a pessoa não apresenta sintomas. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) indica que o rinovírus consegue persistir nas amígdalas e nas adenoides por períodos prolongados, o que pode facilitar a transmissão silenciosa da infecção.

A pesquisa, publicada no Journal of Medical Virology em 24 de janeiro, analisou amostras de 293 crianças que passaram por cirurgia para retirada desses tecidos. Mesmo sem sintomas no momento da operação, quase metade apresentava o vírus em pelo menos um dos locais avaliados.

Segundo o rinovirologista Eurico de Arruda Neto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e coordenador do estudo, a descoberta ajuda a explicar por que surtos costumam ocorrer pouco depois do início das aulas.

“Algumas crianças podem estar com o vírus na garganta sem sintomas e acabam transmitindo para colegas, pais e avós”, afirma em comunicado.

Onde o vírus permanece

Até agora, sabia-se que o rinovírus infectava principalmente a superfície do nariz e da garganta, provocando sintomas clássicos como coriza e espirros. O novo estudo mostrou que ele também pode atingir regiões mais profundas das amígdalas e adenoides, infectando células de defesa chamadas linfócitos.

Essas células participam da memória imunológica e costumam viver por bastante tempo. Em vez de destruí-las rapidamente, o vírus pode permanecer nelas de forma persistente, semelhante ao comportamento de outros vírus conhecidos por permanecerem latentes no organismo.

Para os pesquisadores, essa permanência não necessariamente representa algo negativo. Há a hipótese de que a presença viral nesses tecidos possa reforçar a memória do sistema imune e manter a produção de anticorpos ao longo do tempo. Ainda assim, o fenômeno também levanta questões clínicas importantes.

Possíveis impactos para a saúde

Uma das preocupações é a relação com doenças respiratórias, especialmente em crianças com asma. A presença do vírus em células imunológicas pode estimular substâncias inflamatórias capazes de desencadear crises respiratórias.

Outra implicação envolve o diagnóstico de infecções. Segundo Eurico, testes realizados apenas em secreções da garganta podem detectar um vírus antigo que permanece nos tecidos, sem necessariamente ser o causador do quadro atual. “Isso pode gerar confusão na interpretação dos exames e exige cautela na avaliação clínica”, explica.

Os pesquisadores também investigam se a persistência viral pode se tornar um problema para pessoas com imunidade comprometida, como pacientes transplantados. Nesses casos, vírus que estavam silenciosos poderiam se reativar.

Para os autores, o estudo amplia a compreensão sobre o comportamento dos vírus respiratórios e mostra que o resfriado pode ser mais complexo do que parece, envolvendo não apenas infecções agudas, mas também períodos prolongados de permanência silenciosa no organismo.

Por Ravenna Alves