
Frigoríficos brasileiros exportadores de carne bovina que participaram da Sial Xangai 2026 precisaram fazer negócios de um jeito diferente neste ano. Cientes de que já preencheram mais da metade da cota de 1,106 milhão de toneladas estabelecida pelos chineses para as exportações de carne bovina do Brasil ao país, as empresas organizaram as vendas considerando que abates e produção deverão ser feitos para que os embarques ocorram até o fim de junho. Com isso, buscam garantir que as cargas cheguem aos portos chineses sem a cobrança de tarifa extra de 55%.
Esse “limite” foi definido porque a expectativa é de que a cota brasileira se esgote até lá. Ontem (20/5), o governo chinês informou que o Brasil já utilizou 55,4% da sua cota, com 612,8 mil toneladas até abril. Parte das cargas que saiu dos portos brasileiros em meados de março, abril e as três semanas de maio ainda não estão contabilizadas. Os cálculos do setor são de que o Brasil ainda havia 350 mil toneladas para vender na cota.
Em abril, os frigoríficos brasileiros exportaram 138 mil toneladas para a China, segundo o Ministério da Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A expectativa do setor é que em maio e junho as vendas fiquem próximas de 140 mil toneladas mensais. Como a viagem dos navios que levam os contêineres de carne dura cerca de 45 dias, a expectativa é que a China anuncie o esgotamento da cota brasileira até o fim de julho, com o que for internalizado no período.
Até pouco tempo, havia a perspectiva de que o esgotamento do volume autorizado para exportar sem tarifa extra ocorreria mais cedo, com cargas enviadas em maio. A perspectiva de poder exportar até junho deu certa vantagem aos frigoríficos nas negociações com os chineses durante a feira.
“As vendas estão fluindo, a indústria tem sido responsável. O setor queria a regulação para ter esse equilíbrio, e não veio”, disse Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). “Todo mundo está indo até a segunda semana de junho, sem arriscar. Não existe discussão sobre exportação e custos fora da cota”.
Algumas empresas ainda conseguem esticar o prazo até o fim de junho. “Vamos ser cautelosos, com a produção prevista até 13 de junho e embarques até o dia 20”, disse Daniel Freire, CEO da Mercúrio, frigorífico do Pará. Ele relatou que os importadores chineses estão “temerosos e reticentes” nos negócios por conta do avanço da cota.
A China representa 60% do faturamento da empresa e é destino de 90% das exportações do frigorífico. Desde o início do ano, Freire já alterou a rotina de produção. O abate foi reduzido de 40 mil cabeças por mês para 25 mil. “Vamos ajustar a produção para atender o mercado”, disse durante a Sial.
A estratégia adotada pelo setor na feira foi transmitir ao importador chinês que o Brasil não vai vender a qualquer preço para a China nem dividir custos extras, que apertariam ainda mais as margens das companhias em momento já delicado por conta de custos elevados, dólar em queda e arroba do boi em alta. Embutir parte da taxa extra de 55% na venda de carne é visto como inviável.
“Não queremos abrir mão do nosso preço e não vamos tomar risco. A China foi fundamental para o nosso negócio, mas não vamos dividir a responsabilidade sobre a cota”, disse Paulo Emílio Franco Prado, CEO da Plena Alimentos, também presente na Sial.
A mensagem é que o Brasil venderá para outros destinos, como Chile e os Estados Unidos, grande aposta neste momento. Os exportadores ainda aguardam a oficialização da isenção para embarcar aos americanos, mas avaliam que a tarifa de 26,4% viabiliza negócios.
“A pecuária mundial vive esse desafio de oferta de gado, de oferta de carne, mas o Brasil é resiliente, tem um trabalho consolidado como grande player e importante parceiro no combate à insegurança alimentar”, avaliou o diretor de Assuntos Estratégicos da Abiec, Júlio Ramos.
A Plena Alimentos, que tem plantas em Goiás, Minas Gerais e Tocantins, também vende para o Oriente Médio, com concentração menor na China — cerca de 27,5%.
“Já fizemos uma posição forte antecipada de venda para outros mercados”, afirmou Prado. Alguns contratos poderão ser estendidos para julho para atender a China ao longo do mês de junho, revelou. “Mas estamos até agosto vendidos para esses outros mercados”, disse. Mesmo assim, o ritmo de abates caiu 7,6% no último mês para adaptar a produção à nova realidade.
Sem pressão para fechar vendas neste momento, os frigoríficos ganharam poder de barganha por melhores preços, em torno de US$ 6,6 mil por tonelada do dianteiro bovino de seis cortes, os mais comprados pelos chineses. Os importadores tentaram baixar as cotações. Alguns relataram dificuldades de obter financiamento dessas operações, modelo comum no país, diante do risco de as cargas chegarem à China depois do preenchimento da cota.
“Vendemos até junho para chegar dentro da cota, podendo haver até uma semana ou duas de julho com espaço, porque todo mundo tirou o pé, mas não tomamos esse risco. Sentimos que os clientes também estão com receio, pois a taxa de 55% é impraticável no primeiro momento”, avaliou Fabrizzio Capuci, diretor-executivo da Naturafrig. (Colaborou Clarice Couto, de São Paulo)
Por Rafael Walendorff — Xangai (China)