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Fala Coronel: A Banalização do Mal e o Eclipse do Transcendente

Uma leitura sobre a erosão dos valores humanos fundamentais

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Fala Coronel: A Banalização do Mal e o Eclipse do Transcendente

Ao observarmos a dinâmica das salas de aula contemporâneas, deparamo-nos com uma resposta quase uníssona quanto à finalidade do saber: a ascensão financeira e a inserção pragmática no mercado de trabalho, embora pareça uma resposta prática, ela oculta uma armadilha que tem asfixiado a alma humana, pois o "teto" da nossa existência foi deliberadamente rebaixado. Onde outrora o homem buscava o Transcendente e a perenidade — pilares da educação clássica cristã —, hoje encontramos apenas o limite de um materialismo rasteiro que reduz a vida ao consumo. Como adverte a sabedoria perene: “Qui non habet caelum, genuflectit ante mamona” — aquele que não possui o céu como horizonte, fatalmente se ajoelhará diante do dinheiro, essa desorientação espiritual reflete o que Hugo de São Vítor descrevia no Didascalicon como a perda da clareza mental, afirmando que "a ignorância é uma treva da mente, e o conhecimento é o caminho para a luz”.

Essa "reforma do gesso" transformou o ato educativo em um mero treinamento para a sobrevivência biológica, ignorando que a natureza humana anseia por algo que ultrapassa a mera matéria. Como ensina Santo Tomás de Aquino, a felicidade última do homem não reside em bens criados, mas na contemplação da Verdade Primeira, pois "o homem não pode ser feliz se sua vontade não estiver em repouso no fim último". Ao expulsarmos o sentido de eternidade do ambiente escolar, criamos um vácuo existencial onde o niilismo se instala confortavelmente, sem um "Fim Último" que ordene os desejos, a vida resume-se a uma busca frenética pelo prazer imediato, tornando a ética um fardo obsoleto na trajetória rumo ao sucesso individual, dentro deste princípio, os meios sempre serão justificados pelo fim que se pretende.

O reflexo desse esvaziamento espiritual manifesta-se com crueza na crise de segurança pública que nos assola, vejamos, se o propósito da vida limita-se ao acúmulo de poder e bens materiais, o traficante e o corrupto surgem como os "estudantes exemplares" desse sistema desvirtuado. Eles compreenderam a lógica materialista com perfeição: na ausência de uma ordem superior, ser o "senhor do território" ou o "artífice da fraude" torna-se a escolha mais eficiente para satisfazer os apetites imediatos .

O Horizonte Estreito: Falência Intelectual e Deformação Moral

A crise educacional brasileira não se restringe apenas à falência intelectual amplamente demonstrada pelos índices do PISA e pelo crescente analfabetismo funcional, esse colapso do raciocínio lógico — discutido no Artigo 6 — é, na verdade, a fundação para uma profunda deficiência de caráter. Sem a capacidade de processar a realidade por meio da lógica e da linguagem, - o Trivium - o indivíduo torna-se incapaz de discernir as consequências morais de seus atos, reagindo apenas a estímulos sensoriais e apetites egóicos, sob uma bandeira de liberdade de decisão, torna-se escravo de suas paixões. Josef Pieper alerta que a perda da capacidade de silêncio e contemplação impede o homem de perceber a realidade como ela é, tornando-o escravo do ativismo e do utilitarismo.

A educação integral de matriz escolástica compreendia o processo de ensino como um preparo sub “specie aeternitatis” — sob o prisma da eternidade, em contraste, a esta realidade, a pedagogia moderna passou a ver o espírito humano como uma sobra desnecessária, o resultado é o "Homem sem Peito": um ser com o intelecto minimamente técnico (cérebro) e desejos instintivos (estômago), mas sem o coração (virtude) necessário para mediar suas ações, CS Lewis afirmava categoricamente: "Rimos da honra e ficamos chocados quando encontramos traidores em nosso meio"

Nesse cenário de deserto moral, o mal deixa de ser uma categoria objetiva para se tornar uma opção utilitária, dentro de uma visão relativa, o ato ilícito é aceito e até justificado se gerar um bem que atenda ao ego individual ou à sobrevivência material. A inteligência, desprovida de uma finalidade maior, passa a servir à malícia, criando monstros sofisticados que operam o crime e a corrupção com precisão técnica, sem que haja, em qualquer nível, capacidade de enxergar as consequências destes atos na vida das outras pessoas, encarnando o que Hannah Arendt chamou de inteligência desalmada.

A Fábrica de Mitos: A Cultura Pop e a Romantização do Abismo

As correntes que turvam a percepção do homem sobre o transcendente são variadas, nem de longe se restringem ao ambiente escolar, contudo, poucas possuem a capilaridade da cultura de massa. A cultura pop opera contemporaneamente como uma "catequese invertida", realizando uma profunda intervenção na sensibilidade moral da juventude ao substituir a busca pela Areté (excelência) por uma fascinação estética pelo mal. Onde a educação clássica apresentava o herói virtuoso como farol, a indústria do entretenimento entronizou o "anti-herói" magnético, cujos vícios são tratados como extensões de sua "autenticidade", seus defeitos, justificados como fruto de uma sociedade injusta e opressora.

O arquétipo do herói que sacrificava a própria existência para proteger a família e a comunidade contra o mal foi substituído por grupos de desajustados que realizam o “roubo do século”, enquanto milhares de espectadores, não se dão conta, que estão torcendo pela vitória do mal. Sob a justificativa retórica de combater um sistema opressor, o crime é apresentado como um ato de justiça poética, induzindo o cidadão a pensar que, antes da decisão entre salvar a vida do bandido e a do policial, precisamos analisar as oportunidades que ambos tiveram em suas vidas, antes de assumirem estes personagens.

Essa glamourização fornece o combustível simbólico para a "Síndrome do Vazio": ao retratar o criminoso como um estrategista brilhante, ou como um produto de desigualdade social, a cultura pop preenche a lacuna deixada por uma nação que abdicou de ensinar a virtude, seja na escola, seja nos seios da família. Como observou Romano Guardini, o homem moderno "ganhou o mundo técnico, mas perdeu a própria morada interior", tornando-se vulnerável a qualquer mito que prometa preencher seu vazio existencial.

No vácuo de autoridade deixado pela queda do "Mestre", o "Chefe" da facção assume o papel de guia simbólico, por meio de narrativas que celebram a força bruta e o ganho rápido, o jovem é treinado para responder estritamente a impulsos instintivos, atrofiando a capacidade de reflexão lógica. A cultura pop torna-se o ruído ensurdecedor que impede o silêncio necessário à contemplação profunda, conduzindo o indivíduo a construir a moldura dourada de sua própria decadência ética.

A Banalização do Mal e o Medo do Rigor: A Gênese da Impunidade

A crise de impunidade que assombra o país tem suas raízes no receio institucionalizado de aplicar a correção pedagógica no processo de aprendizagem, pais que abandonaram sua autoridade, depois de convencidos de que autoridade é sinônimo de autoritarismo, e professores que, pela mesma razão, abandonaram sua posição de superioridade, de mestre do saber, que sua capacitação e conhecimento garantiam, pelo simples papel de mediador. Transformamos o ambiente escolar em um espaço de passividade, onde o exercício da autoridade legítima — aquela que deve guiar o aluno em direção à Verdade — é frequentemente confundido com opressão; no entanto, é imperativo recordar que o temor de uma sanção justa é a base da convivência civilizada: “Timor Domini initium Sapientiae”. Hannah Arendt demonstrou em Eichmann em Jerusalém que a "incapacidade de pensar" e de julgar o que é certo e errado abre as portas para a banalidade do mal, onde crimes atrozes tornam-se rotina burocrática

A omissão escolar diante da indisciplina ensina ao jovem, de forma implícita, que suas ações não acarretam consequências reais esse fenômeno prepara o terreno para o que Hannah Arendt denominou "banalidade do mal", onde a transgressão deixa de causar repulsa para ser aceita como a norma vigente. Se o estudante percebe que o desrespeito ao mestre e a fraude acadêmica são tolerados, ele conclui que a realidade é um território sem leis, onde a vontade individual é o único tribunal, e que todas as leis e regras sociais existem apenas para mensurar a capacidade do homem de burlá-las. Friedrich Nietzsche descreveu esse estado como, o domínio da "vontade de poder", onde, na ausência de Deus e de uma ordem moral objetiva, a única regra é a imposição da força própria.

A falência da punição pedagógica é o prelúdio direto da punição penal, o indivíduo que não foi formado pela correção firme dos pais e educadores fatalmente encontrará a correção coercitiva do sistema carcerário ou a violência letal das ruas. A disciplina escolar não constitui um ato de autoritarismo, mas sim um gesto de justiça; é o ensino prático de que cada indivíduo é responsável pela ordem que ajuda a construir ou a destruir, da mesma forma que o maior ato de amor possível dos pais em relação aos filhos é o exercício de sua legítima autoridade sobre eles.

Conclusão: A Restauração da Educação como Imperativo de Segurança

Não será possível estabelecer a paz social enquanto nossas instituições de ensino funcionarem apenas como formadoras de consumidores e técnicos, a verdadeira segurança pública não se origina no som das sirenes, mas no silêncio de uma consciência que reconhece sua responsabilidade diante de uma ordem superior. É urgente "levantar o teto" da educação nacional, devolvendo ao brasileiro o direito de aspirar ao que é Bom, Belo e Verdadeiro, e este passo necessariamente se inicia no processo educacional em casa, estendendo-se a partir daí para a escola.

Enquanto o sucesso for medido estritamente pelo acúmulo financeiro, o crime organizado continuará a ser um competidor imbatível para a juventude, seja esta organização criminosa armada de fuzis ou de canetas. Somente o resgate da formação integral — centrada na Lógica, na prática das Virtudes e na busca pela Transcendência — pode romper o ciclo de barbárie que nos cerca . A paz é, em última análise, o fruto de almas ordenadas que se recusam a trocar sua honra pela satisfação de apetites passageiros.

A guerra contra a desordem civilizatória é vencida no silêncio das bibliotecas que mantêm suas janelas abertas para o Infinito, precisamos reconstruir a integridade do homem para que, finalmente, possamos consolidar a construção de nossa nação. O resgate do espírito não representa um idealismo abstrato, mas sim a única estratégia de segurança pública capaz de produzir resultados perenes: a formação de cidadãos com a coragem moral necessária para sustentar a civilização.

Referências Bibliográficas (ABNT)

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica. I, Questão 117 (Sobre o mestre). Tradução de Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001.

GUARDINI, Romano. O Fim da Idade Moderna. Tradução de Luís de Barros. Lisboa: Edições 70, 2018.

LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. Tradução de Martins Fontes. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

PIEPER, Josef. Lazer, o fundamento da cultura. Tradução de Luiz Jean Lauand. São Paulo: É Realizações, 2011.

SÃO VÍTOR, Hugo de. Didascalicon: da arte de ler. Tradução de Antonio Marchionni. Petrópolis: Vozes, 2001.

Clodomar Rodrigues - Coronel da Policia Militar do Estado de Rondonia

Comandante Regional de Policiamento II


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