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FALA CORONEL: A Nação Inacabada. Como a morte da Educação Integral Armou o Brasil”

O Sistema: Como o Corrupto Alimenta o Crime que o Protege

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O que isso tem a ver com educação?

Se os dois capítulos anteriores nos apresentaram as duas extremidades da nossa degradação — de um lado, a inteligência técnica desalmada do colarinho branco; de outro, a força bruta irracional do faccionado —, ambas as situações analisadas sob a perspectiva da degradação da educação em nosso país, este décimo segundo artigo revela a engrenagem que as une. Não estamos diante de dois fenômenos isolados ou concorrentes, mas de um único ecossistema simbiótico, a barbárie da rua e a sofisticação do gabinete acarpetado são faces da mesma moeda. É o Sistema: uma teia institucional onde o dinheiro desviado pela alta corrupção financia e protege o crime organizado, enquanto a desordem urbana serve de cortina de fumaça e instrumento de controle social para os donos do poder.

A realidade brasileira recente oferece ilustrações pedagógicas cruas dessa simbiose. As sucessivas investigações que expõem a promiscuidade entre agentes públicos, parlamentares e estruturas do crime organizado — como as teias de infiltração de organizações criminosas em contratos estatais, transportes públicos e licitações municipais —, somadas aos escândalos do setor financeiro, a exemplo das graves apurações e fraudes operacionais envolvendo o Banco Master, revelam um padrão. O capital oriundo da fraude corporativa e da corrupção política precisa ser lavado e multiplicado; o crime de fuzil precisa de liquidez, blindagem jurídica e acesso aos corredores decisórios. No centro dessa engrenagem, o sistema financeiro e a máquina estatal deixam de servir ao Bem Comum para se tornarem instrumentos de pilhagem organizada.

Como nos lembra Richard Weaver em As Ideias Têm Consequências, quando a sociedade abandona a crença em uma Ordem Transcendente e em verdades morais objetivas, a política e a economia reduzem-se à mera disputa pelo poder e pela pilhagem de recursos. O escândalo financeiro e a infiltração narco estatal não são acidentes de percurso ou falhas pontuais de fiscalização; são o resultado inevitável de um arranjo onde a astúcia técnica substituiu a virtude, e onde a impunidade do topo valida e alimenta a selvageria da base.

A Alquimia da Impunidade: A Finança sem Alma e a Política Corrompida

A história do pensamento católico medieval sempre olhou com profunda severidade para as manobras financeiras desvinculadas da produção real e do bem-estar comunitário. Santo Tomás de Aquino, ao tratar da justiça distributiva e comutativa na Suma Teológica, advertia que a usura e a manipulação gananciosa do dinheiro alheio constituem uma perversão da própria natureza da troca, transformando o meio (o dinheiro) no fim absoluto da existência humana. Quando o setor financeiro se desconecta da moralidade e passa a operar em consórcio com influências políticas, o resultado é a criação de bolhas de prosperidade artificial sustentadas pela fraude, onde, somente os “amigos do rei”, prosperam de fato.

Nos casos em que instituições financeiras — como o citado Banco Master em suas operações sob suspeita de manipulação de ativos e captação agressiva — se veem enredadas em investigações sobre rombos, lavagem de dinheiro ou facilitação de esquemas obscuros, o mecanismo subjacente é o mesmo do corrupto de colarinho branco: a aplicação da inteligência instrumental (astutia) sem a mediação da prudência e da justiça. O burocrata das finanças e o político influente utilizam meandros jurídicos e engenharia contábil sofisticada para ocultar a origem ilícita de capitais, criando uma blindagem que o criminoso comum das periferias jamais conseguiria estruturar sozinho.

A grave consequência social desse arranjo é a contaminação de todo o tecido econômico. O capital podre, oriundo da propina pública ou do narcotráfico, é injetado no sistema legal, distorcendo mercados, quebrando concorrentes honestos e comprando decisões institucionais. O que os antigos mestres medievais chamavam de “bonum commune” (o Bem Comum) é estraçalhado pelo desatrelamento entre a lei positiva e a Lei Moral divina. Quando a norma jurídica é aparelhada para proteger o operador financeiro e o parlamentar corrupto, a legalidade transforma-se no mais eficiente escudo da imoralidade.

O Pacto de Vasconcellos: A Relação entre o Corruptos e Faccionados

Existe uma divisão de trabalho perfeita dentro do Sistema, o corrupto encastelado na burocracia estatal necessita da violência do faccionado para manter o território em permanente estado de exceção e terror, a insegurança é um dos fatores que mais afetam a população de uma nação, interfere diretamente no desenvolvimento econômico, afastando novos investidores de determinadas regiões, servindo a manutenção de uma população atemorizada e dependente do assistencialismo. Por outro lado, o líder faccionado necessita da caneta do político e da conta bancária operada pelo operador financeiro para lavar os lucros da droga e garantir a sua libertação quando o braço ostensivo da lei o alcança.

Esse pacto sombrio reconfigura a própria estrutura do Estado, não estamos mais lidando com o banditismo tradicional que combate o Estado por fora, mas com o Narcoestado ou o Estado Cleptocrático, onde as fronteiras entre o ente público e a organização criminosa foram erradicadas. Hannah Arendt, em suas reflexões sobre a degradação das instituições, notava que o ponto crítico da erosão social ocorre quando a ilegalidade se torna a regra de funcionamento interno do próprio sistema que deveria combatê-la.

A impunidade concedida aos arquitetos dos grandes escândalos financeiros e políticos envia um sinal pedagógico devastador para toda a nação, o jovem da periferia, ao testemunhar banqueiros, operadores e políticos envolvidos em fraudes bilionárias caminhando livres por meio de brechas processuais, conclui que o único erro do crime é praticá-lo em pequena escala. O descalabro ético do topo da pirâmide é o combustível moral que autoriza a violência na base, se a lei é uma ficção manipulável para os poderosos, a força bruta passa a ser a única lei respeitada nas ruas.

A Infiltração das Instituições e o Desarmamento Moral

A tragédia do Sistema brasileiro reside no fato de que ele cooptou os mecanismos que deveriam reprimir a transgressão, quando escândalos revelam conexões entre agentes dos três poderes e figuras do crime organizado, percebe-se que a falência não é operacional, mas metafísica. A perda do temor a Deus e a rejeição de julgamentos morais absolutos produziram uma elite dirigente incapaz de sentir vergonha ou remorso. É o triunfo daquilo que C.S. Lewis denominou a consolidação de "Homens sem Peito": líderes educados no mais refinado pragmatismo técnico, mas cujo caráter moral permanece atrofiado e surdo aos apelos da justiça.

As universidades e academias de direito, moldadas pelo positivismo jurídico e pelo relativismo moral, ensinaram gerações de juristas e gestores que o direito é meramente o que a autoridade do momento decide que ele é. Destituído da âncora da Lei Natural — formulada com mestria por Santo Tomás de Aquino como a participação da Lei Eterna na criatura racional —, o ordenamento jurídico torna-se um joguete de interpretações casuísticas, centenas de milhares de parágrafos, com uma “brecha” a cada ponto ou virgula. O mesmo texto legal que deveria punir o corrupto é manipulado para anular provas, procrastinar julgamentos e perpetuar a impunidade dos grandes esquemas.

Como é possível que assistir a presídios lotados comemorando a vitória de determinado candidato, ou mesmo a pressão realizada por criminosos em áreas de domínio do crime, onde somente um pode ser o político à realizar campanha e a ser votado, não desperte o cidadão deste pesadelo que estamos vivendo. A verdade é que a população, desarmada moralmente por décadas de pedagogia relativista, assiste a esse espetáculo de cinismo com uma mistura de apatia e desespero, sem o referencial do Transcendente, o cidadão comum perde a capacidade de se indignar eficazmente, passando a encarar a corrupção e a violência como dados incontornáveis da paisagem nacional. O Sistema nutre-se precisamente dessa resignação: ele prospera quando a sociedade civil abdica de julgar os atos políticos sob o prisma da Verdade e da Moral Objetiva.

O Resgate da Ordem: A Contrarrevolução Pedagógica e Moral

A desarticulação desse engrenagem infernal que une o escândalo financeiro, o gabinete político e a facção criminosa não virá de novas reformas institucionais desenhadas pelos próprios beneficiários do caos. A solução definitiva exige uma reconstrução de baixo para cima, fundamentada no resgate dos pilares da Educação Cristã Clássica e da restauração do sentido de justiça e autoridade. Pensadores da tradição medieval, como Hugo de São Vítor em seu Didascalicon, nos lembram que a sabedoria humana só atinge sua plenitude quando orientada para a restauração da ordem interior e para o cumprimento do dever perante o Criador.

É preciso restabelecer, no ensino (escolas e família) e na cultura, o primado da Verdade e da Virtude sobre a mera eficiência técnica, formar advogados, economistas e gestores públicos instruídos em finanças ou direito, mas analfabetos morais, é continuar a abastecer o Sistema com operadores mais eficientes da pilhagem nacional. A educação precisa voltar a ensinar as Virtudes Cardeais — Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança — como exigências absolutas para o exercício de qualquer função pública ou empresarial. O homem forjado sob estes princípios certamente será capaz de levantar famílias estabilizadas moralmente, empresas fundamentadas no bem comum, profissionais liberais, funcionários públicos e políticos capazes de renunciar ao ganho financeiro se contrariar seus princípios de moralidade, construindo assim uma sociedade onde o mal volte a ser a exceção.

A restauração da pátria exige coragem para denunciar a falsa neutralidade do estado laicista que baniu Deus das praças públicas para colocar no seu lugar a adoração ao dinheiro e ao poder. Somente uma geração de brasileiros reeducada dentro da visão clássica da educação (moral, espiritual e intelectual), que compreenda que a justiça terrena é um reflexo da Justiça Divina e que as ações humanas carregam consequências eternas — quae seminaverit homo, haec et metet ("o que o homem semear, isso também colherá") —, terá a força moral necessária para quebrar o pacto de impunidade e devolver a dignidade à Nação Inacabada.

Referências Bibliográficas (ABNT)

AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica. II-II, Questão 78 (Sobre o pecado da usura) e Questão 58 (Sobre a justiça). Tradução de Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. Tradução de Martins Fontes. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

SÃO VÍTOR, Hugo de. Didascalicon: da arte de ler. Tradução de Antonio Marchionni. Petrópolis: Vozes, 2001.

WEAVER, Richard M. As Ideias Têm Consequências. Tradução de Mário de Lacerda. São Paulo: É Realizações, 2012.





Clodomar Rodrigues - Coronel da Policia Militar do Estado de Rondonia

Comandante Regional de Policiamento II


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