
Independentemente de quem vencer a eleição presidencial de 2026, a agenda do próximo governo estará dominada já em janeiro pela urgência de equilibrar as contas públicas. Crescimento acelerado de despesas obrigatórias, endividamento em alta e pesados juros criaram o principal desafio do futuro mandato.
Os sinais de alerta já aparecem com investidores do mercado financeiro cobrando remunerações mais elevadas para financiar o Tesouro, o que aumenta as taxas dos títulos públicos de longo prazo. Com isso, cresce a preocupação com a capacidade do governo de estabilizar a dívida nos próximos anos.
Projeções divulgadas pelo Ministério do Planejamento ainda em 2025 apontaram risco de faltar recursos no Orçamento para custear o governo a partir de 2027. O cenário reforçou a percepção de que o presidente eleito herdará equação difícil, que exigirá confrontar as promessas de campanha com a realidade.
Campanha de Flávio Bolsonaro alerta para o risco de um descalabro fiscal
Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sustente que o país vive um ciclo de crescimento com inclusão social e defenda que “o povo pobre cabe no Orçamento”, a oposição denuncia o perigo da deterioração fiscal. Seu rival na disputa eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), promete dura contenção de gastos se assumir o comando do Palácio do Planalto.
Nos últimos anos, as despesas da União cresceram em ritmo superior ao de sua receita, após sucessivos recordes de arrecadação. Previdência, folha de pagamentos, benefícios sociais e vinculações constitucionais consumem parcela crescente do Orçamento, o que reduz a margem para investimentos.
O resultado é um círculo vicioso. Gastos elevados alimentam dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas, pressionam a inflação e dificultam a redução dos juros. Com taxas altas, sobe o custo de financiamento da dívida, amplia-se a despesa financeira da União e comprime-se o espaço fiscal.
TCU aponta descumprimento de regras da legislação fiscal pelo governo
O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou ao menos 10 medidas do governo em 2025 que descumpriram exigências previstas na lei fiscal. Segundo o parecer da Corte, despesas obrigatórias, renúncias de receitas e programas oficiais foram adotados sem estimativas e compensações.
O relator das contas presidenciais, ministro Benjamin Zymler, alertou para mecanismos que deslocam despesas para estruturas paralelas. Embora tenha recomendado a aprovação das contas com ressalvas, o TCU reforçou questionamentos sobre transparência e sustentabilidade da política fiscal.
Também preocupa especialistas o crescimento de programas de crédito subsidiado, fundos garantidores e operações apoiadas por bancos públicos. Embora nem sempre apareçam integralmente nos indicadores fiscais, essas iniciativas representam compromissos que podem recair sobre o Tesouro.
Especialistas destacam importância de o novo governo tomar medidas duras
O desafio não está só no Executivo. Projetos em tramitação no Congresso carregam alto impacto orçamentário, incluindo renegociações de dívidas, benefícios setoriais, regras previdenciárias e programas sociais. Em muitos casos, as despesas não têm indicação de fontes perenes de financiamento.
Para o empresário e conselheiro de gestão Ismar Becker, o atual modelo fiscal criou a dinâmica de crescimento automático dos gastos que tende a absorver toda arrecadação. Segundo ele, haverá um “freio de arrumação” na próxima gestão federal para encarar efeitos da “falácia do arcabouço”.
O consultor financeiro Júlio Hegedus Neto avalia que a deterioração fiscal continuará exigindo prêmios elevados para a rolagem da dívida pública. Na visão dele, o presidente eleito em 2026 terá de iniciar o mandato anunciando medidas de ajuste capazes de reverter expectativas negativas.
Por Sílvio Ribas