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Há pouca coragem em alguns seres humanos de encarar a realidade

A história nunca foi escrita pelos que fugiram da realidade. Foi construída por aqueles que tiveram a grandeza de enfrentá-la.

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A história nunca foi escrita pelos que fugiram da realidade

Vivemos uma época extraordinária. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tanto conhecimento disponível e tantos recursos para compreender o mundo. Paradoxalmente, nunca foi tão comum encontrar pessoas que preferem versões confortáveis dos fatos à realidade dos fatos.

Aristóteles ensinava que a virtude nasce do hábito de buscar a verdade. Confúcio dizia que o homem superior procura a causa dos problemas em si mesmo, enquanto o homem comum procura culpados ao seu redor. Mais de dois mil anos depois, parece que essa lição continua atual.

Há uma crescente dificuldade em suportar a realidade contemporânea. A realidade exige responsabilidade. Ela cobra consequências. Ela não negocia com nossos desejos. E justamente por isso muitos preferem narrativas cuidadosamente construídas para anestesiar a consciência. Não porque sejam verdadeiras, mas porque são emocionalmente mais confortáveis.

Sêneca advertia que sofremos mais na imaginação do que na realidade. Hoje, em muitos casos, acontece algo diferente: algumas pessoas deixam de viver na realidade para habitar permanentemente a imaginação. Criam versões dos fatos que aliviam a culpa, suavizam os erros e transformam responsabilidades em circunstâncias.

O problema é que a realidade não desaparece porque alguém resolveu relativizá-la. Ela apenas espera. Mais cedo ou mais tarde, apresenta a conta.

Platão, em sua famosa alegoria da caverna, descreveu homens que preferiam as sombras à luz porque as sombras lhes eram familiares. Talvez essa metáfora nunca tenha sido tão atual. Vivemos cercados por opiniões instantâneas, versões convenientes e certezas fabricadas. Muitos já não perguntam o que é verdadeiro. Perguntam apenas o que confirma aquilo que desejam acreditar.

Séculos depois, Santo Agostinho lembraria que a verdade não muda porque alguém deixa de reconhecê-la. E Tomás de Aquino afirmaria que a inteligência humana alcança sua plenitude quando se conforma à realidade, não quando tenta moldá-la aos próprios interesses.

Na modernidade, Immanuel Kant fez um convite simples e revolucionário: ouse saber. Tenha coragem de usar o próprio entendimento. Não entregue sua consciência ao modismo, ao grupo ou ao aplauso fácil. Essa coragem intelectual parece cada vez mais rara.

Nietzsche observava que, às vezes, o ser humano prefere a ilusão porque ela exige menos esforço do que enfrentar a verdade. Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração, mostrou que mesmo nas circunstâncias mais duras a dignidade nasce quando escolhemos encarar a realidade sem abandonar o sentido da vida.

Não se trata de pessimismo. Muito pelo contrário. O progresso humano sempre começou quando alguém teve coragem de olhar os fatos como eles realmente eram. Nenhuma ciência nasceu da fantasia. Nenhuma grande civilização prosperou negando a realidade. Nenhuma transformação duradoura aconteceu baseada em autoengano.

Precisamos recuperar uma virtude que parece fora de moda: a maturidade intelectual. Maturidade é reconhecer que nem toda crítica é perseguição, que nem toda frustração é injustiça e que nem todo desconforto é violência. Crescer exige confronto com a verdade.

A realidade pode ser dura, mas ela continua sendo o único terreno sólido sobre o qual é possível construir uma sociedade justa, famílias fortes, instituições confiáveis e indivíduos livres.

Como dizia Marco Aurélio, "a alma adquire a cor dos seus pensamentos". Que nossos pensamentos tenham a coragem da verdade e não o conforto das ilusões.

Porque a história nunca foi escrita pelos que fugiram da realidade. Foi construída por aqueles que tiveram a grandeza de enfrentá-la.


Nelson Salles

Redação do site O Minuto Notícia – Informação é Poder!


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