A experiência teatral se dá numa sala de espetáculos, de pequeno, médio ou grande porte. Ali, os atores estão numa caixa que inclui palco, coxias e a teia (onde estão refletores e o maquinário cênico). Nesta caixa as pessoas (os artistas, no caso) não ficam nunca “iguaizinhas”.
A formatação ali é diferente da de Little Boxes, canção de Malvina Reynolds (1900-1978) cuja versão, a cargo de Sidney Miller (1945-1980), foi gravada por Nara Leão (1942-1989) como uma crítica à normatividade que pautava a mentalidade da elite e de parte da sociedade brasileira nos anos 1960. Nara mostrava que a ascensão social era possível sem a obrigatoriedade de um caminho acadêmico.
Não por acaso, a canção foi escolhida para abrir “Os olhos de Nara Leão”, solo no qual Zezé Polessa interpreta, a partir do texto e da direção de Miguel Falabella, a cantora que mudou padrões, quebraria paradigmas e que, a partir do ecletismo do seu gosto musical, ajudaria a instaurar, a partir do LP Nara (1964), o que ficaria conhecida como a Música Popular Brasileira (MPB).
Já nas primeiras falas do texto, Zezé quebra a quarta parede para deixar claro que está ali numa caixa. E ela acerta em cheio ao não seguir uma tendência comum em musicais biográficos que é a de imitar o personagem biografado. A cantriz está ali para homenagear uma mulher que, através do seu canto livre, provocou revoluções estéticas, éticas, comportamentais e de pensamento no país onde viveu.
E, sob essa diretriz, o espetáculo voltou ao Rio de Janeiro, desta vez ao Teatro Clara Nunes (outra cantora de responsa). E, ali, na noite da última sexta-feira (06), as opiniões da cantora foram ouvidas por uma plateia que mesclava nomes que revolucionaram a cena artística nos anos 1960, como Betty Faria e Antonio Pitanga, a talentos da nova cena, como Alexandre Nero e Bruno Garcia, passando, é claro, por companheiros de geração (e de revolução) de Zezé e Falabella como Diogo Vilella e Cininha de Paula, reunidos ali pela dupla de empresários e promoters Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho.
Zezé não emula Nara em momento algum. Ela a personifica usando das mesmas candura, destreza e da perseverança que marcaram a artista na qual Nara se tornaria. O recorte temporal escolhido pelo autor abarca a infância da personagem – que, aos 12 anos, já dedilhava seu violão – culminando na sua volta ao país nos anos 1970, após o exílio vivido por ela e por seu então marido, o cineasta Cacá Diegues (1940-2025), na França.
O cerne do espetáculo está nas revoluções provocadas por Nara nos anos 1960 e, não por acaso, quatro números do histórico show “Opinião” estão no roteiro: a mítica “Carcará”, de João do Vale (1934-1996), e três sambas de Zé Keti (1921-1999): “Acender as velas”, “Opinião” e “Diz que fui por aí”, que, aliás, arremata a apresentação num resultado comovente.
E certamente está aí uma escolha estética assertiva da dupla Zezé-Falabella. Encenado originalmente em 2025, a montagem viajou o país e, mais recentemente, cumpriu temporada em São Paulo e volta agora ao Rio de Janeiro com uma nova proposta. O tom do espetáculo mudou. Está, sobretudo, mais intimista, num clima que remete aos das apresentações musicais dos anos 1960, feitas muitas vezes em boates ou em locais como os lendários Zicartola ou o próprio Teatro Opinião.
E, a partir disso, destacam-se as muitas nuances presentes na interpretação de Zezé, uma atriz capaz de transitar com maestria entre o humor e a dramaticidade. E é realçado também o texto elaborado por Falabella. O autor está, aliás, num momento de plenitude uma vez que outra de sua lavra recente, “A sabedoria dos pais”, tem sua carpintaria muito bem construída.
Nara Leão está viva. Zezé Polessa e Miguel Falabella são os responsáveis por este milagre. E ele é possível graças ao conluio entre fé e inteligência cênicas. E um instrumento é crucial para tanto: uma certa caixa, a teatral. E, quando a experiência teatral se dá na sua plenitude, as pessoas não saem do teatro iguaizinhas.
Créditos: Christovam de Chevalier (Texto) e Eny Miranda (imagens)