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Inteligência sem Virtude: O erro moderno de educar a mente, e esquecer o caráter.

Estamos no tempo da idolatria dos títulos, em que supomos que um título de mestrado ou doutorado, especializações e certificados diversos blindam o indivíduo contra a sordidez.

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Inteligência sem Virtude: O erro moderno de educar a mente, e esquecer o caráter.

Nos artigos anteriores, apresentamos uma reflexão sobre a fragmentação do saber e o relativismo que assola a educação em nosso país, uma crise sem precedentes. Agora, abordaremos o cerne do "mecanismo de falha" do homem brasileiro contemporâneo: a crença mítica de que um diploma é prova de idoneidade moral e caráter. Estamos no tempo da idolatria dos títulos, em que supomos que um título de mestrado ou doutorado, especializações e certificados diversos blindam o indivíduo contra a sordidez. O resultado desse processo é um povo governado por homens de mentes desenvolvidas intelectualmente, mas com almas incapazes da contemplação do bom, do belo e do verdadeiro, gerando sua cegueira moral. Bem resume o assunto o ditado escolástico que afirma: “Scientia semita est ad virtutem, mas non est a virtus ipsa” (A ciência é o caminho para a virtude, mas não é a virtude em si).

A Distinção Tomista: Por que saber o Bem não é o mesmo que ser Bom

Para a tradição clássica da educação, alicerçada no pensamento de Santo Tomás de Aquino, havia uma distinção que não era mero preciosismo conceitual, mas um verdadeiro divisor de águas: de um lado, as virtudes intelectuais; de outro, as virtudes morais. O chamado Doutor Angélico, na sua monumental Suma Teológica, sustentava que qualidades como sabedoria, ciência e arte aperfeiçoam a capacidade de fazer — de executar com excelência uma tarefa técnica —, mas não garantem, por si sós, a retidão de quem faz. Em termos bem diretos: alguém pode ser brilhante no bisturi e miserável no caráter; pode dominar a hermenêutica com maestria e, ainda assim, curvar-se servilmente à própria cobiça.

Aquino insistia que o hábito intelectual não torna o homem bom em sentido pleno. E aqui está o ponto nevrálgico: o intelecto ocupa-se do conhecer; a vontade, do agir. São esferas distintas, embora chamadas a cooperar. O drama contemporâneo é que nossa educação resolveu apostar todas as fichas na primeira e quase nenhuma na segunda. Cultivamos cérebros afiados, mas deixamos à míngua a formação da vontade. O resultado não exige grande esforço para ser constatado: homens que sabem de cor o ordenamento jurídico, mas não encontram dentro de si a fibra moral para obedecê-lo. Possuem uma prudentia instrumental — sabem exatamente como agir para maximizar ganhos —, mas carecem daquela prudentia moral que orienta a ação para o Bem, e não apenas para a vantagem.

É nesse vácuo que floresce a figura do “corrupto técnico”. Ele não tropeça por ignorância; tropeça por escolha. Sua falha não é déficit cognitivo, mas excesso de astúcia mal direcionada. Usa a inteligência como cortina de fumaça, elabora contratos labirínticos, cria camadas e mais camadas de formalidade para esconder desvios que só outro especialista, igualmente sofisticado, conseguiria rastrear. À luz da tradição católica, trata-se de uma forma refinada de soberba intelectual: o saber que se curva sobre si mesmo, que já não reconhece limites nem se submete a uma ordem moral superior. Sem caridade e justiça como guias, o intelecto corre o risco de converter-se naquilo que a tradição cristã simboliza na figura de Lúcifer: luz intensa, mas desligada do amor e da obediência à ordem do ser.

No contexto brasileiro, a tragédia assume contornos quase caricatos. Transformamos universidades em verdadeiras usinas de “intellectus”, enquanto esvaziamos o espaço da “virtus”. Depositamos uma fé quase mágica no acúmulo de informações, como se certificados e publicações fossem, por osmose, produzir cidadãos éticos. Esquecemos — e aqui reside uma miopia pedagógica grave — que caráter não se constrói a partir de slides memorizados, mas de hábitos reiterados, exemplos concretos e escolhas reiteradas no cotidiano. O próprio Santo Tomás de Aquino advertia que o vício em um homem inteligente é incomparavelmente mais perigoso do que no homem simples, porque a inteligência fornece instrumentos mais eficazes para a prática do mal. “Corruptio optimi pessima”: a corrupção do melhor é a pior de todas.

Diante disso, é ilusório imaginar que a segurança pública — ou qualquer outro desafio estrutural — será solucionada apenas por gestores tecnicamente impecáveis, se lhes faltar, antes de tudo, densidade moral. Enquanto confundirmos educação com mera instrução mental, continuaremos a colher frutos amargos: cargos elevados ocupados por indivíduos que ostentam currículos extensos e métricas acadêmicas impressionantes, mas revelam uma estatura ética diminuta. Uma mente poderosa, desacompanhada do freio do caráter, assemelha-se a um motor de alta potência instalado em um veículo sem freios: quanto maior a velocidade, mais devastador será o impacto.

O Peito Vazio: A Anatomia de C.S. Lewis na Crise Brasileira

Em sua obra de fôlego quase profético, A Abolição do Homem, C.S. Lewis lança um diagnóstico que soa desconfortavelmente atual: estamos formando “homens sem peito”. Para explicar essa deformação, ele recorre a uma metáfora simples e, ao mesmo tempo, poderosa: a Cabeça (o intelecto), a Barriga (os instintos, os apetites) e o Peito (o sentimento moral, a virtude). O Peito é o eixo de equilíbrio — é ali que habita a coragem moral, o senso de honra, a disposição interior que permite à razão governar os impulsos. Quando esse centro mediador se enfraquece, o resultado é um animal racional sofisticado, capaz de usar a lógica não para ordenar a vida, mas para racionalizar seus próprios desejos.

Lewis sintetiza essa tragédia com palavras que continuam a ecoar: "Em uma espécie de simplicidade medonha, removemos o órgão e exigimos a função. Fazemos homens sem peito e esperamos deles virtude e empreendimento. Rimos da honra e ficamos chocados quando encontramos traidores em nosso meio." Em outras palavras, desmontamos a engrenagem moral e nos surpreendemos quando a máquina social começa a ranger.

No cenário brasileiro, o “homem sem peito” deixou de ser exceção e tornou-se tipo recorrente. Trata-se daquele sujeito que sabe — intelectualmente sabe — que o suborno é errado. A Cabeça compreende a norma, domina o discurso ético, talvez até cite artigos de lei. Mas a Barriga, inflamada pela ganância ou pela ânsia de ascensão, fala mais alto. E como lhe falta o Peito — essa virtude interior que faria a desonestidade causar repulsa, quase um mal-estar físico — ele cede com uma facilidade constrangedora. A pedagogia contemporânea, ao reduzir valores a meras construções subjetivas e ao exaltar um pragmatismo quase cínico, acabou por atrofiar essa instância moral. Formamos jovens aptos a desconstruir tudo, a criticar todos, mas raramente os ensinamos a não trair um amigo quando isso lhes custa vantagem, ou a não tocar no que é público como se fosse extensão do próprio bolso, ou mesmo a não se deixar escravizar por seus impulsos sexuais.

Essa atrofia do Peito ajuda a compreender os desvios de conduta que nos rodeiam, desde os mais simples até aqueles que nos deixam perplexos: a começar pela vaga do deficiente, ocupada sem nenhuma culpa, apenas para deixar de caminhar vinte metros a mais, passando escândalos financeiros protagonizados por mentes brilhantes do mercado, crimes de pedofilia cometidos por médicos de reputação ilibada, vendas de sentenças no mais alto escalão do judiciário, até os bilhões de reais de verbas públicas fruto de corrupção. O intelecto desses indivíduos é afiado como lâmina cirúrgica, mas, sem o mediador moral, tornam-se frágeis diante dos próprios apetites. São, na expressão de Lewis, intelectualistas brutais — cérebros treinados, mas personalidades desintegradas. Falta-lhes aquilo que os gregos chamavam de areté: não mera competência, mas excelência integral, harmonia entre razão, desejo e ação.

As repercussões disso na segurança pública são evidentes e corrosivas. A confiança social se esfarela. Desconfiamos do policial porque ele pode dominar técnicas de segurança, mas ser árido em caráter. Desconfiamos do político porque sua habilidade estratégica parece servir apenas à autopreservação. Desconfiamos das decisões judiciais, por observar que o interesse financeiro parece ditar as leis. O crime organizado, aliás, compreende essa lacuna com perspicácia: recruta jovens inteligentes, oferece-lhes status e sensação de poder, e substitui a honra verdadeira por uma caricatura de lealdade, quase uma ética paralela que preenche o vazio deixado pela formação moral ausente.

Resgatar o Peito não é tarefa simples nem rápida. Exige uma educação que vá além da transmissão de conteúdos e se disponha a formar afetos e fortalecer a vontade. Implica revisitar as vidas de santos e heróis — não como narrativas ingênuas para entretenimento, mas como arquétipos concretos de como a dimensão moral deve operar no ser humano. Supõe uma pedagogia que ensine, sem rodeios, que a honra pode valer mais que a própria sobrevivência biológica e que a integridade é o único título que não se compra nem se falsifica. Enquanto não reconstruirmos esse centro moral, continuaremos a ostentar diplomas e títulos, mas a agir como bárbaros ilustrados, numa sociedade em que a lei mais obedecida segue sendo, tristemente, a da vantagem pessoal.

O Criminoso Brilhante e a Corrupção dos Doutores

O cotidiano brasileiro nos esfrega no rosto, sem pedir licença, o escândalo da inteligência pervertida. É como se a realidade nos obrigasse a encarar, dia após dia, um espetáculo indigesto: doleiros que manejam a matemática financeira com a destreza de um catedrático, programando algoritmos sofisticados para lavar dinheiro manchado de sangue; médicos investidos de autoridade técnica quase sacralizada que, à sombra do jaleco, violentam seus pacientes fragilizados; juristas capazes de erguer verdadeiros palácios de retórica para assegurar a liberdade de criminosos que jamais deveriam voltar às ruas. O que há de comum entre eles? Não é a ignorância — ao contrário. É a combinação inquietante de uma mente lapidada com um caráter em frangalhos.

Estamos diante do delito da “elite” — esse crime de gabinete que sustenta, em silêncio, a engrenagem da desordem nacional. Se o crime de chinelo é ruidoso, quase didático na sua brutalidade, o crime de gravata opera em surdina, com método e estratégia. O delinquente brilhante não se percebe como vilão; ele se imagina acima da moral ordinária. Padece daquilo que os gregos antigos chamavam de hybris: a desmedida arrogância de quem ousa afrontar a ordem das coisas. Para ele, a virtude é coisa de ingênuo; inteligência, por sua vez, converte-se em salvo-conduto para dominar, manipular, lucrar.

Já advertia Santo Agostinho que a inteligência divorciada de Deus — ou, se quisermos em termos filosóficos, da Verdade moral objetiva — degenera em caricatura demoníaca. “Sapientia mundi huius stultitia est apud Deum.” Quando o saber se descola de sua finalidade última — servir ao bem, promover a justiça — ele se transmuta em instrumento de opressão. O doutor corrupto, nesse sentido, é socialmente mais corrosivo que o assaltante de esquina: este ameaça indivíduos; aquele corrói a confiança coletiva, a fé pública que sustenta as instituições. E, quando a confiança rui, o tecido social começa a se desfazer ponto por ponto.

Pense-se, por exemplo, nos esquemas de fraude em licitações de merenda escolar ou na compra de medicamentos. O cérebro por trás da engrenagem ilícita raramente é um ignorante. Em geral, trata-se de alguém diplomado, bem-apessoado, reputado “cidadão de bem” nos círculos técnicos. Ele não enxerga crianças famintas nem pacientes à espera de remédio; enxerga planilhas, percentuais, “ajustes” orçamentários. Seu intelecto compartimentado opera como se vidas humanas fossem meras variáveis contábeis. Perdeu — talvez nunca tenha adquirido — a capacidade contemplativa de perceber a realidade concreta por trás dos números. Eis o fruto maduro da pedagogia utilitarista: eficiência sem consciência, discrição sem honra, competência sem bússola moral.

É evidente que o enfrentamento penal é indispensável. Sem sanção, a norma vira sugestão. Contudo, apostar apenas no endurecimento das penas é tratar o sintoma e ignorar a patologia. O que se impõe é algo mais profundo: uma verdadeira revolução da honra. A sociedade precisa reaprender a desprezar o corrupto — não importa o quão eloquente, culto ou tecnicamente brilhante ele seja. A inteligência deve voltar a ser compreendida como encargo, não como privilégio; como responsabilidade acrescida, não como trunfo de poder.

A tradição escolástica insistia que a quem muito foi dado, muito será exigido. Tal princípio não é retórica piedosa, mas regra de justiça. No Brasil contemporâneo, porém, assiste-se a uma distorção quase irônica: aqueles que receberam mais talentos são, não raro, os que melhor sabem ocultar as próprias contas. Enquanto não restabelecermos o vínculo intrínseco entre saber e virtude, continuaremos a formar mentes brilhantes que iluminam apenas o caminho da própria impunidade.

A Coragem Moral como Remédio: A Virtude Heroica do Cotidiano

Se a coragem física consiste em suportar a dor e avançar apesar dela, a coragem moral é de outra ordem: é a disposição de arcar com o peso da desaprovação, do isolamento, da perda material ou do rebaixamento social em nome da Verdade. É aquela firmeza interior que impede o sujeito de se dobrar quando todos ao redor já se acomodaram. Trata-se, em larga medida, de uma virtude eclipsada no imaginário contemporâneo. Na arquitetura das virtudes descrita por Santo Tomás de Aquino, ela recebe o nome de Fortitudo — Fortaleza. Não é bravata, nem temperamento explosivo; é constância da vontade diante da pressão. É o que sustenta alguém para não ceder nem ao “jeitinho” trivial do cotidiano, nem às engrenagens mais sofisticadas da corrupção institucional.

A ausência dessa fortaleza explica muito do nosso silêncio coletivo. Falta-a ao cidadão que presencia a injustiça, mas prefere “não se meter”. Falta-a ao servidor público que identifica a irregularidade e, para preservar a estabilidade do contracheque, decide “seguir o fluxo”. Sem Fortaleza, a inteligência — por mais refinada que seja — torna-se pusilânime. O homem instruído de hoje, não raramente, sabe distinguir o certo do errado; o que lhe falta é fôlego moral para sustentar sua posição quando ela se torna impopular. A antiga máxima latina resume bem: virtus est in arduo. A virtude não floresce no terreno confortável; ela se prova no terreno íngreme.

A coragem moral brota da convicção de que há bens superiores ao conforto pessoal. Para o cristão, esse bem supremo se identifica com a salvação da alma e a glória de Deus; para o cidadão moldado pela tradição clássica, era a honra e o bem da pátria. Ocorre que a pedagogia dominante deslocou esses referenciais e os substituiu por um único critério: sucesso. E sucesso, em nossa gramática cultural, mede-se por métricas materiais — renda, status, visibilidade. Nesse contexto, a coragem moral passa a parecer um luxo imprudente. Afinal, por que insistir na retidão, se a esperteza rende dividendos mais rápidos?

A restauração da segurança pública — e, em sentido mais amplo, da saúde moral do país — exige uma geração disposta a pagar o preço da coerência. Policiais que rejeitam o “arrego” mesmo sob risco; magistrados que não se deixam enredar por pressões políticas; cidadãos que preferem arcar com a multa a oferecer o suborno. Esse perfil não se forma com treinamentos protocolares de compliance ou cartilhas motivacionais. Forma-se com a recuperação da dignidade da pessoa humana como eixo da vida social. Como advertia Georges Bernanos, a grande tragédia não é a pobreza material, mas a solidão de quem não tem coragem de ser fiel à própria consciência. E, numa nação ainda por consolidar-se, ser fiel a si mesmo significa, muitas vezes, aceitar o ônus de ser virtuoso quando o vício é a norma.

Daí a necessidade de uma autêntica metanoia, uma conversão da inteligência e da vontade. Não basta qualificar para o mercado; é preciso formar para a responsabilidade histórica — e, para quem crê, para a eternidade. O país não carece de cérebros brilhantes; carece de consciências íntegras. A inteligência desacompanhada de virtude apenas aperfeiçoa os mecanismos do mal. Já a virtude, mesmo quando associada a uma inteligência simples, possui força suficiente para lançar os alicerces de uma nação verdadeiramente justa.

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Referências Bibliográficas (ABNT)

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Lorenzo de Castro. São Paulo: Paulus, 2006.

AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica. I-II, Questões 55-67 (Das Virtudes). Tradução de Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001.

BERNANOS, Georges. Diário de um pároco de aldeia. Tradução de Jorge de Sena. São Paulo: É Realizações, 2011.

LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. Tradução de Martins Fontes. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

PIEPER, Josef. As Virtudes Cardeais. Tradução de Alice de Oliveira. Lisboa: Aster, 1960.

WEAVER, Richard M. As Ideias Têm Consequências. Tradução de Guilherme Ferreira Araújo. 4. ed. São Paulo: É Realizações, 2012.

Clodomar Rodrigues - Coronel da Policia Militar do Estado de Rondonia

Comandante Regional de Policiam