A depressão é um dos maiores desafios de saúde mental do mundo, afetando pessoas de todas as idades e realidades sociais. Além de reduzir de forma significativa a qualidade de vida, a doença compromete a produtividade e tem impacto direto na economia global.
Diante da alta prevalência e do risco associado à gravidade da doença, diferentes abordagens de tratamento vêm sendo estudadas. Uma delas é o uso da ketamina (também chamada de cetamina) em ambiente clínico controlado.
O medicamento pode ter indicação para pacientes com risco de suicídio ou que não respondem a pelo menos dois antidepressivos de classes distintas, quadro conhecido como depressão resistente. Mas médicos alertam que a ketamina não é uma cura milagrosa e o uso só deve ser feito sob supervisão.
“A ketamina possui um mecanismo de ação único, diferente dos antidepressivos tradicionais, pois atua sobre o glutamato, neurotransmissor fundamental para o sistema nervoso central. Essa ação rápida pode oferecer uma ‘janela terapêutica’, permitindo que o paciente engaje melhor em psicoterapia e outras intervenções”, explica o psiquiatra Matheus Steglich, do grupo ViV Saúde Mental e Emocional.
O medicamento pode ser administrado por via intravenosa ou intranasal. Normalmente, os protocolos começam com duas aplicações semanais, ajustando a frequência conforme a resposta clínica. Depressão no mundo Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 332 milhões de pessoas vivem com depressão, o que corresponde a 5,7% da população adulta. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que 11,3% dos adultos tenham recebido o diagnóstico no último ano. Por aqui, a prevalência é maior entre mulheres (14,7%) do que entre homens (7,3%). Entre os sintomas mais comuns estão tristeza persistente, perda de prazer, isolamento social, sentimentos de desesperança e alterações no sono e no apetite. Quando não reconhecidos a tempo, esses sinais podem evoluir para quadros graves. Dose terapêutica x uso recreativo Apesar do histórico da ketamina como anestésico e da associação ao uso recreativo, especialistas destacam que a diferença para o uso no tratamento da saúde mental está justamente na dose e no ambiente em que a substância é utilizada.
“O uso para depressão é recente, com aprovação no Brasil e nos Estados Unidos há cerca de quatro anos. Nesse contexto, a ketamina é aplicada em doses subanestésicas, sempre sob rigorosa monitorização hospitalar. Já o uso recreativo envolve quantidades muito maiores, buscando efeitos de desconexão com o ambiente, o que aumenta bastante os riscos”, detalha Steglich.
O psiquiatra Raphael Boechat, professor da Universidade de Brasília (UnB), acrescenta que a substância tem se mostrado uma ferramenta importante para casos específicos, com indicação individualizada.
“A ketamina tem tido bons resultados porque age de forma mais rápida. Enquanto os antidepressivos convencionais levam de duas a quatro semanas para começar a fazer efeito, ela pode trazer alívio imediato para pacientes em crise. Mas é um tratamento para um perfil muito específico, não deve ser visto como solução universal”, diz o especialista. Limites e cuidados necessários Apesar da rapidez nos resultados, especialistas reforçam que a ketamina não deve ser entendida como uma cura. “A resposta ultrarrápida ocorre em poucos pacientes. Na maioria dos casos, são necessárias algumas semanas de tratamento para que o benefício seja percebido. É uma estratégia complementar, que deve andar junto de psicoterapia, atividade física, mudanças no estilo de vida e do uso de outros medicamentos”, afirma Steglich.
Entre os possíveis riscos estão alterações urinárias e cognitivas, observadas em usuários recreativos de altas doses, mas ainda não confirmadas nos protocolos médicos. Ainda assim, a recomendação é que pacientes sejam monitorados de perto.
“Queixas urinárias ou cognitivas devem ser acompanhadas em consultas regulares, podendo incluir exames quando necessário”, completa o psiquiatra. Outro ponto central é o risco do uso sem supervisão. “Fora do ambiente hospitalar, a ketamina pode causar agitação, crises hipertensivas, sedação excessiva e até óbito. Por isso, só deve ser aplicada com suporte médico e estrutura de emergência”, alerta Steglich.
Boechat reforça que a substância não deve ser romantizada. “A ketamina não é uma cura milagrosa. É mais uma ferramenta em um campo da psiquiatria que vem crescendo com outras abordagens, como técnicas de neuromodulação e novos medicamentos. O mais importante é que o paciente receba acompanhamento adequado e tratamento personalizado”, conclui.
Se você está passando por depressão, tendo pensamentos de suicídio ou conhece alguém nessa situação, procure apoio. Você pode ligar ou conversar pelo chat dos seguintes serviços: Centro de Valorização da Vida (CVV): 188 (24h, ligação gratuita e sigilosa) ou pelo site cvv.org.br; Samu: 192 em situações de emergência médica; CRAS/CRAS locais e serviços de saúde mental do SUS também oferecem suporte psicológico. Por Ravenna Alves