
Uma atriz por inteiro. A frase é perfeita quando a profissional em questão é Malu Galli. A atriz chegou a desistir de trabalhar na TV e, para nossa sorte, a reconciliação deu-se na minissérie Queridos amigos, na qual atuou “de igual para igual”, como ela conta, com colegas que já admirava. Ali, Malu conquistou o grande público. E isso era esperado, uma vez que ela tem o dom de catalisar as atenções a cada aparição. Isso ficou evidente com a Celina de Vale tudo e é corroborado em Mulher em fuga, sua nova incursão teatral.
Uma atriz por inteiro. A frase é perfeita quando a profissional em questão é Malu Galli. A atriz chegou a desistir de trabalhar na TV e, para nossa sorte, a reconciliação deu-se na minissérie “Queridos amigos”, na qual atuou “de igual para igual”, como ela conta, com colegas que já admirava. Ali, Malu conquistou o grande público. E isso era esperado, uma vez que ela tem o dom de catalisar as atenções a cada aparição. Isso ficou evidente com a Celina de “Vale tudo” e é corroborado em “Mulher em fuga”, sua nova incursão teatral. Em mais um desempenho magistral e surpreendente (ela toca bateria em cena), Malu dá vida a uma mulher que elenca relacionamentos abusivos até mudar de vida, buscando refúgio na casa do filho, alter ego do escritor Edouard Louis, de cujo livro a peça é adaptada, e interpretado por Tiago Martelli. “Vivemos num tempo em que os assassinatos das mulheres são orquestrados em série”, atesta Malu nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. A seguir, a atriz celebra sua fé na vida ao reverenciar a importância de Maria Bethânia para o Brasil, celebrar a parceria com o artista visual Afonso Tostes e o fato de a misoginia ser tipificada como crime pelo Senado. Isso tudo sem deixar de lado as batalhas, por ser mulher, artista e brasileira. “Nunca fui silenciada”, pontua ela. A sorte é dela – e nossa também.
Malu Galli, sua danada, você toca bateria em cena! Já sabia ou aprendeu agora?
Eu já havia aprendido para outra montagem, quando integrava o Tetro Autônomo. O espetáculo iria integrar uma mostra em São Paulo. Fiquei dois meses ensaiando, e a peça acabou ficando de fora, o que me deixou frustradíssima (risos). Quando ensaiamos “Mulher em fuga”, a Inez Viana (diretora da montagem) me sai com esta: “acho que ela toca bateria”… Opa, vou realizar meu sonho!, respondi. Fiz poucas aulas agora. Tocar bateria é um pouco parecido com andar de bicicleta: uma vez aprendido, você não esquece. Mas agora tenho oportunidade de mostrar um pouco do que o Marcelo Callado me ensinou.
Sua personagem elenca relacionamentos tóxicos e abusivos até que foge de casa. Como vê o fato de a misoginia ser agora considerada um crime pelo Senado?
Acho essa pauta urgentíssima e espero que a Cãmara siga o parecer do Senado. O tema é importante, ainda que delicado para alguns deputados, que podem perder votos ao abraçar a questão. E temos de abraçar a luta de quem é antimachista. Vivemos num tempo em que os assassinatos das mulheres são orquestrados em série. O panorama é o de uma guerra. Ser mulher no Brasil é nascer com medo. Muitas pessoas hoje estão armadas, o que representa uma ameaça às mulheres nesta questão da violência de gênero. E essa permissividade é um legado do governo anterior. A questão da violência virou uma discussão de esquina, e é uma pena que alguns grupos se valham disso para fomentar a polarização. Tudo cai hoje na guerra política, e há o risco de tudo ficar misturado, política e misoginia.
A peça vem do romance do Eduard Lowis, um autor para quem ficção e realidade misturam-se. Você já teve experiências teatrais com a Molly Bloom, do Joyce, e com o Memorial do Convento, do Saramago. A literatura não te intimida como atriz portanto.
Não. No caso de uma obra literária, gosto de pensar também na adaptação. Sempre fui colaboradora nos projetos em que trabalhei a partir de livros. E, nesta peça, colaborei com o Pedro (Kosowski, responsável pela dramaturgia). Como atriz, sou uma contadora de estórias, e, neste caso, a literatura não me intimida, ela me inspira sempre. Até porque, no teatro, não é sempre que encontramos um texto que venha ao encontro do que queremos dizer num determinado contexto, e os livros estão aí para isso também.
A Celina elencava empatia, acolhimento, crítica e desilusões. Esses ingredientes foram colocados no teu caldeirão por você a partir do texto ou por sua iniciativa?
Estava tudo ali no texto. Algumas nuances apareciam meio que en passant e, se eu achasse que dariam caldo, dava destaque a elas. A Celina foi desde sempre uma personagem controversa, que apontava para um lado e ia para outro. Ao mesmo tempo em que ela tinha falas humanistas, era classista e subserviente às vontades da irmã. Ela era uma mulher da alta roda e apontava, por isso, para muitas direções. E cabia a mim, como atriz, encontrar coerência naquela mulher.
Em Nômades você dublava Maria Bethânia em duas cenas do filme Os Doces Bárbaros. A Bethânia me levou à literatura. Para que lugar ela te levou?
A Bethãnia me leva às minhas origens, a esse lugar da ancestralidade, que é muito forte nela. Ela tem isso de trazer uma identidade brasileira latente. E você sabe que a minha aproximação da arte dela se deu aos poucos. Na adolescência, ouvia Gal, Caetano, mas não me reconhecia no que ela cantava, e isso foi mudando na medida em que amadureci. Quando ensaiamos e fizemos a peça, a gente não falava das questões relacionadas aos povos originários (presentes na canção “Um índio”, de Caetano) como falamos hoje. Então, aquele número acabou tendo muita força na peça.
A ideia foi sua então?
Foi. O Marcio (Abreu, diretor da peça) pedia um dever de casa para as sextas-feiras: tínhamos de apresentar um número de dublagem. Isso levava a gente a preparar algo e ficávamos nervosas (Malu atuava com Andréa Beltrão e Mariana Lima) e era divertidíssimo. Na grande maioria das vezes, levávamos coisas em inglês e, como gosto muito do filme (“Os Doces Bárbaros”, do Jom Tob Azulay), tive a ideia de dublar aquelas duas cenas da Bethânia.
A minissérie Queridos amigos tinha cenas muito tocantes de tão verossímeis e realistas. O que foi mais enriquecedor naquele trabalho?
Tudo. Aquele foi meu primeiro grande papel na TV. Meus trabalhos eram restritos a pequenas participações ou a coisas voltadas ao humor até que decidi parar de fazer TV. E veio então o convite para aquela minissérie, na qual eu trabalharia com atores que não conhecia pessoalmente, mas que admirava. E eu estava ali contracenando com eles de igual para igual. E ficaram meus amigos e estão na minha vida até hoje: a Débora (Bloch), o Emílio (de Mello), o Matheus (Naschtergaele)… Sem falar no texto da Maria Adelaide, que tinha essa qualidade de ser coloquial e profundo ao mesmo tempo. Foi um trabalho muito especial aquele.
Afonso Tostes é um dos artistas mais talentosos da geração dele e ele tem isso de ser discreto e na dele. O que mais te fascina no Afonso?
O Afonso tem um coração enorme. Ele é muito afetuoso e é uma pessoa em quem podemos confiar. Confio nele de olhos fechados, e isso é para mim o que tem mais valia.
Os teatros estão cheios com as plateias ávidas por verem os atores ao vivo. Você vê esse comportamento como tendência ou algo que veio para ficar?
Tomara. Tudo muda no mundo, e a gente não tem como saber tudo. Acho que, na pandemia, as pessoas ficaram muito viciadas em séries e, de lá para cá, redescobriram o prazer de ver o outro ao vivo. E isso traz uma experiência humana de grandeza e de plenitude, ainda mais agora, nesses tempos de IA. As coisas precisam ser cada vez mais sintéticas e menos humanas, e o teatro será ainda o teatro.
Voltando à Mulher em fuga, do que você quis fugir e foi difícil se desvencilhar?
De nada exterior, mas de coisas ligadas ao meu interior mesmo.
Me dá um exemplo….
Coisas relacionadas a comportamentos, que fui percebendo serem recorrentes ao longo do tempo. A profissão do ator é muito ingrata, estamos sempre sendo colocados à prova, competindo e, em alguns casos, sendo diminuídos. E, se você é mulher, fica mais propensa a isso. Mas não tenho do que me queixar. Nunca me vi numa prisão. Nunca fui silenciada em razão de algo.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Mari França (imagens)