MENU

“O Brasil, esse condomínio de narrativas”, mas é só mais um editorial

Compartilhar:
“O Brasil, esse condomínio de narrativas”, mas é só mais um editorial

No fim, o Brasil segue refém de narrativas que distorcem a realidade. Não importa o lado: todos parecem mais preocupados em vencer a batalha das redes sociais do que em construir um país decente no mundo real. Enquanto isso, a imagem do Brasil vai sendo moldada não pelo que somos, mas pelo que nossos extremos gritam. E gritam alto. Cada manchete vira certidão de óbito do país às 9h e atestado de renascimento às 18h, conforme o humor do algoritmo. Somos uma espécie rara: um país onde o PIB moral sobe 0,0% ao ano, mas a inflação de certezas absolutas está em três dígitos. A política? Virou reality show com temporada infinita. O Centrão é o plot twist, o Judiciário, o roteirista convidado, e nós, claro, a plateia que paga ingresso e leva vaia. A economia caminha como aquele elevador antigo: sempre prometendo chegar “já, já” ao andar do desenvolvimento — desde 1500. Entre uma reforma e outra, o mercado faz ioga para manter a calma enquanto o câmbio pratica crossfit. Quando os dados melhoram, é “efeito base”; quando pioram, é “o fim”. A Amazônia, coitada, virou espelho de caráter: se tossir, a culpa é do agro; se sarar, mérito do clima. Numa semana somos potência verde, na seguinte viramos vilões tropicais. O estrangeiro observa, toma notas e decide se nos chama para a foto oficial ou para a lista de advertências. Na segurança pública, convivemos com a invenção nacional da “paz armada desorganizada”: facções com logística de multinacional e Estado com sinal de discagem. A cada operação, declaramos vitória contra o crime. No dia seguinte, o crime declara vitória contra o nosso entusiasmo. Empate técnico — e eterno.

O Judiciário, por sua vez, virou aplicativo de tudo: chama-se para decidir do lapso fiscal ao meme malcriado. À direita, o exagero bolsonarista continua tratando nuance como traição; à esquerda, a militância sem direção acha que intenções puras fariam pontes, estradas e contas públicas se resolverem por osmose. E a imprensa? Faz o que deve: apura, critica, denuncia — e, aqui e ali, também cai no vício nacional do catastrofismo com prazo de validade. É o preço de narrar um país que muda de humor mais rápido que de governo. O resultado é um Brasil de vitrine: polido, iluminado, curado no Photoshop. Atrás do vidro, porém, estão os boletos. Educação que não alfabetiza, saúde que heroicamente nos salva apesar do subfinanciamento, infraestrutura que promete e não entrega no prazo, e um pacto federativo que parece aquele contrato que ninguém leu — mas todo mundo assina. A democracia continua de pé, é verdade, e isso não é pouco. Só que, para funcionar, precisa de menos trending topic e mais tópico orçamentário. Se quisermos uma imagem que nos represente, talvez seja a de um país que cansou de escolher entre ufanismo e apocalipse. O Brasil não é o inferno que as timelines vendem, nem o paraíso que as lives prometem — é uma obra em andamento com pedreiro de folga e engenheiro de recesso.

A boa notícia? Ainda dá tempo de ler menos slogans e mais relatórios; discutir menos perfis e mais políticas públicas; trocar a batalha das narrativas pelo trabalho das entregas. Quando isso acontecer, os extremos terão que gritar mais alto. E, quem sabe, finalmente perderão a voz. Da Redação O Minuto Notícia - Informação é Poder!

Junte-se ao Nosso Grupo! Receba notícias em primeira mão

Faça parte do nosso grupo WhatsApp.

Entrar Agora →