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O Conhecimento Fragmentado: Como o Quadrivium foi substituído por “Caixinhas” Inúteis

Contudo, há uma falha estrutural no ensino moderno que atua como o alicerce dessa desordem: a fragmentação do conhecimento.

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O Conhecimento Fragmentado: Como o Quadrivium foi substituído por “Caixinhas” Inúteis

Nos artigos anteriores, exploramos como o relativismo e a desconstrução da vontade moral desarmaram o cidadão e fortaleceram o criminoso. Contudo, há uma falha estrutural no ensino moderno que atua como o alicerce dessa desordem: a fragmentação do conhecimento. Enquanto a educação clássica buscava a unidade da verdade através do Quadrivium, a escola moderna entrega ao aluno um "quebra-cabeça" de disciplinas isoladas, sem nunca lhe mostrar a imagem na tampa da caixa. Essa incapacidade de enxergar o todo é o que permite que a corrupção e o crime prosperem sob a fachada da especialização técnica.

O Quadrivium e a Harmonia do Cosmos: A Unidade Perdida

Na tradição escolástica, após o domínio das ferramentas de linguagem no Trivium, o estudante ingressava no Quadrivium: Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. Para o homem medieval, essas não eram apenas "matérias" para passar em provas; eram o estudo da ordem numérica e espacial que regia o universo. Como afirma Hugo de São Vítor em seu Didascalicon:

"A alma é o princípio da vida, mas a sabedoria é a iluminação da alma. Por isso, de todas as coisas a serem buscadas, a primeira é a sabedoria, na qual reside a forma do Bem perfeito."

Essa sabedoria era buscada na percepção de que o universo é um Cosmos — uma ordem bela e organizada. Aritmética era o número em si; Geometria, o número no espaço; Música, o número no tempo; e Astronomia, o número no espaço e no tempo. O objetivo final era levar a alma a perceber que as leis da matemática e as leis da moral procediam da mesma fonte divina. Se o universo é ordenado, a conduta humana também deve ser. Quando o aluno estudava a harmonia musical, ele aprendia, por analogia, a harmonia social. Ele entendia que uma nota fora de lugar destrói a sinfonia, assim como um ato de injustiça destrói a paz da cidade.

Essa visão integrada fundamentava a convicção de que não existe verdade que não aponte para Deus. Santo Tomás de Aquino via nesse estudo uma preparação para a Metafísica. A percepção da ordem nas coisas criadas era o degrau necessário para a compreensão da ordem na alma. Ao aprender que a verdade é uma só, o estudante desenvolvia um senso de proporção que o impedia de viver em compartimentos estanques. Ele compreendia que sua vida privada e sua função pública eram partes de um mesmo organismo moral, tornando-o intrinsecamente menos propenso ao egoísmo fragmentado.

Hoje, porém, essa unidade foi estilhaçada. O aluno aprende fórmulas de física sem nunca entender a filosofia da natureza. O resultado é um intelecto "moído", capaz de memorizar dados, mas incapaz de sintetizar o sentido da existência. Sem a visão do todo, o indivíduo perde a noção de responsabilidade sistêmica. Como alerta Richard Weaver em As Ideias Têm Consequências:

"O homem moderno é um deserdado; ele foi privado daquela herança de conhecimento sobre a natureza humana e o mundo que lhe permitiria ser um senhor de si mesmo."

Essa deserção intelectual é o primeiro passo para a delinquência moral. Sem a percepção de uma ordem transcendente, o conhecimento torna-se apenas uma ferramenta de poder egoísta.

Por fim, o resgate do espírito do Quadrivium não significa apenas ensinar matemática, mas restaurar a convicção de que a ordem nas ruas começa na ordem dos pensamentos. Quando o conhecimento é fragmentado, a moralidade também se torna fragmentada. Isso permite que o homem seja um profissional eficiente e um cidadão corrupto, sem sentir o peso da contradição. A segurança pública depende de cidadãos que compreendam que cada ação isolada ressoa na harmonia — ou no caos — de toda a nação.

A Hiperespecialização e o "Bárbaro Técnico"

A substituição da educação integral pelo modelo de "caixinhas" gerou o que José Ortega y Gasset chamou de o "Especialista" — um homem que conhece profundamente um pequeno canto do universo, mas ignora todo o resto. Esse indivíduo possui uma técnica refinada, mas uma alma primitiva. Ele é o "bárbaro técnico": sabe operar sistemas financeiros e leis complexas, mas não possui o senso moral básico. Em A Rebelião das Massas, Ortega y Gasset sentencia:

"O especialista sabe muito bem o seu pequeno canto do universo; mas ignora radicalmente todo o resto. [...] Temos aqui um espécime de homem sem par na história: o sábio-ignorante."

Essa fragmentação é a raiz do crime de colarinho branco. O advogado que manipula leis para soltar criminosos ou o contador que mascara desvios de verbas justificam seus atos dentro da sua "caixinha profissional". Como nunca foram educados para ver a conexão entre sua "canetada" e o sangue derramado na periferia, eles dormem com a consciência tranquila. Em contrapartida, a pedagogia moderna, influenciada por nomes como John Dewey, focou na educação como mero "instrumento de adaptação social e eficiência produtiva", removendo o horizonte da verdade absoluta.

Dewey afirmava que "a educação é um processo de vida e não uma preparação para o viver futuro", o que, na prática, eliminou a teleologia escolástica (o fim último do homem) em favor de um pragmatismo imediato. Se o objetivo é apenas "funcionar" no sistema, a ética torna-se um estorvo à eficiência. A escola moderna treina o aluno para ser uma peça de engrenagem. Ao descartar a formação humanística e espiritual, o sistema produz indivíduos funcionalmente inteligentes, mas eticamente cegos. Eles são incapazes de perceber que a corrupção na licitação é o que causa a morte no hospital.

Ortega y Gasset alertava que esse tipo de homem acredita que a ordem social é um dado da natureza que não exige sacrifício pessoal. Ele desfruta dos benefícios da segurança pública, mas age sempre conforme seu interesse. O especialista "amoral" é o arquiteto da decadência brasileira, fornecendo a logística intelectual para que o crime e a corrupção operem com eficiência cirúrgica. A técnica divorciada do Bem torna-se uma arma de destruição em massa nas mãos de quem busca apenas suprir seus apetites.

Para reverter a insegurança, é preciso voltar a formar homens que, antes de serem especialistas, sejam especialistas em serem humanos. Isso exige submeter a técnica à sabedoria e o lucro à justiça. Enquanto o ensino for apenas um treinamento para "vencer na vida" no sentido material, continuaremos a produzir bárbaros sofisticados que, em nome de sua especialidade, destroem os alicerces da convivência civilizada e da ordem pública.

O Cidadão Fragmentado e o Egoísmo do "Meu Quadrado"

O impacto dessa fragmentação no cidadão comum é o surgimento da mentalidade do "meu quadrado". Educado em um sistema que separa fatos de valores, o brasileiro médio passou a enxergar a sociedade como um espaço de competição. O egoísmo imediatista é alimentado por essa incapacidade cognitiva de perceber como pequenas infrações individuais corroem o tecido social. Richard Weaver descreve esse cidadão como a "criança mimada" da civilização ocidental:

"A criança mimada é o produto de uma educação que lhe deu direitos sem deveres e que lhe permitiu acreditar que o mundo existe para a satisfação de seus desejos."

O cidadão que estaciona na vaga de idoso ou suborna o guarda não enxerga o nexo causal entre sua atitude e a impunidade. Na sua mente fragmentada, aquele ato é uma exceção isolada. Ele não compreende que a moralidade é indivisível. A fragmentação escolar o impediu de desenvolver a Prudência, a virtude que aplica princípios universais a situações concretas. Esse deserto intelectual produz o eleitor que vende o voto. Ele troca o destino da nação por uma vantagem efêmera, pois seu intelecto não processa a conexão entre aquela escolha e a falência posterior do país.

Esse modelo de cidadão egoísta e técnico foi o alvo de críticos como Paulo Freire, embora por caminhos revolucionários. Freire, em Pedagogia do Oprimido, afirma que "a educação é um ato político". No entanto, ao substituir a transmissão da alta cultura e da moral clássica pela "conscientização ideológica", a pedagogia freiriana acabou por fragmentar ainda mais a alma do aluno, dividindo o mundo entre "opressores e oprimidos". Ao invés de buscar a Verdade que une, buscou-se a luta que divide, deixando o indivíduo sem uma bússola moral transcendente, focado apenas em sua "vontade de poder" de grupo.

O resultado é um cidadão que vive no "instante", desvinculado do passado e do futuro. Sem a visão de conjunto, torna-se uma massa de manobra. A fragmentação gera uma falta de empatia: o "outro" deixa de ser um próximo e passa a ser uma ferramenta. O cidadão comum ignora o sofrimento alheio desde que sua vida privada não seja atingida. É a "paz dos cemitérios": aceita-se a barbárie contanto que o condomínio esteja seguro, ignorando que o muro é a prova da falência da nação.

A san doutrina cristã ensina que somos todos membros de um só corpo. A educação fragmentada amputou essa percepção. Para restaurar a segurança, precisamos de uma educação que reconecte os fios da alma, ensinando que o ato privado tem repercussão pública. Precisamos sair do "meu quadrado" para a "Nossa Pátria", entendendo que a ordem externa é o fruto direto da harmonia interna e da solidariedade entre homens que reconhecem um Deus sobre todas as coisas.

A Falência da Autoridade e o Caos das Metodologias

A fragmentação do conhecimento também destruiu a figura do professor. No modelo escolástico, o mestre guiava o aluno em direção à verdade última. Hoje, o professor é rebaixado a "facilitador", influenciado por ideias como as de Max Horkheimer, que em Teoria Crítica propunha a desconstrução de toda autoridade tradicional como passo para a revolução. Horkheimer afirma:

"A função social da educação atual é, acima de tudo, a integração do indivíduo no sistema social, mas a Teoria Crítica deve desmascarar essa integração como uma forma de dominação."

Ao tratar o conhecimento como algo que o aluno "constrói" ao seu gosto, as metodologias ativas removem o Corpo de Conhecimento a ser transmitido. Na prática, isso significa que o aluno nunca é apresentado à estrutura da realidade, tornando-se presa fácil para ideologias. Essa desordem reflete-se na segurança pública através da incapacidade estatal de formular estratégias integradas. Temos polícias que não se comunicam e leis que se contradizem. É o reflexo fiel da sala de aula: uma multidão de especialistas em suas caixinhas burocráticas.

A formação de um juiz no Brasil atual é focada quase exclusivamente no "decorar leis". Eles saem das faculdades como técnicos do Direito, mas sem repertório filosófico para entender a Justiça Transcendental. Quando a "caixinha do Direito" se separa da "caixinha da Moral", a aplicação da lei torna-se um exercício frio que ignora o bem das vítimas. O sistema jurídico torna-se, então, o que Bernanos descrevia como uma máquina que tritura a vida interior do homem em favor da burocracia estatal.

O retorno à educação integral exige que o professor volte a ser um mestre da síntese. Precisamos de escolas que mostrem como a Matemática, a Literatura e a Religião se unem para formar um homem íntegro. Somente quando o Intelecto for curado da cegueira da fragmentação, poderemos esperar autoridades capazes de reconstruir a ordem pública. A autoridade legítima nasce do saber e da virtude, não da mera imposição técnica ou da ideologia revolucionária que nega a ordem natural.

A crise da educação é uma crise de autoridade, e a crise de autoridade na escola é a mãe da impunidade nas ruas. Sem um mestre que aponte para o Alto, o aluno olhará apenas para o próprio umbigo. Para desarmar a criminalidade, precisamos de uma educação que não tenha medo de afirmar que existe uma hierarquia de valores e que o conhecimento serve para servir a Deus e ao próximo, não para validar o egoísmo de uma geração que se julga o centro do universo.

Conclusão: O Caminho para a Reintegração do Homem

A crise da segurança no Brasil é, em grande medida, uma crise de percepção. O criminoso de colarinho branco, o faccionado e o cidadão egoísta compartilham a mesma limitação: a incapacidade de ver a unidade da vida moral. Eles acreditam que podem ferir a sociedade em uma parte sem que o todo sofra. Essa ilusão é o fruto amargo de um ensino que trocou a busca pela Sabedoria (Sapientia) pela mera aquisição de informações técnicas úteis e ideologias de ruptura.

Para combater a barbárie, precisamos reintegrar o homem brasileiro. Isso começa por derrubar as paredes das "caixinhas inúteis" e restaurar o ideal da Formação Integral. O aluno deve aprender que a verdade não é algo que ele inventa para fins revolucionários ou de consumo, mas algo ao qual ele deve se adequar. O senso de harmonia que o Quadrivium ensinava deve voltar a ser o horizonte, para que o jovem entenda que a paz social é a "tranquilidade da ordem", como definiu Santo Agostinho.

A segurança pública não será resolvida apenas com tecnologia, mas com homens que tenham o "peito" preenchido por uma visão nobilitante da vida. Como diz C.S. Lewis em A Abolição do Homem:

"Em uma espécie de simplicidade medonha, removemos o órgão e exigimos a função. Fazemos homens sem peito e esperamos deles virtude e empreendimento. Rimos da honra e ficamos chocados quando encontramos traidores em nosso meio."

Precisamos de cidadãos que compreendam que cada ato de honestidade é uma contribuição para a ordem do cosmos.

Enquanto permitirmos que a nossa educação seja um processo de atomização da alma, continuaremos a colher o caos. O crime organizado é a resposta pragmática a uma sociedade que perdeu o seu centro. O resgate da educação integral escolástica é o projeto de segurança pública mais urgente: o projeto de reconstruir o homem para que ele possa, finalmente, reconstruir a sua nação sob o olhar de Deus e a luz da Razão ordenada.

Referências Bibliográficas

AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Tradução de Odilão Moura. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

BERNANOS, Georges. A França contra os robôs. Tradução de Alexandre Müller Ribeiro. São Paulo: É Realizações, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

HORKHEIMER, Max. Teoria Crítica I. São Paulo: Perspectiva, 1991.

LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. Tradução de Martins Fontes. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Tradução de Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

SÃO VÍTOR, Hugo de. Didascalicon: da arte de ler. Tradução de Antonio Marchionni. Petrópolis: Vozes, 2001.

WEAVER, Richard M. As Ideias Têm Consequências. Tradução de Guilherme Ferreira Araújo. 4. ed. São Paulo: É Realizações, 2012.

Clodomar Rodrigues - Coronel da Policia Militar do Estado de Rondonia

Comandante Regional de Policiamento II