
Vivemos uma época curiosa. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos convivido com tanta desconfiança. Parece que parte da sociedade passou a acreditar que toda gentileza esconde um interesse, que toda boa ação possui um segundo objetivo e que toda oportunidade deve ser aproveitada antes que outra pessoa o faça.
Há quem analise tudo. Desconfie de todos. Calcule cada movimento. Não para evitar injustiças, mas para descobrir como obter alguma vantagem.
Essa não é inteligência.
É o medo transformado em estratégia de vida.
Aristóteles ensinava que a virtude sempre está no equilíbrio. O excesso de ingenuidade pode ser perigoso, mas o excesso de malícia destrói a própria possibilidade de convivência.
Uma sociedade onde ninguém confia em ninguém deixa de ser uma comunidade e passa a ser apenas um conjunto de indivíduos disputando espaço.
Thomas Hobbes afirmava que, sem princípios e sem regras morais, o homem tende a transformar a vida em uma permanente guerra de todos contra todos. Séculos depois, percebemos que essa guerra nem sempre acontece com armas. Muitas vezes ela acontece nas pequenas atitudes: na mentira conveniente, na vantagem silenciosa, na manipulação, na falta de palavra e na disposição de ganhar mesmo quando o outro precisa perder.
Sêneca alertava que quem vive apenas para seus próprios interesses acaba se tornando escravo deles. A ganância nunca diz "basta". Ela exige sempre mais.
Immanuel Kant foi ainda mais profundo ao afirmar que devemos tratar cada ser humano como um fim em si mesmo, jamais como um simples meio para alcançar nossos objetivos. Quando usamos pessoas apenas como degraus, negócios ou oportunidades, deixamos de enxergar sua dignidade.
John Locke dizia que a confiança é um dos pilares da vida em sociedade. Quando ela desaparece, contratos tornam-se insuficientes, amizades enfraquecem e famílias se desintegram.
Jean-Jacques Rousseau observava que a corrupção dos costumes acontece quando o interesse particular passa a valer mais do que o bem comum. Não é difícil perceber como essa reflexão continua atual.
Zygmunt Bauman chamou nossa época de "modernidade líquida". As relações tornaram-se descartáveis. As pessoas passaram a medir o valor dos outros pela utilidade momentânea. Quando deixam de servir, são simplesmente substituídas.
Byung-Chul Han acrescenta que vivemos uma sociedade do desempenho, onde muitos enxergam tudo como competição. Até mesmo a solidariedade, em alguns casos, transforma-se em marketing pessoal.
Carl Gustav Jung dizia que aquilo que não reconhecemos em nós mesmos costuma dominar nossas atitudes. Muitas pessoas se consideram extremamente espertas, mas não percebem que vivem aprisionadas pelo medo constante de serem enganadas. E quem vive desconfiando de todos acaba perdendo a capacidade de construir relações verdadeiras.
James Clear lembra que o caráter não é formado por grandes decisões ocasionais, mas pelos pequenos hábitos repetidos diariamente. Pequenas desonestidades criam grandes corrupções. Pequenas virtudes constroem grandes homens.
John C. Maxwell ensina que a verdadeira liderança nunca consiste em tirar vantagem das pessoas, mas em agregar valor à vida delas. Quem cresce pisando nos outros pode até subir rapidamente, mas dificilmente será respeitado quando chegar ao topo.
Darren Hardy afirma que nossas escolhas aparentemente pequenas determinam nosso destino. Cada mentira tolerada, cada vantagem indevida e cada falta de empatia vão moldando silenciosamente quem nos tornamos.
A sociologia também nos oferece um alerta importante. O sociólogo Robert Putnam demonstrou que sociedades com altos níveis de confiança possuem melhores índices de desenvolvimento econômico, educação, segurança e qualidade de vida. Já onde imperam a desconfiança, a esperteza e o oportunismo, cresce o custo das relações, aumenta a burocracia e diminui a cooperação.
A Bíblia já advertia sobre tudo isso muito antes das teorias modernas.
O livro de Provérbios afirma:
"Melhor é o pouco com justiça do que grandes rendimentos obtidos com injustiça." (Provérbios 16:8)
O apóstolo Paulo orienta:
"Cada um não cuide somente dos seus próprios interesses, mas também dos interesses dos outros." (Filipenses 2:4)
E Jesus resumiu toda a ética humana em uma única frase que continua revolucionária:
"Tudo quanto quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles." (Mateus 7:12)
Talvez esse seja o maior desafio do nosso tempo.
Não permitir que a inteligência seja confundida com esperteza.
Não aceitar que a malícia seja apresentada como sinônimo de maturidade.
Não acreditar que vencer significa sempre levar vantagem.
Porque sociedades não prosperam apenas pelo crescimento econômico. Prosperam quando existe confiança. Quando existe palavra. Quando existe honra. Quando existe compaixão.
A esperteza pode render lucros imediatos.
Mas somente o caráter constrói legados.
E, no fim das contas, o mundo não precisa de pessoas mais perspicazes para explorar oportunidades.
Precisa, desesperadamente, de pessoas mais humanas para construir pontes.
Nelson Salles
Editorial | O Minuto Notícia – Informação é Poder!