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O preço de uma sociedade que desaprendeu a se governar

Há finais de semana que servem como um verdadeiro retrato da sociedade. Infelizmente, este foi um deles.

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Precisamos desenvolver mais empatia

As forças de segurança pública atenderam uma sucessão de ocorrências marcadas pela violência doméstica, agressões, ameaças, acidentes de trânsito, fugas, desentendimentos familiares e pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Não são fatos isolados. São sintomas de uma enfermidade social que há muito tempo vem sendo ignorada.

A pergunta que precisa ser feita não é apenas por que isso aconteceu, mas por que continua acontecendo.

Há mais de dois mil anos, Aristóteles já ensinava que "educar a mente sem educar o coração não é educação". Talvez seja exatamente esse o vazio que estamos vivendo. Formamos profissionais, adquirimos tecnologia, acumulamos bens materiais, mas estamos falhando na construção do caráter, do autocontrole e da responsabilidade.

Sêneca, um dos grandes filósofos do estoicismo, advertia que "quem vence os outros é forte; quem vence a si mesmo é poderoso". O maior desafio da sociedade moderna talvez não seja combater o crime organizado, mas combater a desorganização interior das pessoas. Muitos perderam a capacidade de controlar os próprios impulsos. A bebida passa a comandar decisões. A raiva substitui o diálogo. O orgulho ocupa o lugar da razão.

Quando o álcool encontra uma personalidade desequilibrada, quase sempre o resultado é previsível: lares destruídos, mulheres agredidas, crianças traumatizadas, famílias desfeitas e vidas marcadas para sempre.

Também chama atenção a crescente ausência de educação no trânsito. Não se trata apenas de desconhecer as leis. Trata-se da incapacidade de compreender que dirigir é um exercício permanente de respeito ao próximo.

Quem avança uma preferencial, dirige embriagado, foge após provocar um acidente ou transforma uma avenida em pista de competição não está apenas cometendo uma infração. Está dizendo, com suas atitudes, que considera sua vontade mais importante do que a vida dos outros.

O filósofo Confúcio afirmava que "a força de uma nação deriva da integridade de seus lares". Quando os lares adoecem, a cidade sente. Quando a cidade sente, o Estado sofre. E quando milhares de famílias deixam de educar para o respeito, toda a sociedade paga a conta.

A falta de empatia talvez seja outro dos grandes males do nosso tempo.

Vivemos conectados pelas redes sociais, mas desconectados das pessoas. Muitos já não conseguem se colocar no lugar do outro. Falta paciência. Falta diálogo. Falta tolerância. Sobram ofensas, julgamentos precipitados e explosões emocionais.

O resultado aparece nas estatísticas policiais e também nos hospitais.

Toda semana começa pesada para policiais militares, bombeiros, profissionais da saúde, equipes de resgate, delegados, agentes penitenciários, conselheiros tutelares e jornalistas. São profissionais que iniciam a semana lidando com as consequências de decisões impensadas tomadas durante o fim de semana.

Enquanto muitos descansam, outros passam a madrugada recolhendo vítimas, prendendo agressores, socorrendo feridos e tentando restaurar uma paz que poderia ter sido preservada por escolhas mais responsáveis.

Platão advertia que "a primeira e maior vitória é conquistar a si mesmo". Talvez essa seja a reflexão mais necessária para os dias atuais.

Uma sociedade que não se polica acaba exigindo cada vez mais polícia.

Uma sociedade que não educa seus filhos exige cada vez mais presídios.

Uma sociedade que normaliza o excesso da bebida, a violência e a intolerância acaba transformando hospitais, delegacias e fóruns em extensões da própria rotina.

Não existe segurança pública capaz de substituir a educação familiar.

Não existe lei suficientemente severa para compensar a ausência de valores.

Não existe governo capaz de resolver aquilo que começa dentro de cada casa.

Que este início de semana sirva menos para apontar culpados e mais para despertar consciências.

Porque toda grande transformação social começa quando cada indivíduo decide governar primeiro a si mesmo.



Nelson Salles

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