E que tempo é este?
Abrimos os jornais e parece que o mundo resolveu nos testar todos os dias.
São guerras que se prolongam, terremotos e catástrofes que, em poucos instantes, transformam cidades e interrompem histórias. São conflitos religiosos, perseguições e episódios de violência contra comunidades cristãs na Nigéria, em meio a uma crise de segurança que há anos provoca mortes e deslocamentos.
No campo econômico, o mundo também vive uma disputa pesada.
Os Estados Unidos ampliam o uso das tarifas como instrumento de negociação e pressão internacional. E quando as grandes potências entram numa guerra comercial, a conta não fica apenas nos gabinetes de Washington, Pequim ou de qualquer outra capital.
Ela atravessa fronteiras.
Chega ao produtor, à indústria, ao comércio e, cedo ou tarde, pode chegar ao bolso de quem está em casa.
Enquanto isso, o Brasil caminha para uma eleição novamente marcada pela polarização.
E talvez seja justamente aqui que nós precisemos recuperar uma palavra que anda um pouco esquecida: prudência.
Aristóteles ensinava que a virtude está ligada à capacidade de escolher bem. Não simplesmente escolher aquilo que agrada às nossas paixões, mas aquilo que a razão, depois de ponderar, reconhece como correto.
Séculos depois, continuamos enfrentando o mesmo desafio.
Porque democracia não deveria significar transformar quem pensa diferente em inimigo.
Você pode ser de direita. Pode ser de esquerda. Pode estar no centro. Pode não se identificar com nenhum desses campos.
Mas antes da ideologia existe uma condição muito maior: somos cidadãos de uma mesma nação.
E numa sociedade verdadeiramente civilizada, divergência política não pode ser autorização para destruir amizades, romper famílias ou retirar a dignidade de quem pensa diferente.
Sêneca dizia que sofremos muitas vezes mais na imaginação do que na realidade.
Talvez hoje pudéssemos acrescentar: também brigamos muitas vezes mais pelas narrativas do que pelos fatos.
Vivemos cercados por informações, opiniões, vídeos, cortes, manchetes e discursos. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão necessário aprender a separar informação de manipulação.
É por isso que a Bíblia, no livro de Provérbios, traz uma advertência de impressionante atualidade:
“O primeiro a apresentar a sua causa parece ter razão, até que outro venha e o questione.”
Olha a profundidade disso!
Há milhares de anos já estava ali uma recomendação essencial para os nossos dias: ouça o outro lado. Investigue. Questione. Pense.
Não entregue sua consciência pronta para ninguém.
Nem para político.
Nem para influenciador.
Nem para apresentador de televisão.
Inclusive para mim.
Nós, da comunicação, temos a obrigação de apresentar fatos. Mas a sua consciência pertence a você.
Num mundo barulhento, pensar tornou-se quase um ato de resistência.
E talvez a verdadeira inteligência não esteja em gritar mais alto, mas em conseguir manter serenidade quando todos estão gritando.
A humanidade já atravessou guerras, epidemias, terremotos, perseguições, crises econômicas e profundas divisões políticas. E continuamos aqui.
Portanto, não devemos cultivar o medo.
Devemos cultivar discernimento.
Porque esperança sem consciência pode virar ingenuidade. Mas consciência sem esperança transforma-se em desespero.
E nós precisamos das duas coisas: lucidez para enxergar o mundo como ele é e esperança para trabalhar pelo mundo como ele pode ser.
Então cuide da sua família. Respeite quem pensa diferente. Fiscalize quem governa. Não idolatre políticos. Confira antes de compartilhar. E não permita que a raiva de uma eleição seja maior do que o amor pelas pessoas que estarão ao seu lado quando a eleição terminar.
Como ensina a Escritura:
“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.”
Que tenhamos sabedoria para compreender os nossos dias, coragem para enfrentar aquilo que precisa ser enfrentado e humildade para reconhecer que ninguém é proprietário absoluto da verdade.
Porque governos passam.
Eleições passam.
Crises passam.
Mas aquilo que fazemos com a nossa consciência, com a nossa família e com o nosso próximo deixa marcas muito mais profundas.
Eu sou Nelson Salles.