Histórias até então esquecidas sobre o trágico acidente radiológico do césio-137 voltaram à tona depois de quase 40 anos com o lançamento da minissérie Emergência Radiotiva, da Netflix. Entre elas, está a identidade de um dos principais responsáveis por garantir o atendimento médico às vítimas.
O engenheiro nuclear Sebastião Maia de Andrade não foi retratado pela produção no streaming. No entanto, foi ele quem confirmou a presença de radiação na cápsula abandonada no ferro-velho e quem comunicou a existência do material radioativo às autoridades.Em um telegrama compartilhado pela neta do engenheiro nas redes sociais, Sebastião conta que foi procurado por dois funcionários da Vigilância Sanitária e pelo físico Walter Mendes Ferreira, o primeiro a identificar a radiação – e que na série serve de principal inspiração para o personagem Márcio, interpretado por Johnny Massaro.
Membro do Programa Nuclear Brasileiro e gerente da Nucleobrás (Empresas Nucleares Brasileiras S/A), o engenheiro emprestou um aparelho da estatal capaz de medir os índices de radiação com maior precisão.
“Ao me aproximar do local, a cerca de 100 metros da casa onde estava a peça contaminada, o cintilômetro SPP-2 registrou níveis de radiação superiores a 15 mil contagens por segundo (CPS). Diante disso, alertei os funcionários de que seria necessário adotar medidas imediatas”, relatou o engenheiro.
Menos de três horas depois, o Corpo de Bombeiros já havia isolado a região onde o aparelho radiológico de 23 quilos foi encontrado pelas autoridades. No dia seguinte, funcionários da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) chegaram ao local para realizar testes e medidas de prevenção de danos.
A tragédia mobilizou uma das maiores operações de saúde pública do país: 112,8 mil pessoas foram monitoradas, 249 apresentaram algum nível de contaminação e 129 precisaram de acompanhamento médico. As vítimas mais críticas foram transferidas ao Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência em atendimento radiológico.
Emergência Radioativa e o acidente Césio-137
Apesar de ser inspirada na história real do acidente césio-137, a minissérie Emergência Radioativa não adaptou todos os detalhes que cercaram o episódio. Certos personagens que fizeram parte da tragédia, por exemplo, foram adaptados ou suprimidos para melhor conduzir a trama ficcional.
É o caso do protagonista Márcio, interpretado por Johnny Massaro. Inspirado principalmente no físico Walter Mendes Ferreira, um dos primeiros a identificar a radiação, o personagem também foi construído com base em vários outros cientistas que atuaram para conter os danos do acidente, como o próprio Sebastião Maia de Andrade.
Apesar da aprovação do público, a minissérie da Netflix também foi alvo de críticas. O Conselho Municipal de Cultura de Goiânia, por exemplo, publicou uma carta acusando o streaming de “apagar” a cidade goiana da produção, gravada em São Paulo.
“A tragédia deixou marcas que ainda hoje fazem parte do cotidiano e da identidade de nossa cidade. Contar essa história sem olhar para o lugar onde ela realmente aconteceu é retirar dela a verdade mais profunda: a memória do povo que a viveu”, criticou o órgão.
A Associação das Vítimas do Césio-137 também fez ressalvas ao projeto. A entidade diz que seus membros não foram procurados para contribuir com o roteiro ou relatar experiências vividas durante o acidente.
De acordo com o presidente da associação, uma equipe chegou a visitar Goiânia (GO) para conhecer locais ligados ao episódio, mas sem diálogo com os sobreviventes da tragédia. A ausência desse contato direto foi considerada desrespeitosa às histórias das vítimas.
“Isso gerou uma indignação geral entre nós. Cada vez que alguém vê um trecho dessa história sendo contado, muitas feridas são reabertas. Contar essa história sem ouvir quem viveu tudo isso pode trazer versões erradas ou incompletas. O que as vítimas querem é reconhecimento”, afirmou.
Por Adriana Arcoverde