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Porta de entrada do café no Brasil, Amazônia vê retomada do cultivo com protagonismo do robusta

Região investiu em tecnologia e tem potencial para desbancar o Vietnã da liderança global

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Porta de entrada do café no Brasil, Amazônia vê retomada do cultivo com protagonismo do robusta

A Amazônia foi a porta de entrada do café no Brasil, com o início do cultivo do grão em Belém, em 1727. Apesar disso, a cultura não se consolidou na região, vindo a ganhar escala comercial no Sudeste ao longo dos últimos 200 anos. Mas um trabalho recente, que envolveu o melhoramento genético do café robusta e técnicas de cultivo que aprimoram a qualidade da planta, promete mudar este cenário.

A Amazônia foi a porta de entrada do café no Brasil, com o início do cultivo do grão em Belém, em 1727. Apesar disso, a cultura não se consolidou na região, vindo a ganhar escala comercial no Sudeste ao longo dos últimos 200 anos. Mas um trabalho recente, que envolveu o melhoramento genético do café robusta e técnicas de cultivo que aprimoram a qualidade da planta, promete mudar este cenário.

O grande salto para o cenário atual se deu em 2010, com a modificação do método de propagar o café. “Ao invés de disseminar por semente, como ainda é comum com o arábica, a gente começou a propagar por clonagem”, lembra o pesquisador. Com isso, foi possível selecionar as melhores plantas.

“Isso representou uma revolução porque começamos a trabalhar com materiais uniformes. Depois vieram a irrigação e novos tratos culturais, como manejo de solo e de água e a colheita seletiva, o que ajudou a melhorar a produtividade”, conta o secretário de Agricultura de Rondônia, Luiz Paulo da Silva Batista.

Produção familiar

Atualmente cerca de 20 mil famílias, das quais 10 mil estão na região das Matas de Rondônia, cultivam 50 mil hectares de café em Rondônia. Esse modelo de produção evoluiu e hoje está instalado também no Acre, em Roraima, no Mato Grosso e no Amazonas.

“Essa forma de produzir café em pequena escala, mais tecnológica, está se espalhando por toda a Amazônia. E isso é uma coisa boa, que se contrapõe ao modelo antigo dos barões de café”, comenta Alves.

O pesquisador acrescenta que na região a média de idade do cafeicultor entre 2010 e 2024 reduziu de 53 para 47 anos. “O que significa que as famílias estão permanecendo nas propriedades”, conta.

O estado de Rondônia responde hoje por 90% da produção dos robustas amazônicos, com safra estimada em 2,3 milhões de toneladas em 2025 pela Conab, seguido pelo Mato Grosso, com produção projetada e 278,7 mil toneladas e pelo Acre, que deve colher 89 mil toneladas este ano.

Nos últimos anos, o Acre vem seguindo os passos de Rondônia e tem apostado fortemente na qualidade de seus cafés, com adoção de variedades mais adaptáveis ao clima amazônico e uso de técnicas de manejo que valorizam os atributos da bebida, como a colheita seletiva e a fermentação.

São cerca de 1, 7 mil hectares cultivados por aproximadamente mil famílias. Desde 2013, o Acre também fomenta a transição das lavouras seminais para as clonais.

Entre 2018 e 2024, o Valor Bruto de Produção (VBP) do café no Acre saltou de R$ 26,4 milhões para R4 65,1 milhões, “representando um salto histórico do setor e ultrapassando o VBP da soja”, diz José Luiz Tchê, secretário de agricultura do Acre.

Cafeicultura sustentável

Uma grande vantagem do café robusta é a compatibilidade com a floresta, “por ter sido trazido de regiões de florestas do Vale do Congo, que são muito parecidas com as nossas características amazônicas”, explica Alves.

Segundo ele, um estudo da Embrapa também mostrou que os cafezais das Matas de Rondônia têm um balanço positivo de carbono sequestrando 2,3 vezes mais carbono do que emitem. Este café já é inclusive apreciado fora do País.

“Nós saltamos de exportações de US$ 41 mil dólares em 2019 para US$ 152 milhões no ano passado, quando exportamos 35 mil toneladas de café”, conta o secretário Luiz Paulo. Segundo ele, foi a partir de 2015 que Rondônia entrou definitivamente para o mapa da cafeicultura de qualidade.

“Atualmente nosso principal trabalho tem sido conscientizar o produtor a produzir com qualidade e sustentabilidade”, diz.

O resultado deste esforço já pode ser percebido em concursos nacionais de qualidade de café. Foi o que aconteceu na 8ª edição do Concurso Florada Premiada, criado em 2017 para valorizar o trabalho das mulheres cafeicultoras do Brasil.

A premiação é promovida pelo Grupo Três Corações, por meio do Centro Rituais de Cafés Especiais, em parceria com a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), e na edição 2025 selecionou como finalistas 20 melhores amostras de café canéfora, das quais 18 são das Matas de Rondônia.

“Foi a quarta vez que enviei uma amostra. É um momento muito feliz porque conseguimos a primeira colocação ” diz a cafeicultora Angela Maria Coutinho Pessoa, que começou a plantar café em 2018. A produtora, que cultiva numa área de três hectares no município de Seringueiras, na região das Matas de Rondônia, pretende dobrar a área nos próximos anos.

“Estamos sempre aprimorando o trabalho no campo, estou migrando gradativamente para os insumos biológicos e tenho melhorado o manejo do solo a fim de obter uma maturação mais uniforme”, conta Angela, que cuida das lavouras com o marido Edvaldo Manthay e a cunhada Angélica Alexandrino Nicola.

Além do bom resultado no concurso nacional, Angela tem tido reconhecimento também nos concursos de qualidade municipais e estaduais. O mesmo ocorre com a produtora Fabiana Souza Leal Sanabria, do município de Espigão do Norte, também nas Matas de Rondônia, que ficou em segundo lugar na edição atual do Concurso Florada Premiada.

Com uma área de 1,2 hectares, onde cultiva 5 mil pés de café, a produtora pretende ampliar o cafezal para 11 mil pés. “Investimos continuamente na melhoria da qualidade. Recentemente nos organizamos em uma associação, cujo objetivo é comprar um torrador e classificadores de café”, conta Fabiana.


Por Luciana Franco — São Paulo