
A produção brasileira de uvas para consumo in natura e para industrialização ocupa 84,4 mil hectares, atinge 1,82 milhão de toneladas por ano e movimenta aproximadamente R$ 8,3 bilhões. Essa produção, distribuída em 1.215 municípios, apresenta bastante diversidade - dependendo do território, do modelo de negócios e dos produtos gerados - e carece de maior integração entre os elos da cadeia para gerar mais valor.
É o que aponta o levantamento “Brasil Vitivinícola: Panorama Estratégico e Mapeamento da Cadeia de Valor da Vitivinicultura Brasileira”, que será divulgado nesta quarta-feira (13), durante a Wine South America, em Bento Gonçalves (RS).
“O setor não funciona como uma cadeia linear, há muita diversidade. É um mosaico de estruturas, de modelos de negócios, de territórios e cada região exige uma solução diferente”, afirma Paulo Henrique Leme, professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e consultor em marketing estratégico.
De acordo com o estudo, 47,73% da produção de uva fica no Nordeste - sobretudo o Vale do São Francisco. Nessa região, 95% é de uva para consumo in natura. Mas a região concentra apenas 8,66% dos registros formais de estabelecimentos no Sistema Integrado de Produtos e Estabelecimentos Agropecuários (Sipeagro - Vinhos e Bebidas). Os desafios para a região são aumentar a formalização, melhorar as formas de distribuição e o acesso a mercados internacionais.
O Sul do país responde por 42,05% da produção, sendo que 97,5% desse total são destinados ao processamento industrial, para produção de suco e vinho. A região concentra 47,56% dos registros.
“Entre o Nordeste e o Sul existe a vitivinicultura de inverno, com polos no Sudeste, Centro-Oeste e Chapada Diamantina. Essa vitivinicultura é focada na produção de vinhos finos, onde o enoturismo é uma ferramenta importante de agregação de valor”, observa Leme. A vitivinicultura de inverno responde por 10,22% da produção nacional.
Diferentes sistemas
O levantamento também identificou diferentes modelos produtivos, como o tradicional no Sul, o tropical irrigado no Nordeste e o modelo de inverno, em expansão no Sudeste e Centro-Oeste.
No tradicional, a maioria dos produtores são de pequeno e médio portes, muitos agregados em cooperativas, produzem uma safra por ano, com colheita no verão e produzem vinhos de mesa, sucos, espumantes e vinhos finos.
Entre as principais regiões estão Serra Gaúcha (RS), Planalto Catarinense (SC), Vales da Uva Goethe (SC), Bituruna (PR), São Miguel Arcanjo (SP), Espírito Santo e sul de Minas Gerais.
Na vitivinicultura tropical irrigada, a maioria dos produtores são de médio e grande portes, produzem de duas a três safras por ano, com irrigação intensiva e manejo tecnológico, e colheita o ano todo.
A produção é principalmente de uva para consumo in natura, mas também de sucos e vinhos. A região mais conhecida é do Vale do São Francisco (PE/BA).
A vitivinicultura de inverno, por sua vez, produz uma safra por ano, com a colheita na estação mais fria do ano. A maioria dos produtores são pequenos e médios, que investem na produção de vinhos finos e no enoturismo.
As principais regiões produtoras estão no sul de Minas Gerais (Andradas, Caldas, Tiradentes, Serra da Mantiqueira (MG/RJ/SP), Distrito Federal, Goiás, Região Serrana do Rio de Janeiro e Chapada Diamantina (BA).
Segundo o estudo, o Rio Grande do Sul destaca-se como território com maior nível de maturidade da cadeia vitivinícola, com base histórica consolidada, maior articulação institucional e presença de indicações geográficas reconhecidas.
“A vitivinicultura vive um grande momento, o consumo vem aumentando, mas o setor também precisa se preparar para a entrada de mais vinhos europeus no Brasil”, diz Leme.
O professor sugere que os produtores invistam mais na aproximação com o consumidor final, com venda direta e enoturismo, para agregar valor à produção. Também é necessário o investimento no desenvolvimento de variedades mais produtivas, mais resistentes a mudanças do clima e na mecanização da colheita, para tornarem a produção mais competitiva do ponto de vista econômico.
“O estudo ajuda o setor a entender onde estão seus principais desafios e também onde estão suas maiores oportunidades de geração de valor”, afirma Luciano Rebellatto, presidente do Consevitis-RS. Entre os desafios estão a maior integração entre produtores, indústria e mercado consumidor, além da melhoria da distribuição de riqueza.
Segundo a pesquisa, produtores que atuam apenas na etapa agrícola tendem a capturar menor valor, enquanto regiões e empresas que avançam em transformação local, marca própria, indicação geográfica, enoturismo e venda direta ampliam significativamente sua capacidade de geração de receita.
Para o diretor técnico do Sebrae Nacional, Bruno Quick, o mapeamento do setor vai permitir desenvolver um plano de ações mais direcionadas para a cadeia produtiva. “O futuro do setor dependerá menos de escala isolada e mais da capacidade de integrar território, mercado e diferenciação”, conclui Leme.
A pesquisa
O estudo foi desenvolvido pela Planorural, em parceria com o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) e o Sebrae Nacional, sob coordenação do professor Paulo Henrique Leme.
A pesquisa levou 15 meses para ser realizada, entre 2024 e 2026, reunindo mais de 40 fontes institucionais e setoriais, 14 relatórios regionais e temáticos, mais de 150 horas de pesquisa em campo, entrevistas, visitas técnicas e análise em dez territórios vitivinícolas brasileiros. Foram mapeados pouco mais de 800 projetos vitivinícolas.
Por Cibelle Bouças — Belo Horizonte