
Maior produtor de grãos do Brasil, o Mato Grosso vive um problema que se renova a cada safra: a falta de capacidade para armazenar todo o volume de milho e soja colhido. A carência de infraestrutura reduz o poder de barganha do produtor rural, que se vê obrigado a negociar parte da produção no pico da colheita, quando os preços costumam ser mais baixos.
Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) apontam que o Estado possui capacidade para armazenar a metade daquilo que produz - 52 milhões de toneladas de milho e soja, de um total de 104 milhões.
Presidente do Sindicato Rural de Sinop, um dos principais polos produtores de grãos do Estado, Ilson Redivo chama a atenção para um agravante: 70% da capacidade de armazenagem está nas mãos das adquirentes (ou seja, as tradings). As propriedades rurais concentram uma capacidade de apenas 15 milhões de toneladas.
Outro aspecto importante é que a armazenagem nas fazendas está concentrada nas médias e grandes propriedades. Os produtores pequenos, com maior dificuldade para acessar financiamento para construir silos, são os mais prejudicados pelo cenário. Segundo Redivo, 52% da produção do Estado vem de propriedades com menos de 1 mil hectares.
"O pequeno produtor, que é o que mais precisa ser amparado pelo governo para melhorar sua condição de vida, não está sendo assistido", avalia Redivo. O dirigente chama a atenção para a dificuldade de financiamento nas condições atuais. "Hoje, com essa taxa de juro, é loucura fazer um financiamento a longo prazo ou contrair um empréstimo."

A saída observada pelo dirigente é a formação de cooperativas ou associações de produtores como forma de financiar a construção de armazéns coletivos, o que permitiria diluir custos e aumentar o poder de negociação na hora de comercializar o grão.
Foi o que fizeram os associados da Cooperativa Agroindustrial Vale do Azul (Cooazul), de Santa Carmem, norte do Mato Grosso. A cooperativa, aliás, nasceu em 2014 justamente da necessidade de armazenagem na região.
Na época, 25 produtores associados uniram-se e compraram um armazém de um outro agricultor. Atualmente a cooperativa movimenta 3,5 milhões de sacas por ano, mas a intenção é chegar a 4 milhões.
"O problema era a falta de um armazém geral que tivesse credibilidade para receber o produto", resume o gestor comercial e administrativo da cooperativa, Ricardo Bettoni. O valor do investimento foi dividido entre os associados, pago parte em dinheiro e parte em soja. Para um armazém de 50 a 70 mil sacas, um produtor teria de desembolsar sozinho R$ 3 a R$ 5 milhões, calcula o gestor.
Quando o armazém foi adquirido, a capacidade era de 183 mil sacas em dois silos armazenadores e um silo pulmão. Hoje, após novos investimentos, a Cooazul contabiliza uma capacidade estática de 1,4 milhão de sacas.
"As vantagens são inúmeras: o grão está concentrado num lugar só, você ganha no volume, classificação, segurança de onde está o seu produto, agilidade para descarregar", enumera Bettoni.
A utilização dos armazéns se dá por meio da divisão de cotas. Segundo Bettoni, a capacidade é de 43,7 mil sacas para cada cooperado. A cooperativa também tem recebido grãos de terceiros, o que deve se intensificar no ano que vem.
Planejamento financeiro
Mas o norte de Mato Grosso também possui histórias de produtores que investiram sozinhos na aquisição de um armazém. Após anos de planejamento, o agricultor Célio Riffel optou pela construção dentro da propriedade principalmente devido à dificuldade de escoar a soja durante a colheita. A fazenda dele está localizada a cerca de 40 km da zona urbana de Sinop.
O custo total foi de R$ 7,5 milhões, sendo que cerca de R$ 2 milhões foram financiados, com prazo de pagamento de cinco a seis anos. O restante foi pago com recursos próprios e parcelamento com a empresa construtora. A construção foi realizada em 2021, e a capacidade é para 65 mil sacas. "Foi a melhor decisão que tomamos. Não tem preço que pague a tranquilidade", resume.

A decisão de investir no armazém foi motivada pela dificuldade de entregar o produto, principalmente a soja, que é colhida num período de chuvas. "Você carrega o caminhão, ele vai para o armazém (das tradings e particulares) e lá tem uma fila de espera, geralmente são vários caminhões lá para descarregar. Esse caminhão não volta e na sequência para a colhedeira. Você para de colher na melhor hora do dia por falta de onde colocar o produto", descreve.
Outra vantagem citada pelo agricultor é o poder de barganha na hora de negociar o grão. "Você pode pesquisar quatro, cinco tradings (para negociar) onde ficar melhor. Agora, se o produtor já está na mão de uma trading, você não pode tirar dela para passar para outra, você fica meio de mãos atadas", analisa.
A produtividade de Riffel nesta safra de soja ficou em 63,5 sacas por hectare, em uma área de 940 hectares. O produtor afirma que, com armazém próprio, é possível mesclar lotes de soja de melhor qualidade com grãos avariados, reduzindo o percentual de defeitos no carregamento final e, assim, diminuindo os descontos aplicados na classificação para venda. No caso da exportação, o limite de grãos avariados é de 8%.
"Se acontecer de estragar soja na lavoura, você consegue minimizar essa perda dosando ela com a soja que se colhe boa. Essa é a grande vantagem", observa Riffel.
De acordo com presidente do Sindicato Rural de Sinop, casos como o de Riffel são exceção, uma vez que faltam linhas de financiamento a longo prazo com "juro aceitável", que dilua o investimento em até 15 anos.
A produção total de soja em Mato Grosso, na safra 2025/26, está projetada em 51,2 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Já a produção total de milho deve alcançar 53,1 milhões de toneladas.
Por Danton Boatini Júnior — Sinop (MT)