
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sugeriu que o Pix seja expandido para toda a América do Sul, em um sinal de integração entre os países do bloco aduaneiro: “Experiências nacionais bem-sucedidas devem ser compartilhadas entre os países do bloco. [...] Sua arquitetura [a do Pix] pode servir de base para uma infraestrutura de pagamentos que beneficie todos os cidadãos do Mercosul”, disse Lula nesta semana, em discurso na cúpula do Mercosul, no Paraguai.
Especialistas ouvidos pelo R7 ressaltam os desafios de coordenação política e regulatória.
De acordo com Renan Silva, professor de economia do Ibmec Brasília, estender o Pix aos países vizinhos é uma iniciativa “tecnicamente ambiciosa”. O especialista aponta que a medida visa solucionar gargalos históricos de integração regional, mas esbarra em complexos desafios de coordenação política e regulatória.
“Diferente da proposta de uma moeda única, que exige uma convergência macroeconômica profunda, metas fiscais compartilhadas e perda de autonomia da política monetária nacional, o ‘Pix no Mercosul’ é uma integração de infraestruturas. O maior desafio seria a interoperabilidade entre sistemas diferentes, o que torna o processo oneroso”, explica o economista.
Silva ressalta que esse modelo de integração preservaria o Real, o Peso e o Guarani, mantendo a soberania cambial de cada nação. Contudo, a implementação exigiria que os Bancos Centrais parceiros adotassem os mesmos padrões técnicos.
“Nesse contexto, a solução não é o uso do sistema brasileiro isolado, mas a criação de uma rede que interconecte esses sistemas nacionais, o que demanda que os parceiros invistam em infraestrutura tecnológica compatível”, destaca o professor.
Os impactos da internacionalização
Para o economista Vanderson Aquino, os principais beneficiados com o Pix no Mercosul seriam o turismo regional, o comércio de fronteira, as pequenas empresas e as transferências de valores entre pessoas físicas, graças à redução de custos e prazos. No entanto, o especialista reforça que o sucesso da medida depende de uma padronização global.
“Um sistema do Mercosul pode acelerar a internacionalização se for pensado como piloto regional compatível com iniciativas globais, como o Nexus. Mas, se cada bloco criar sua própria solução sem interoperabilidade, há risco de duplicidade e fragmentação”, alerta Aquino.
Embora o projeto seja viável, o economista projeta que a internacionalização seria gradual e dividida em etapas complexas.
“Tecnicamente, é possível avançar em poucos anos com pilotos. Politicamente, a implementação ampla tende a ser mais lenta, porque envolve bancos centrais, legislação, câmbio, prevenção à lavagem de dinheiro e mudanças de governo. A proposta é viável, mas precisa ser tratada como projeto de infraestrutura financeira, não apenas como anúncio político”, conclui.
Lula e o Mercosul
Não é a primeira vez que o presidente Lula sugere iniciativas para facilitar as relações financeiras de países parceiros do Brasil. Em 2023, em seu primeiro ano neste mandato, Lula criticou o uso do dólar e defendeu a utilização de uma moeda comum única entre os países do Brics.
“Hoje, um país precisa correr atrás de dólar para poder exportar, quando ele poderia exportar na própria moeda. Os bancos centrais certamente poderiam cuidar disso. Por que um banco, como o do Brics, não pode ter uma moeda que possa financiar a relação comercial entre Brasil e China? E entre outros países dos Brics?”, questionou o presidente, durante a cerimônia de posse de Dilma Rousseff como presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), em Xangai, na China.
Economia | Do R7, em Brasília