Existe uma fase da vida em que muitas mulheres, especialmente após os 45 anos, se olham no espelho e sentem algo difícil de explicar. Não é tristeza exatamente. Também não é fracasso. É uma sensação mais silenciosa — como se estivessem com o motor ligado, mas o carro parado.
Durante anos, essa mulher se dedicou à família, aos filhos, aos pais, ao trabalho, à construção da casa, da rotina e da estabilidade. Cumpriu papéis importantes. Foi presença constante. Resolveu problemas. Sustentou decisões. Organizou vidas.
E, de repente, olha ao redor e vê outras pessoas acelerando: estudando, abrindo negócios, fazendo academia, viajando, conquistando espaços. Enquanto isso, ela sente como se estivesse observando tudo do banco do motorista… sem sair do lugar.
Mas por que o carro não anda?
O dia tem as mesmas 24 horas para todos. Ainda assim, quando temos filhos, entramos em uma espécie de bolha. Uma bolha de responsabilidades contínuas. E a verdade é que cuidar vai ser para a vida toda. A diferença é que, em algum momento, é preciso decidir se vamos continuar estacionadas ou se vamos assumir novamente o volante.
Existe também um fator que raramente é dito em voz alta: o turbilhão hormonal. Mudanças físicas, emocionais, dúvidas sobre a idade, sobre a menopausa, sobre identidade. Tudo isso influencia. Não é apenas força de vontade. É biologia, é fase, é transformação.
Mas, ainda assim, há uma pergunta que precisa ser feita — sem culpa, sem julgamento:
Seu carro está parado ou está andando?
Não se trata de competir com ninguém. Não é sobre velocidade. É sobre direção. É sobre se sentir no comando da própria vida outra vez.
Furar a bolha não depende de autorização externa. Depende de decisão interna. Pequena, gradual, possível.
Talvez não seja necessário acelerar. Talvez seja apenas hora de engatar a primeira marcha.
Hosana Henke.
Reflexões e análises do cotidiano.