
Ao longo da última semana, uma série de ações tomadas por Donald Trump voltaram a tensionar a relação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que até então vinha sendo pacificada após contatos diretos entre os dois chefes de Estado.
O ruído atingiu um novo pico nessa sexta-feira (13/3) com a decisão do governo brasileiro de revogar o visto do assessor sênior do Departamento de Estado de Trump, Darren Beattie. Segundo o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o norte-americano omitiu e falsificou informações sobre o motivo da visita, o que teria embasado a decisão.
Beattie viria ao Brasil sob o pretexto de participar de uma conferência sobre minerais críticos. Ele também solicitou um encontro com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso na Papudinha desde janeiro — agenda que não foi informada na ocasião em que solicitou o visto.
No requerimento, o norte-americano também afirmou que se reuniria com “autoridades do governo brasileiro”, mas até então não teria solicitado qualquer encontro com integrantes do Executivo.
Diante do desencontro de informações, o presidente Lula determinou que o Itamaraty suspendesse o documento de Beattie.
Antes da crise provocada pela visita do assessor de Trump, a Casa Branca havia tomado outras ações relacionadas ao Brasil nesta semana. A Representação Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) abriu, na quinta-feira (12/3), uma nova investigação com base no Artigo 301 da Lei de Comércio de 1974, que trata de práticas consideradas abusivas no comércio internacional.
A medida busca avaliar se governos estrangeiros falham em impedir a circulação ou importação de produtos fabricados com trabalho forçado, o que poderia gerar vantagem competitiva considerada injusta.
Além do Brasil, outras 59 economias, como China, União Europeia, México, Argentina e Israel, são alvo do procedimento, que pode resultar na imposição de novas tarifas sobre produtos exportados ao mercado norte-americano após a queda do tarifaço, determinada pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro.
Entenda
- A relação entre Brasil e EUA voltou a enfrentar possíveis ruídos após uma série de ações do governo Trump na última semana.
- A tensão mais recente se refere à decisão do Brasil de revogar o visto do assessor do Departamento de Estado Darren Beattie, após o Itamaraty apontar omissão de informações sobre sua agenda no país, que incluiria visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro na cadeia.
- Antes disso, os EUA haviam aberto investigação comercial contra 60 economias — entre elas o Brasil — para apurar possíveis vantagens competitivas ligadas ao uso de trabalho forçado, o que pode resultar em novas tarifas.
- Washington também avalia classificar as facções PCC e CV como organizações terroristas, hipótese vista pelo governo brasileiro como risco de ingerência externa.
PCC e CV na mira dos EUA
Na segunda-feira (9/3), veio à tona a informação de que as duas maiores organizações criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), entraram na mira do governo dos Estados Unidos. A gestão de Donald Trump avalia classificar as facções como organizações terroristas internacionais.
A medida, estudada desde o ano passado, pode ser adotada em meio à campanha de Washington para combater o tráfico internacional de drogas na América Latina.
O governo brasileiro, por sua vez, é contrário à iniciativa. Uma das justificativas é que grupos criminosos como PCC e CV não se enquadram na legislação brasileira sobre terrorismo, que define esse tipo de crime como ações motivadas por razões religiosas, ideológicas, políticas ou de cunho preconceituoso ou xenofóbico.
Na prática, a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas poderia abrir brechas para operações norte-americanas em território brasileiro. O governo dos EUA já adotou medida semelhante ao enquadrar cartéis de drogas venezuelanos como organizações terroristas internacionais.
A decisão antecedeu a operação militar dos EUA na Venezuela, que resultou na captura do ex-presidente Nicolás Maduro, acusado de ter envolvimento com o tráfico internacional de drogas.
Diante desse cenário, o governo Lula vê a possível classificação como uma brecha para interferências na soberania do Brasil.
Por isso, a gestão petista passou a atuar diplomaticamente para tentar evitar a medida. No último domingo (8/3), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, discutiu o tema por telefone com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Na conversa, o chanceler brasileiro buscou convencer o norte-americano a não levar a proposta adiante.
Diálogo entre Lula e Trump
Uma ala do governo minimiza o impacto dessas ações na relação entre os países e avalia que o diálogo entre os dois líderes está maduro para negociações e divergências.
Na avaliação de fontes que participam das conversas sobre o tema, as medidas contra o Brasil têm sido articuladas por um grupo isolado de integrantes do governo norte-americano. Os mesmos agentes teriam influenciado as decisões do tarifaço e das sanções contra ministros da Suprema Corte.
Parte das medidas acabou sendo revertida após a aproximação dos dois presidentes e o pedido direto de Lula a Trump.
Um encontro presencial entre os dois líderes ainda segue em negociação. Inicialmente prevista para março, a ida do petista a Washington foi adiada devido à escalada do conflito envolvendo Irã, EUA e Israel e pode acontecer até maio.
O titular do Planalto já indicou que deseja tratar de uma possível colaboração entre Brasil e EUA para combater o crime organizado. O tema, portanto, deve ganhar enfoque principal após a indicação de que a Casa Branca observa com lupa o avanço das facções criminosas brasileiras.
Por Daniela Santos I Alice Groth