
A estiagem severa que atinge Rondônia em outubro de 2026 está transformando a paisagem dos principais rios do estado e provocando consequências preocupantes para milhares de famílias. O cenário, agravado pelas condições climáticas que afetam a Amazônia, já levou Porto Velho a decretar situação de emergência, enquanto, no interior, municípios como Cacoal enfrentam a redução acentuada do nível dos rios Machado e Pirarara, com reflexos no abastecimento de água e na preservação ambiental.
Na capital, o Decreto Municipal nº 22.515, de 1º de outubro, reconheceu oficialmente a situação de emergência por estiagem, classificada como desastre de Nível II. Segundo o levantamento da Prefeitura de Porto Velho, 22.962 pessoas, pertencentes a 7.442 famílias, foram afetadas em 85 localidades, incluindo comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas do Alto, Médio e Baixo Madeira. Entre os atingidos estão 517 indígenas de cinco aldeias.
A redução do nível do rio Madeira compromete especialmente a navegação, principal meio de deslocamento de numerosas comunidades. Com bancos de areia, pedras e outros obstáculos expostos, o transporte de passageiros, alimentos e mercadorias exige cuidados redobrados. Dados divulgados pela Defesa Civil de Porto Velho em 17 de outubro apontaram que o Madeira havia atingido 2,46 metros, diante de uma média histórica de 3,93 metros para o mês, uma diferença de 1,47 metro.

Em Cacoal, a situação também chama a atenção. Um levantamento realizado pela equipe de reportagem de O Minuto Notícia, com imagens aéreas e observações em pontos de monitoramento, revelou mudanças expressivas na paisagem do rio Machado, importante manancial utilizado no abastecimento da população.
Visto do alto, o rio ainda aparenta conservar parte de sua imponência. Entretanto, uma observação mais detalhada revela extensos barrancos expostos, antes encobertos pelas águas, demonstrando a intensidade da redução do nível do manancial.
Durante a apuração, a reportagem constatou que, em um dos pontos de monitoramento observados, a água estava abaixo da faixa alcançada pela régua de medição disponível, cuja escala começa em um metro. Essa condição impede a leitura precisa naquele equipamento e reforça a necessidade de acompanhamento técnico da estiagem.
A situação também exige adaptações na estrutura de captação de água do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). Conforme as informações levantadas pela reportagem, o nível do manancial encontra-se quase dois metros abaixo da referência de aproximadamente 2,5 metros considerada normal para esta época do ano naquele ponto.
Diante da redução, foi necessário rebaixar equipamentos da estrutura de captação para manter a retirada de água do rio e preservar o abastecimento urbano. A medida evidencia a gravidade operacional da estiagem e a importância de ações preventivas para garantir a continuidade de um serviço essencial à população.
Se a situação do rio Machado já preocupa, o cenário encontrado no rio Pirarara, que atravessa a área urbana de Cacoal, também merece atenção especial.

Durante um sobrevoo realizado pela equipe de O Minuto Notícia, as imagens registraram extensos bancos de areia, redução aparente da lâmina de água e trechos com coloração esverdeada. Embora essas características possam estar associadas à baixa circulação da água e à presença de matéria orgânica ou algas, somente análises técnicas poderão determinar as condições de qualidade da água e a existência de possíveis processos de eutrofização.
Um dos pontos mais preocupantes foi identificado na região do bairro Princesa Isabel. As imagens aéreas mostram a formação de um grande banco de areia que ocupa parte significativa do leito, deixando uma passagem estreita para o fluxo da água.
A situação é agravada pela presença de árvores caídas, galhos e resíduos acumulados, formando obstáculos que dificultam a passagem da correnteza. Além de comprometer a dinâmica natural do rio, o acúmulo de materiais pode favorecer problemas ambientais e exige avaliação dos órgãos responsáveis.
O registro chama a atenção para a necessidade de acompanhamento das condições do Pirarara, incluindo ações de limpeza, fiscalização do descarte irregular de resíduos e estudos sobre o assoreamento do leito.
Em Porto Velho, o decreto de situação de emergência tem validade de 180 dias e permite ampliar as medidas de resposta, incluindo o fornecimento de água potável por caminhões-pipa e embarcações, distribuição de reservatórios e assistência às comunidades mais vulneráveis.

Em Cacoal, as constatações feitas pela reportagem nos rios Machado e Pirarara reforçam a preocupação com a segurança hídrica e a conservação dos mananciais. Embora os efeitos da estiagem sejam visíveis, a definição das causas específicas de cada alteração ambiental depende de monitoramento e estudos especializados.
A seca de 2026 deixa um alerta que ultrapassa o período de verão amazônico. A preservação das nascentes, a proteção das matas ciliares, o combate ao assoreamento e o planejamento do abastecimento de água são medidas fundamentais para reduzir os impactos de futuras estiagens.
As imagens registradas em Cacoal e a emergência oficialmente reconhecida na capital mostram que a escassez de água já produz consequências concretas em Rondônia. O desafio agora é garantir o atendimento à população e fortalecer as ações de proteção dos rios que sustentam a vida, a economia e o abastecimento de milhares de rondonienses.
Nelson Salles da Redação
O Minuto Notícia – Informação é Poder!