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Setor de carne bovina pode cortar produção após cota da China

Redução de 35% do volume destinado ao país seria forma de as empresas se adequarem à quantia de 1,1 milhão de toneladas

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Setor de carne bovina pode cortar produção após cota da China

A salvaguarda imposta pela China para suas importações de carne bovina pode levar os frigoríficos exportadores do Brasil a cortarem em 35% sua produção destinada a atender o país asiático em 2026. Essa foi a forma inicial encontrada pelas empresas para se adequarem à cota de 1,1 milhão de toneladas criada pelos chineses para os embarques da carne brasileira neste ano. Mas a medida pode desvalorizar a arroba do boi e influenciar os preços ao consumidor doméstico.

A distribuição da cota chinesa deverá ser feita de forma proporcional ao que foi comercializado em 2025 pelas 64 plantas brasileiras habilitadas e que venderam regularmente no ano passado, mas a medida enfrenta resistências de algumas empresas. Fontes afirmam que poderá haver uma limitação mensal, para embarques de até 80 mil toneladas por mês à China ao longo de 2026.

Em outra frente, o governo tentará evitar que cerca de 350 mil toneladas negociadas com a China até 30 de dezembro do ano passado consumam parte da cota de 1,1 milhão de toneladas, o que pode aliviar a situação dos frigoríficos.

Em reunião realizada nesta semana em São Paulo, os exportadores acertaram o corte linear na produção de carne para os chineses em 35% em relação ao previsto em um cenário de normalidade, algo em torno de 500 mil toneladas, apurou a reportagem com participantes do encontro. No ano passado, o Brasil exportou 1,67 milhão de toneladas ao país asiático. O volume a ser “cortado” corresponde à exportação do último trimestre (522,7 mil toneladas) à China.

As plantas habilitadas abatem o “boi China”, com idade inferior a 30 meses, seguem padrões exigidos pelo país asiático e produzem peças e cortes específicos para o gosto dos chineses. A redução nas linhas de abate, se concretizada, pode representar 4% da produção total do país em 2026, quando alcançou 12,3 milhões de toneladas.

Um dono de frigorífico que esteve na reunião disse que a medida poderá gerar “queda brusca” no preço da carne para o mercado interno e para o pecuarista. “Dentro do que ficou discutido, vamos entender o que se produziu individualmente em 2025 para baixar 35%, de forma linear”, afirmou ao Valor sob reserva.

Uma pessoa a par do assunto disse que há preocupação no setor. A avaliação é que o impacto nas operações será grande. “São 500 mil toneladas. Por mais que o Brasil exporte mais para o México, para o Oriente Médio e para os Estados Unidos, que é com o que as empresas estão contando, não vai dar isso tudo. Vai ter impacto na produção no Brasil”, avaliou.

Como será o esquema de cotas?

A decisão da China começou a valer em 1 de janeiro. Há cobrança de tarifa de 12% para os volumes dentro da cota e sobretaxa de 55% para o excedente. Ou seja, cargas enviadas acima de 1,1 milhão de toneladas em 2026 terão taxa total de 67%. Com o comércio limitado, as indústrias podem deixar de faturar mais de US$ 3 bilhões neste ano, de acordo com estimativas das associações do setor.

A China já sinalizou que a cota valerá para a carne internalizada após 1 de janeiro de 2026, independentemente da data de negociação e de envio ter sido concluído antes da decisão. O Brasil tenta reverter essa medida.

Negociações

O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, disse que o governo ainda busca entender “detalhes operacionais e procedimentais” para abrir uma negociação com os chineses. A principal demanda é definir uma “data de corte” para consideração da cota.

O governo vai endossar o pedido do setor privado para que as 350 mil toneladas que já haviam sido negociadas e estavam em trânsito ou no aguardo de desembaraço nos portos chineses antes de 31 de dezembro de 2025 — quando as salvaguardas foram anunciadas — não sejam contabilizadas e não consumam cerca de 30% da cota deste ano. A solicitação será formalizada em breve e enviada ao Ministério do Comércio da China, responsável pelo assunto.

O “marco temporal” seria antes do anúncio da medida, em 30 de dezembro de 2025, disse Rua. A definição precisa ocorrer rapidamente, reforçou o secretário. Se o pedido for acatado por Pequim, será um alívio para os planos dos exportadores brasileiros e pode resultar em estabilidade nas negociações com os chineses em 2026.

No mercado, as apostas são de que a China não vai decidir isso agora para manter uma carta na manga para o desenrolar do ano. Assim, caso haja necessidade de maior importação de carne do que o previsto, pode haver “cartada política” ou “gesto de gentileza” em relação ao que já havia sido embarcado. Sem a exclusão das 350 mil toneladas da cota, restariam 750 mil toneladas para exportação sem sobretaxa. No setor, há discussão sobre escalonar os embarques, com limite de 80 mil toneladas por mês, informaram duas fontes.

Outro participante da reunião entre os frigoríficos afirmou que o cenário é de “muita dúvida” e que caberá ao governo brasileiro consultar as autoridades chinesas para obter esclarecimentos. Uma das tentativas, já mencionada pelo ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, será utilizar volumes de cotas de outros países que não forem totalmente utilizadas, como a dos Estados Unidos, que não têm exportado à China ultimamente.

Posição do governo

Procurado, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) reforçou que tem atuado de forma coordenada com o setor privado nas tratativas com o governo chinês para mitigar os impactos das salvaguardas à carne bovina. O governo não descarta acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as medidas e avalia estar respaldado pelo Acordo de Salvaguardas.

O Itamaraty disse que mantém “contato constante” com autoridades chinesas desde a abertura da investigação, em dezembro de 2024, e que busca “defender os interesses do setor e ressaltar o papel fundamental das exportações brasileiras para a segurança alimentar da China, dadas sua qualidade, confiabilidade e competitividade”.

A diplomacia brasileira confirmou que poderá encaminhar pleitos específicos do setor privado, inclusive para aproveitamento de cotas ociosas de outros países e para gestão das cargas no mar. Procurada, a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) não se pronunciou.

Por Rafael Walendorff e Nayara Figueiredo — São Paulo e Brasília