
As licenças de exportação de carne bovina para a China de mais de 400 frigoríficos americanos continuam com o status de “atrasadas” no site da Administração-Geral de Alfândegas chinês (GACC, na sigla em inglês). As autorizações expiraram em fevereiro e março de 2025 e não foram renovadas em meio à guerra comercial entre os dois países.
Mais cedo, nesta quinta-feira (14/5), agências de notícias informaram que Pequim havia renovado essas licenças, mas não houve confirmação oficial da China. O presidente americano, Donald Trump, está na capital chinesa para encontros com o líder local, Xi Jinping.
Os EUA têm 653 plantas habilitadas para exportar para a China. Dessas, 213 estão autorizadas a comercializar normalmente, 38 estão com embarques suspensos e 402 estão com as licenças “atrasadas”.
A possível renovação dessas autorizações de exportação ocorre em um momento conturbado do mercado mundial de carne bovina, por conta das cotas de importação estabelecidas pela China a partir deste ano. Brasil e Austrália já ocuparam mais de 50% dos volumes autorizados para 2026.
Os EUA seguem praticamente sem vender aos chineses. Há pedidos do governo brasileiro para ocupar cotas não preenchidas, como a dos americanos, de 164 mil toneladas.
Na visão da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a possibilidade de renovação das licenças é mais um gesto político na relação entre Washington e Pequim do que uma medida que terá resultado efetivo no curto prazo, dada a baixa disponibilidade de gado e de carne nos EUA neste momento, sem capacidade de mexer com o mercado.
Em alguma medida, essa reabertura pode até favorecer os embarques de carne brasileira para os EUA. “Sempre é um concorrente a mais, mas talvez favoreça um pouco as compras das nossas carnes pelos Estados Unidos, mas não vai mudar alguma coisa aqui para nós na China”, disse Roberto Perosa, presidente da Abiec, em entrevista ao Valor.
“Os Estados Unidos vivem um ciclo pecuário que não tem carne disponível para mandar para a China. Eu acho que houve um gesto de abrir, mas eu não sei se vai ter um resultado efetivo ainda”, completou. Segundo ele, o que esse movimento pode causar no mercado é que um país apto a exportar ficará com uma cota sem utilização na China. “Vai ficar um país que tem uma cota boa, como é os Estados Unidos, sem performar aqui na China”, apontou.
Entre alguns exportadores, a avaliação é que a renovação pela China das licenças de exportação de 402 frigoríficos americanos pode facilitar a derrubada das tarifas sobre a carne brasileira para entrar nos EUA, de 26,4%. Os americanos poderiam comprar mais proteína brasileira para abastecer o mercado interno e vender seus cortes a preços mais altos aos chineses para faturar com as exportações.
Perosa não vê espaço para um movimento forte nesse sentido por conta das diferenças dos cortes comercializados nesses mercados. “Isso pode acontecer. Eu não acredito muito nessa triangulação porque eles [americanos] precisam de carne para o mercado interno deles”, disse na entrevista. “Os canais das carnes são diferentes. O canal da carne americana na China é o da gôndola do supermercado, da carne premium. O do Brasil é da carne em bloco, que vai para a indústria para processamento”, acrescentou.
*O jornalista viaja a convite da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes)
Por Rafael Walendorff — Chongqing (China)