Carne para churrasco com certificação orgânica pode ser um dos destaques do Brasil no mercado global do segmento, avalia especialista alemão — Foto: Divulgação
Pesquisador da área de agricultura orgânica na Alemanha, o professor Ulrich Kopke, da Universidade de Bonn, não resistiu à carne brasileira. Ele conta que, na primeira vez que veio ao Brasil, na década de 1980, era “mais ou menos vegetariano”. Mas mudou de hábito. “Eu voltei carnívoro”, lembra.
“Isso é a qualidade da carne. Eu provei a carne no churrasco. E então, voltei a ser carnívoro”, relata o professor, em entrevista à Globo Rural.
A carne, para ele, é só um exemplo de como o Brasil pode ganhar mais espaço no mercado de produtos orgânicos. Vender ao mundo um churrasco certificado seria apresentar um produto que está conectado com a cultura brasileira, e com atestados de qualidade e de produção sustentável.
“Vocês têm produtos icônicos no Brasil. Quem vem ao Brasil toma um cafezinho e come um pão de queijo. Vocês poderiam vender pão de queijo orgânico, churrasco orgânico”, afirma.
Ulrich Kopke fala com a experiência de décadas de estudos sobre agricultura orgânica. É uma referência internacional no assunto. Integra quadros executivos de algumas das principais entidades de produção de conhecimento e foi um dos criadores, na Universidade de Bonn, de uma fazenda orgânica experimental.
Ele vem ao Brasil, mais uma vez, neste mês, como um dos principais palestrantes do Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, entre os dias 17 e 19 de março, em Campinas (SP). Promotor do encontro, o Instituto Brasil Orgânico (IBO) espera dar mais visibilidade ao setor.

Ulrich Kopke, pesquisador na área de orgânicos e professor da Universidade de Bonn (Alemanha): "Mercado de orgânicos deve ser direcionado pela demanda" — Foto: C. H. Koepke
Os organizadores afirmam que a intenção é ir além da abordagem acadêmica e promover uma articulação entre a ciência, a cultura, a produção e o mercado de orgânicos, que vem crescendo expressivamente no mundo.
O relatório ‘O Mundo da Agricultura Orgânica: estatísticas e tendências emergentes 2026’, com base em dados de 2024, aponta que varejo de produtos orgânicos atingiu faturamento recorde, de 145 bilhões de euros em todo o mundo. Foram 6,9 bilhões euros a mais que no ano anterior. Estados Unidos, Alemanha e China são os maiores mercados no setor. A área total com agricultura orgânica no mundo é de 98,9 milhões de hectares.
O Brasil detinha em 2024 uma área total de 1,023 milhão de hectares de propriedades rurais com produção orgânica, informa o relatório. São quase 25 mil agricultores. A receita do segmento de produtos certificados como orgânicos foi de 778 milhões de euros dois anos atrás.
“As commodities terão seu papel”, diz ele, em referência a produtos como soja e milho. “Mas, se olharmos para o mercado global, os produtos frescos, frutas, verduras, deveriam tem um papel na exportação. Temos que atender essa necessidade de produtos frescos”, diz o pesquisador.
O professor Kopke avalia que a tendência da produção e do mercado de orgânicos é de crescimento constante. E que o Brasil tem condições de assumir uma posição de liderança nesse movimento. Em sua visão, o país tem algumas das melhores certificadoras de orgânicos e, acima de tudo, um amplo suporte da ciência, especialmente da Embrapa.
Ele destaca o trabalho da pesquisadora Mariângela Hungria, da Embrapa Soja, vencedora do World Food Prize (Prêmio Mundial da Alimentação) no ano passado, pelo seu trabalho em microbiologia e ciência do solo.
“O prêmio foi dado a uma pesquisa de Fixação Biológica de Nitrogênio em condições tropicais, a uma pesquisa em microbioma, que é a ligação para entender como a saúde do solo e a saúde humana estão interligadas”, afirma.
Produção e mercado de orgânicos
O professor pontua que o mercado de produtos orgânicos deve ser direcionado pela demanda dos consumidores, não pela oferta. No Brasil, diz ele, essa demanda e o poder de compra no segmento ainda estão ligados a consumidores de nível de renda e de escolaridade mais elevados. Mas a tendência é de expansão.
“Há um crescimento e vejo um progresso à frente. Da perspectiva da concorrência, a questão é como o custo unitário dos produtos pode ser reduzido. Como agricultor orgânico, vejo esse desenvolvimento tranquilamente e acredito que os agentes do mercado vão encontrar seus caminhos”, avalia.
Do ponto de vista da produção, o desafio maior é como trazer a biodiversidade às fazendas, especialmente as de grande porte. Kopke afirma que a propriedade rural deve ser considerada e manejada como um organismo saudável e resiliente para o desenvolvimento das culturas agrícolas.
“Elevar a biodiversidade, trazendo de volta as árvores, implantando gramíneas nas bordas dos campos, significa trazer de volta pássaros, insetos, inimigos naturais. É o que vejo para o futuro: encontrar o caminho para grandes fazendas entrarem no mercado enfatizando que são capazes de promover biodiversidade”, afirma Kopke.
Por Raphael Salomão — São Paulo