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Participei ativamente da implementação da Polícia Comunitária em Cacoal e pude ver os resultados

Editorial de um policial militar operacional que atua no 4º BPM de Cacoal. Ele comenta o editorial do coronel Clodomar José Rodrigues, comandante da Regional II de policiamento em Rondônia.

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Entre a escola e o abandono - Cel PM Rodrigues

A matéria “Entre a escola e o abandono: A morte da educação integral no Brasil” apresenta uma crítica contundente à fragilização dos vínculos familiares, comunitários e educacionais e sustenta que, diante desse cenário, o policiamento comunitário seria uma espécie de solução artificial para um problema essencialmente moral e social. Essa conclusão, entretanto, merece ser questionada.

O principal ponto de discordância está na ideia de que o policiamento comunitário pressupõe a existência prévia de uma comunidade plenamente organizada. O modelo não parte necessariamente de uma comunidade já fortalecida; ao contrário, sua finalidade é também reconstruir canais de confiança, comunicação e cooperação entre população e instituições públicas.

O próprio Ministério da Justiça define a Polícia Comunitária como uma estratégia voltada à prevenção da violência, à aproximação entre instituições de segurança e sociedade, à participação social e à integração com a rede de proteção social. Portanto, não se trata simplesmente de transferir ao cidadão a responsabilidade pela segurança pública. Trata-se de aproximar o Estado do território e identificar, conjuntamente, problemas que favorecem a violência.

Nesse sentido, a crítica apresentada pela matéria acaba produzindo uma inversão: justamente porque existem desagregação social, medo, isolamento e perda de confiança nas instituições, torna-se necessário desenvolver mecanismos institucionais capazes de reconstruir vínculos.

A escola pode ser um desses espaços. Educação integral e policiamento comunitário não precisam ser políticas concorrentes. Podem atuar de maneira complementar. Uma escola que permanece aberta por mais tempo, oferece atividades culturais, esportivas e educativas e mantém diálogo com famílias e comunidade amplia as oportunidades de proteção social. Paralelamente, uma polícia orientada pela proximidade pode conhecer melhor o território, prevenir conflitos e atuar de maneira articulada com educadores, famílias e demais serviços públicos.

Há evidências recentes que reforçam essa possibilidade. Estudo realizado em São Paulo entre 2012 e 2024 encontrou associação entre a implantação do ensino integral e redução de determinados crimes no entorno das escolas, mostrando que políticas educacionais podem produzir efeitos também sobre a segurança pública.

Além disso, o próprio poder público vem estruturando mecanismos de integração entre segurança e educação. Em agosto de 2026, Ministério da Justiça e Ministério da Educação trabalharam na elaboração de um protocolo nacional para prevenção e enfrentamento da violência extrema nas escolas, envolvendo polícias, guardas municipais, profissionais da educação, Unicef e outros órgãos.

Isso demonstra que a questão não precisa ser apresentada como uma escolha entre “educação” e “polícia”. O desafio é construir uma política pública em que educação, prevenção social e segurança atuem sobre diferentes dimensões do mesmo problema.

Também é importante distinguir policiamento comunitário de militarização da escola. Policiamento comunitário não significa transformar professores em agentes de segurança nem converter a escola em ambiente policializado. Seu fundamento é a presença institucional preventiva, o conhecimento do território, a mediação de conflitos, a comunicação com moradores e a integração entre órgãos públicos.

Uma experiência concreta é o programa Escola Segura, do Paraná, que prevê integração entre Polícia Militar, comunidade escolar e equipes pedagógicas, com foco também na mediação de conflitos e na prevenção no entorno das escolas.

Assim, a fragilidade da comunidade não constitui necessariamente argumento contra o policiamento comunitário. Pode constituir justamente uma das razões para adotá-lo — desde que ele seja implementado como política de prevenção e aproximação, e não como simples aumento ostensivo da força policial.

A discordância que posso vislumbrar à matéria, portanto, não é negar a existência da crise educacional ou social apontada pelo texto. É rejeitar a conclusão de que, porque a comunidade está fragilizada, o Estado deve abandonar a estratégia de aproximação. Se existem medo, isolamento e desconfiança, a resposta institucional pode ser exatamente criar espaços permanentes de diálogo, presença e cooperação.

A educação integral pode ampliar o tempo de proteção e desenvolvimento dos estudantes; a família pode participar da formação; os serviços sociais podem atuar sobre vulnerabilidades; e o policiamento comunitário pode estabelecer uma relação permanente de prevenção e confiança com o território.

Nesse modelo, a polícia não substitui a escola, a família ou a comunidade. Ela cumpre sua função específica dentro de uma rede maior de proteção.

Portanto, a matéria tem razão ao chamar atenção para a crise dos vínculos sociais, mas é possível discordar de sua conclusão sobre o policiamento comunitário. A ausência ou fragilidade de vínculos comunitários não demonstra que a aproximação entre polícia e sociedade seja uma utopia. Pelo contrário: pode indicar que políticas públicas de proximidade, integração e prevenção são ainda mais necessárias.

O insucesso de muitos empreendimentos de modo geral; esbarra exatamente na ausência de uma gestão madura suficiente para entender que constância leva tempo para produzir frutos na prática; e compromissada em realizar de fato.




Autor: Policial militar operacional do 4º BPM

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